Dia Internacional da Mulher, e o que isso quer dizer?

Por Marcela Moreti

Hoje, no Dia Internacional da Mulher, eu não poderia deixar de testemunhar o que vivi ontem, na “Marcha das Mulheres” na minha cidade, São Carlos, como um apelo a todas as mulheres que estão na luta, que estão “marchando em nome do feminismo”, que estão buscando um mundo mais digno e justo para todas nós.

Durante o evento, foram gritadas nossas palavras de ordem, foram expostos nossos cartazes com apelos, mostramos a cara para a cidade, muitas aplaudiram, muitos ignoraram; presenciei guardas de trânsito putos com o movimento, talvez por dar mais trabalho, talvez por atrasar o trânsito do local; presenciei mulheres de suas casas nos saudando e, ao final do evento, aconteceu algo que achei, ao mesmo tempo, o mais bonito e o mais lamentável do dia.

Havia uma mulher, moradora de rua, visivelmente bêbada, interagindo conosco, mulheres que estávamos lá realizando o ato, fazendo as apresentações e falas dentro de um “script” programado e, posso estar sendo exagerada, mas para mim ela era uma das pessoas ali presentes, de fora do movimento, que mais se identificou com a luta, que mais se empoderou do ato, ela queria fazer parte daquilo, ela sentia na pele que estávamos ali para sermos ouvidas, para reivindicar a nossa fala! E sim, ela fez exatamente isso: pediu para falar! E o próprio movimento a calou, não dando um espaço fora do programado para que ela falasse!

Eu, como parte daquilo, não excluo a minha responsabilidade, afinal eu vi, eu entendi o que estava acontecendo e também me calei, não comprei briga para dar voz àquela mulher e me senti péssima, me senti devastada, me senti hipócrita: estava ali, gritando e falando sobre mulheres que foram vítimas de silenciamento, de classes que são vítimas desse silenciamento TODOS OS DIAS e a história se repetiu na minha frente, e pior, com meu consentimento.

Mas, para nossa sorte, aquela mulher nos deu uma segunda chance. Logo depois de ser calada, num momento em que a Marcha já havia sido finalizada e algumas mulheres ainda estavam ali cantando letras de empoderamento, ela VOLTOU. Voltou e tomou a palavra, literalmente tomou o microfone de uma das mulheres que estava cantando e falou, se fez ouvir!!

Eu e mais três amigas que estávamos devastadas com o acontecido aplaudimos, gritamos e fomos até ela agradecer por ela não ter desistido, nos abraçamos, nos desculpamos por não termos ajudado anteriormente e a convidamos para almoçar conosco.

Em meio a lágrimas e palavras de revolta, aquela mulher, Renata, como quis que nós a chamássemos, nos contou a sua história, nos contou como ela foi parar na rua por não aguentar mais as agressões de seu ex-marido, nos contou que ainda sofre agressões, mesmo tendo um documento de restrição que diz que seu agressor não pode se aproximar dela (documento este que ela nos mostrou e que carrega sempre com ela), nos contou sua história de luta, a história que o movimento, que luta por ela, não a deixou contar!!

Não estou aqui para culpabilizar ou apontar dedos, o que eu quero com esse texto (que saiu mais extenso do que planejei) é que todas as mulheres que estão lendo, sintam meu apelo, sintam a minha tristeza em saber que nós também silenciamos, nós também estamos sujeitas a cometer esse tipo de atrocidade, por isso, irmãs, vamos acordar e olhar à nossa volta, nós não podemos negar voz a NENHUMA MULHER, esteja ela bêbada, ou que quer que seja!!

Desculpem o desabafo e continuemos na luta!!!

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