AUTORES LIVRES: “Doenças”, por Edmar Neves

despertador

(…) (O mundo tá acabando? Não, é só o despertador)… “Merda”. (Acordar é a primeira derrota do dia). Acender um cigarro, jurando que vai parar algum dia. Banho, café, dar bom dia pra faxineira, sair pra trabalhar, almoçar, voltar a trabalhar, voltar pra casa, banho, jantar, descansar, não necessariamente nessa ordem.

Transito parado na avenida principal, talvez acidente. Chegar no serviço, ver a cara feia do chefe: “Tá atrasado viu, e é a segunda vez nessa semana”. “Desculpe senhor, o transito táva horrível hoje”. (Eu sei que eu tô atrasado, seu filho da puta, é que aconteceu uma porra dum acidente e a merda do transito parou, caralho!). Sentar na cadeira jurando que um dia vai achar um emprego melhor, mandar o filho da puta do chefe para a puta que o pariu, se despedir do seu Ozório, o porteiro – a única pessoa que vale a pena na empresa – e ser feliz, feliz, finalmente feliz. Ou não, tanto faz a essa altura da vida.

Papelada, e-mail, pausa pro café e cigarro. “E sua mãe como tá?”. “Tá bem, na medida do possível”. “Manda um abraço pra ela”. “Pode deixar”. Telefonemas, papelada, ir ao banheiro sentar na privada e dormir um pouco, lavar o rosto e tomar um café pra disfarçar, almoçar naquele restaurante da esquina onde a opção vegetariana é boa, mas o bife acebolado e o suco de laranja são horríveis, ouvir os colegas do escritório falando sobre a encomenda cancelada na semana passada, sobre a preocupação com o corte de pessoal, sobre a nova secretária que é uma gostosa, sobre o novo carro que vai sair, sobre os filhos na escola, o jogo que decidirá a semifinal, sobre a esposa que tá enchendo o saco por causa de alguma coisa, sobre o futebol no fim de semana, a filha do seu Ozório da portaria que ficou louca de vez depois de terem descoberto que estava colando vélcro com a vizinha e cortou os pulsos para chamar a atenção, a nova piada sobre o chefe e o puxa saco do chefe, um tremendo filho da puta. Rir na hora certa, comentar na hora certa, ligar pra casa pra ver se tá tudo bem. Tá tudo bem. Voltar pro serviço. Papelada, cigarro, café, papelada, e-mail, telefonemas, pausa pra um café e cigarro, ouvir do chefe que têm vários serviços atrasados e que surgiu uma encomenda para amanhã no começo da manhã e que tudo tem que estar pronto hoje. Ficar até tarde no serviço. Dar um tiro no banheiro quando todo mundo tiver ido embora, pensar em como seria legal enfiar uma bala na cabeça. Trabalho terminado, 20 horas e 16 minutos, dar outro tiro de leve, ir embora. Finalmente! Um dia, se Deus quiser, arranjar uma arma, levar pro serviço e atirar em todo mundo. (Tipo filme de hollywood, ou teria sido uma notícia no jornal?).

No caminho pra casa passar em algum bar para uma cerveja e uma espiada no jogo, refletir se arranja uma puta para passar a noite. Tem sido difícil ficar na casa da mãe ultimamente, mas ele teve que deixar o apartamento com a Célia depois da separação, então paciência. E no fim das contas foi até bom, pois agora pode cuidar da mãe que se recupera de um tumor no seio. O problema é que é doloroso assistir tudo morrendo aos poucos. Abandonar a ideia da puta enquanto toma outra cerveja, ir pra casa, tentar dormir. Outro cigarro, jurando que vai parar um dia.

Chegar no prédio, dar uma volta no quarteirão. Ninguém suspeito. Estacionar o carro na garagem, esticar algumas carreiras, trancar o carro. Escada, corredor, porta, chave, porta aberta, porta trancada. Ver se a mãe está bem, ela está bem. Cedo demais pra dormir. Tomar um banho, pizza no micro-ondas, cerveja, varanda e cigarro, pizza pronta, mas e a fome? cadê? Ligar a TV. Mais de 200 canais. Filme nacional dos anos 90? não; desenho animado de um cachorro e sua turma? não; coração, tum-tum-tum, batendo rápido, bem rápido… Documentário sobre astros da musica pop? não; jornal com os principais assuntos do dia? Hum… não; documentário sobre alienígenas? não; programa sobre esporte? AH! O resultado do jogo… Ir ao banheiro, enrolar uma nota de 5, dar mais um tiro. Acabou o pó. Surge a duvida: ir ou não ir na biqueira buscar mais? É que já foram mais de duzentos e cinquenta conto e ainda nem acabou a semana. Além disso, acabou a grana. Na verdade restaram 5 reais. Os caras ainda não aceitam cartão de crédito, AINDA. Mas tem um relógio de ouro da mãe, herança da avó, coisa fina. E, ainda por cima, está muito cedo pra dormir.

Ir ao quarto da mãe, apanhar o relógio dentro do porta-joias, na gaveta do criado mudo. A mãe continua dormindo como um anjo, dopada de remédio. A foto de sua sobrinha lhe olha e sorri de cima do criado mudo. Essa sobrinha, a Manu, é uma das coisas mais maravilhosas do mundo. É sua única sobrinha. Filha de seu irmão mais velho, o Marcelo, mimada por todos e muito inteligente, sabe mexer em todas essas novas tecnologias e passa o dia todo quietinha na frente do computador. Andava com uns problemas na escola ultimamente. Teve de começar a ir no psicólogo e tomar uns remédios pra atenção. E era pra ele ter ligado pra perguntar como ela estava e marcar uma visita no fim de semana. Esqueceu. Burro. Voltar à sala, TV ligada. Acabou o programa de esporte que discutiu o lance polêmico do jogo, começou uma partida de futebol do torneio inglês. Trocar de canal. Documentário sobre a vida animal em seu habitat natural? não; série sobre uma família que tem uma loja que compra e vende objetos históricos? não (Merda, devia ter ligado pro meu irmão hoje, pra ver como a Manu tá); filme erótico que não mostra penetração? Éééé… não; ir ou não ir na biqueira buscar mais pó? Seriado sobre caras procurando objetos históricos pra vender… não… Buscar mais pó? Refilmagem de filme clássico sobre caras julgando um cara que esfaqueou o pai… Esqueceu de ligar pro irmão pra perguntar sobre a sobrinha de quem gosta tanto. Passar na biqueira quando for trabalhar, abrir outra cerveja, pegar celular, ir na a varanda, acender outro cigarro…

…Alô, Gustavo?! Tá tudo bem? ACONTECEU ALGUMA COISA COM A MÃE?!”. “Não-tá-tá-tudo-bem-sim-tá-tudo-bem-com-a-mãe-sim-com-ela-tá-tudo-joia-Marcelo-sabe-o-que-é-é-eu-queria-sabe-como-a-Manu…”. “Ai meu deus, porra Gustavo que horas são?… CARALHO CARA SÃO QUASE QUATRO DA MANHÃ, SEU FILHO DA PUTA! Cê deve tá drogadaço né seu desgraçado?!”. “Pô desculpa Marcelo, não-vi-que-horas-er…”. “DESCULPA O CARALHO. VOCÊ É FODA GUSTAVO, A MÃE DOENTE E VOCÊ AI, SÓ FAZENDO BURRADA!”. “Mas também-num-é-pra-tanto, cacete, eu-só-te-ligu…”. “Você só faz burrada, Gustavo, sempre, sempre só fez burrada! Por isso que a Célia largo de você, filho da puta, tá tudo difícil pra caramba e você ai, fazendo burrada”. “Mas num-precisa-ser-arrogante também, caralho, não é pra tant…”. “Puta que o pariu, Gustavo, o que a gente faz com você hein?! Tem um emprego bom, tem uma vida boa e fica ai, fazendo burrada!”. “VOCÊ NÃO TEM-NADA-COM-A MINHA VI…”. “Você é um cuzão, isso sim. 32 anos e nunca tomou juízo… A gente vai ter que te internar, pra você parar de dar trabalho pra gente. Seu desgraçado. Sempre você, sempre. E eu tô sabendo que você anda roubando as joias da mãe pra compra cocaína, se não tiver usando coisa pior. Ela não quis falar que foi você, mas eu sei que foi”. “Vai-toma-no cu-Marcelo, va…”. “É isso mesmo, que eu tô sabendo que você anda fazendo isso, a mãe doente porra… Tá acontecendo igualzinho quando você tava casado com a Célia! A gente vai ter que internar você mesmo. Não tem jeito”. “Vai-se-fode-seu-filh…”. “VAI VOCÊ SEU DESGRAÇADO!… Vai dormir que daqui a pouco todo mundo tem que i trabalhar, caralho! Só faz burrada mesmo… a gente vai ter que internar ess…”. “ALÔ-MARCELO! NÃO DESLIGA. Merda! MARCELO, SEU FILHO DE UMA PUTA, arrogante de merda. Merda, merda, merda, Marcelo filho da pu…”. Celular, parede, celular em mil pedaços, foda-se. Apagar a bituca de cigarro no braço, acender outro cigarro desejando que todo o universo vá à puta que lhe pariu. (Marcelo você nunca conseguiu entender o que é sentir dor… Sempre um certinho de bosta e arrogante pra caralho, sempre!…). “Filho da puta”… (Fui eu que vim morar com a mãe no momento em que ela precisava e você que vem me julgar?!). “Filho da p… merda.” Ter de segurar a barra com a mãe na pior fase da vida dele, após ter se separado da Célia, após perder o chão. (Marcelo você não sabe o que ver o mundo todo se fodendo ao seu redor, não sabe). Na TV acabou o filme sobre o julgamento do cara, começou um filme sobre dois velhinhos que gostam de arte tentando viver sossegados. Desligar a TV, ir pra cama. Rolar pra um lado. Rolar pro outro. (Célia por que você me abandona justo agora…). Sirenes apitam na rua mostrando que sempre há alguém acordado…

 …TRIN-TRIN-TRIN-TRIN, TRIN-TRIN-TRIN-TRIN-TRIN. (O mundo tá acabando? Não, é só o despertador)… “Merda”. (Acordar é a primeira derrota do dia)…

Edmar Neves

Nasceu em Mogi Guaçu e tem 23 anos, estuda Licenciatura em Letras pela Universidade Federal de São Carlos. Tem interesse em Educação Popular e no que se convencionou a ser chamado de literatura marginal, talvez um dia termine um projeto de um livro de contos, se a preguiça permitir. Gosta de cerveja e de conversas sobre a verdade do universo e a prestação que vai vencer.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s