Programação de março do Cineclube CDCC

Com sessões gratuitas aos sábados, às 20 horas, o Cineclube do Centro de Divulgação Científica e Cultural (CDCC) da USP em São Carlos promoverá no mês de março a seguinte programação:

Meia-noite-em-paris-poster17 – MEIA-NOITE EM PARIS
Midnight in Paris, Estados Unidos, 2011, Comédia/Romance, 94 minutos
Direção: Woody Allen
Elenco: Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Michale Sheen, Kurt Fuller, Kathy Bates
Woody Allen, em “Meia-Noite em Paris”, apresenta-nos ao saudosismo exagerado, ao romantismo desvalorizado e à antítese dos roteiros cinematográficos hollywoodianos: a arte aparentemente erudita. A representação disto tudo se faz com o sonhador e roteirista [de cinema] Gil Pendler, que nas vésperas de seu casamento viaja com a noiva e os pais dela à Paris para garantir novas e inesquecíveis memórias ao casal e permitir ao escritor, que investe num romance desacreditado por todos ao seu redor, inebriar-se por todas as possíveis sensações que a cidade-luz, com suas mais distintas vanguardas, fornece a cada esquina. Romântico, Gil enaltece a vida boêmia noturna, a cidade movimentada sob a chuva e desacredita do pseudo-intelectualismo dum cavalheiro pedante qualquer, genérico, que aparenta ministrar uma aula maçante a cada instante.
Woody, além de fornecer ricas referências que reforçam o caráter exaltante de um passado mais cintilante e fomentador, aproveita do contexto para criticar o contemporâneo pensamento burguês do imediatismo e da cultura de consumo, que se impregna na massa e a faz uma escrava de suas ideias, uma observadora desatenta e pouco pensante, cuja única apreciação da arte se manifesta pelo prazer a obras de entretenimento. Nitidamente é uma critica já desgastada, mas bem argumentada, que utiliza de si mesmo (metalinguagem) para explicitar ao público o porquê do além-obvio e de tudo aquilo que transcende a dança-da-moda vincularem-se, para as visões que já acolhem tão bem aquilo que lhes é entregue como cultura, ao chato e ao enfadonho.
“Meia-Noite em Paris” abriu o Festival de Cannes de 2011 apresentando-se como um filme de uma fluidez incrível e de um encanto um tanto quanto bucólico e fantasioso, engendrando uma personalidade poética que fornece uma sensação de apaziguamento e imersão, que conta, além disso, com uma boa pitada de bom-humor satírico, tornando-se, assim, uma obra sem restrição, acessível ao grande público.
Lucas Marques Gasparino
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 10 ANOS
Tema: Ilusão
Contém: Consumo de drogas lícitas, linguagem de conteúdo sexual

Layout 114 – TULPAN
Tulpan, Cazaquistão, 2008, Drama/Comédia, 100 minutos
Direção: Sergei Dvortsevoy
Elenco: Askhat Kuchencherekov, Samal Eslyamova
Às estepes do Cazaquistão Asa retorna após temporada na Marinha, na cidade, na civilização. Hospedado em casa de sua irmã, em que furacões são tão ordinários que sequer são temidos, ele manifesta o desejo por tornar-se um pastor rico, embora com certos luxos que somente a cidade permite. Como requisito, no entanto, ele precisa de uma mulher para fazê-lo homem pronto e para cuidar das tarefas de casa e das futuras crianças, enquanto o chefe da família, o suposto implacável, lida com o gado principalmente ovino e estabelece relações de manso servil com o dono de sua temporária terra. Dada que esta é exatamente a situação da família de sua irmã, ele se insere como aprendiz de pastor do cunhado e engendra uma busca por uma mulher pretendente (sendo uma delas a camponesa Tulpan). Os velhos costumes ocidentais e ainda sólidos em países subdesenvolvidos e teocráticos têm sua representação máxima nessa jornada de Asa: o casamento é comercializado em troca de presentes, méritos e honra do homem e a beleza da mulher basta para fazê-la boa o suficiente para ele. Mesmo embora sumamente primitivas, são essas relações de interesse que permitem a sobrevivência do indivíduo e suas crias num ambiente em que a única possibilidade de vida é criada na junção de um homem forte e de uma mulher prendada.
O filme e seu roteiro são indiscutivelmente naturalistas (escola literária que ostentava o revés das faculdades mentais em relação às necessidades biológicas), fluem como se a câmera fosse uma intrusa invisível numa história real, que aconteceu de fato, sem intromissões alheias, como diretores ordenando corte de cena e/ou falhas dos atores em suas representações. O cotidiano, costumes, vícios, desejos, necessidades são tão intimamente distintas as ocidentais que é inútil tentar reconhecer o contexto ou se projetar em algum personagem; a mais inteligente atitude que se pode tomar ao assisti-lo é simplesmente permitir-se conhecer, conhecer o novo (embora velho), conhecer o distinto (embora primitivo).
Lucas Marques Gasparino
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 10 ANOS
Tema: Cotidiano
Contém: Consumo de drogas lícitas

nobodyknows-poster-a4121 – NINGUÉM PODE SABER
Dare mo shiranai, Japão, 2003, Drama, 141 minutos
Direção: Hirokazu Koreeda
Elenco: Yûya Yagira, Ayu Kitaura, Hiei Kimura
Inspirado em um caso real de abandono que ocorreu na década de 1980 no Japão, o filme apresenta as dificuldades familiares de uma família disjunta, sem sentimentalismo piegas ou qualquer impressionismo que se tanto retrata em filmes de temas dum mundo caduco indiferente à fragilidade. Uma mãe e seus quatros filhos, cada uma de pai diferente, recém-chegados a um novo apartamento que lhes servirá como casa e cuja dona só sabe da existência da mãe, Keiko, e do filho mais velho, Akira, veem-se inicialmente numa harmonia e felicidade pelo simples fato de estarem juntos. Keiko, no entanto, é uma passional confusa e perdida que a cada novo namorado se entrega ao desconhecido e aos sonhos de uma vida antagônica a que vive, abandonando as crianças por períodos que vão de meses a anos. Cabe então, como já é de praxe e conhecido, ao filho mais velho, aqui somente com doze anos, cuidar de si mesmo e seus irmãos, com uma quantia inócua de dinheiro deixada pela mãe. Sendo o único com permissão de sair do apartamento, Akira é responsável pela comida (que dá esperança até mesmo numa refeição de macarrão instantâneo) e pelas contas, além de precisar manter o equilíbrio em casa, que é afetado pelo seu racional desejo de manifestar a infantilidade e ter amigos. A trama se desenvolve aos poucos, acompanhando as modificações das personagens de modo a fornecer ao telespectador uma impressão completa do que se passa, dispensando a necessidade de destacá-las vivamente: as roupas se esfarrapam e se tornam curtas, a tristeza se torna dura, fria, sendo percebida pelo simples e vago olhar de uma criança, uma criança que sonha acordada, olhando para o céu, apreciando a passagem de um avião, e que é trazida de volta a realidade, ao chão, por seu irmão mais novo, faminto, que lhe puxa a mão.
“Ninguém Pode Saber”, mesmo embora intenso e reflexivo, foi inspirado em uma história ainda mais brutal de puro revés da condição humana em seus vínculos fraternais paternos e maternos.
Lucas Marques Gasparino
LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Tema: Laços familiares

19221128 – TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS
Loong Boonmee raleuk chat, Tailândia, 2010, Drama/Fantasia, 114 minutos
Direção: Apichatpong Weerasethakul
Elenco: Sakda Kaewbuadee, Matthieu Ly, Vien Pimdee, Jenjira Pongpas
Residente numa fazenda da Tailândia, Tio Boonmee, um latifundiário moribundo acometido por uma doença renal, é dotado com a capacidade de recordar as suas vidas passadas e, aparentemente, lidar com a espiritualidade somente como mais um aspecto da vida. Durante a visita de pessoas que o amam, é apresentado um jogo intrincando de metafísica religiosa, capaz de confundir e espantar, de modo que em momentos desvinculados ao tempo, retratados em cenas fragmentadas, ocorre-nos uma leve perspectiva da intenção da situação exibida: os tormentos da inconsciência, aos quais não se tem controle mental, se manifestam como projeções de experiências passadas.
As diversas formas de Boonmee são retratadas com uma aparente naturalidade, mesmo diante ao desconhecido e ao repugnante, como se a existência fosse um fluído que transitasse entre os seres, sempre com os mesmos instintivos desejos, prazeres e emoções. A floresta, em que não se ocorre hesitação e a máxima intelectualidade tem papel único de permitir apreender melhor dos sentidos, funciona como uma espécie de ambiente ideal para as estreitas e sempre suspeitas relações entre o quê sabe-se lá que se aloja nos distintos organismos. Boonmee, no entanto, não se afeta; quando não está fragilizado pela drenagem de seus rins, se exibe com uma implacabilidade e extrema compreensão do que lhe cerca, inclusive ao abordar seus arrependimentos da vida atual e das passadas, sejam as particulares ou históricas.
Entre reencontros excêntricos, explicações paranoicas e conflitos entre o campo e o urbano e entre o conterrâneo e o imigrante, Tio Boonmee, em pensamentos transcendentes, iluminado sempre por uma luz constante e indiferente, que vem do desconhecido, entra pela janela e se impõe com dualidade (o objeto e a imagem, a criação e a destruição, o presente e o passado), sai em uma jornada não só de encontro a sua morte, mas de seu início.
Lucas Marques Gasparino
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 10 ANOS
Tema: Vida
Contém: Conteúdo sexual não explícito

Apoio cultural da Locadora Vídeo 21.

O CDCC fica na Rua nove de julho, 1227, Centro.

Mais informações:
Tel.: (16) 3373-9772

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