Coluna 9: “Que a zueira never ends”, por Lucimar Mutarelli

unnamedSe tem uma coisa que a minha família faz bem é mesa compartilhada e amigo secreto

A maioria das nossas festas são compostas de pratos que cada um vai chegando e trazendo. Minha mãe reclamava quando a gente tirava foto da mesa pronta, falava da toalha velha, de alguma comida servida na panela ou na forma e dizia: “essas meninas”. Depois, com os álbuns de fotos impressas, ela gostava de ver e chiava de novo: “essas meninas…olha o que elas fotografam”

Outra tradição que eu adoro e espero o ano inteiro é o Amigo Secreto. Num dos primeiro que eu lembro, o meu cunhado Dirceu entregou uma caixa muito grande para a sua esposa, Marina e, dentro, uma centena de caixinhas. Cada uma, recheada de balas quadradinhas. Ela jogava para o alto, dividindo com todos e animando a festa. Na penúltima embalagem, um relógio aparecia e compensava todo o constrangimento que as brincadeiras possam causar ao presenteado

Trinta e cinco anos depois, continuamos. A família tem 47 membros e somente uns doze não brincaram neste ano. Não participaram do sorteio mas estavam lá pra ver as sacanagens e homenagens que seriam feitas

A zueira começa já na escolha do presente que vai desde um carro, uma casa, uma TV de 300 polegadas, até um vale massagem ou ver um duende de verdade

O campeão da lista é o tal do “algo pessoal”, um genérico que talvez signifique: “eu quero que você pense em mim ao escolher o meu presente. E a zueira não para. Continua via e-mail, facebook, whatsap ou pessoalmente também

Já presenciei muita farinha, manga, embalagens vazias de whisky, garrafas de pinga com leite ou pacotes enormes que contém nada só porque o amigo havia colocado na lista: “qualquer coisa”. A sacanagem dura poucos segundos e, passada a hora da brincadeira, vem sempre um presente verdadeiro e carinhoso

Minha mãe e meu pai gostavam muito da realização do Amigo Secreto. Meu pai foi o primeiro a morrer, em 1990, o que tornou a continuação do Amigo muito mais importante para reunir a família toda. Lembro de um, que ele me tirou. 1982 ou 1983. Ficava atrás de mim querendo saber dos cantores que eu ouvia, do tamanho da minha roupa ou bisbilhotando o número do meu chinelo. Ganhei o primeiro disco da minha vida: Fabio Junior. Eu me apaixonei pelo Marcos e pela Janete na novela Água Viva. Tinha certeza que lembrava dele no Ciranda Cirandinha mas, consultando o Google, descobri que passou em 1978, aos nove anos eu não podia ficar acordada até tão tarde, dormia depois do Boa Noite do Cid Moreira. Imagina uma criança de 9 anos hoje dormir as 9 da noite??? Algumas lembranças criei assistindo Video Show. A Globo faz parte da minha vida. Minha mãe só trocava de canal aos domingos para ver o Silvio Santos. Até hoje eu brinco de qual é a música. O vídeo show também me informa sobre as novelas que eu vou ou não assistir. Quando não tem nenhuma que me prende entro no youtube e procuro pelas antigas. É lugar comum as pessoas que gostam de novela falar: “as novelas antigas que eram boas”. Eu sempre cito Avenida Brasil. Ainda não é antiga e é espetacular. E as fotonovelas que as minhas irmãs compravam? Eram tipo histórias em quadrinhos só que com fotos. Sétimo Céu, não preciso nem perguntar pro Google. Lembro até das capas. Era viciada

O exercício de escrever essas crônicas está desmentindo o fato de que eu sempre falo que não tenho memória. Escrever é uma maneira de reviver e, conforme eu vou mostrando os textos pra minha família, cada um vai buscando suas histórias também. Esta semana mesmo, no aniversário do Dirceu, meu marido me deu umas pingas pra experimentar e, do nada, eu pedi pinga e café. Meu marido: você quer pinga ou café? Respondi que queria os dois. Ele riu e foi buscar pra mim. Todo mundo fala que o meu marido me mima mas eu o mimo também, só que menos, bem menos…aquele monte de k

Tomei primeiro a pinga e, com o gostinho na boca, arrematei com o café. No asilo que visitávamos a Vó Norma (da parte do meu marido) conheci a Dona Aracy. Ela comia um pedaço de bolo e pedia café pra tirar o engasgo. Depois pedia mais bolo pra tirar o gosto do café e café pra tirar o engasgo do bolo. E nisso ia a tarde inteira. Gostava de conversar com ela porque ela contava boas histórias, tinha certeza que ela era lúcida até o dia em que ela olhou fixamente para embaixo do sofá e falava: olha o meu irmão ali. Paro e pergunto pro meu marido se essa lembrança é minha mesmo. A gente tem tanta história que, às vezes, preciso parar e perguntar pra ele se realmente aconteceu comigo ou com ele. Ele confirmou que aconteceu a nós dois. Na maioria das vezes, ficávamos na mesa e ela pedia pra nós dois. O bolo e o café.

E, curiosamente, mais de duas horas depois, com a maioria dos convidados já haviam ido embora, sentei com as minhas irmãs e sobrinhas, (meu marido também fica junto mas depende do assunto e do volume da voz) cada uma falando por cima da outra. Numa família desse tamanho você precisa falar alto mesmo senão ninguém te ouve. Nem sempre. A Marcia falou baixo e eu prestei muita atenção. Eu sou do time das que falam alto. Depois que comecei a escrever estou tentando ouvir mais e falar menos ou até pensar antes de falar e antes de escrever. Quando vejo, já foi. Estou grifando um livro do Confúcio para dar ao meu filho do dia que ele fizer 20 anos. Imagina se eu não vou cantar “bem mais que os meus vinte e poucos anos” pra ele??? E um discípulo pergunta ao mestre: quantas vezes é preciso pensar antes de falar. O professor responde: o ideal seriam três mas duas já está bom. Quem me dera…quem me dera….kkkkkkkkkkk

Me perdi completamente no assunto. Enfim, tudo isso pra dizer que eu aprendi a gostar e a brincar de Amigo Secreto com a minha família. Do Fabio Junior aprendi a amar mesmo com as novelas e suas músicas de fossa. Ouvia e cantava O que é que há chorando. De preferência no espelho. O Chico (o Buarque, não o meu filho) escreveu  pra mim: deixo que as lágrimas invadam meu rosto, gosto de me ver chorar. É impressionante como algumas pessoas tem vergonha de admitir que gostam dele. Do Fabio Junior, não do Chico. Entendo que ele foi para um caminho diferente do meu (o Chico também foi) mas quem consegue ouvir Pai sem chorar ou sem tomar de um café pra tirar o engasgo???

Esse preconceito com ele me fez lembrar que, no mesmo ano, o Djavan lançou o Luz e eu queria também. Meu pai odiava o Djavan. Saía da sala quando ele aparecia no Fantástico ou em qualquer programa da Globo. Fico triste de imaginar que era simplesmente por ele ser negro. Prefiro pensar que o meu pai gostava mais de música sertaneja, a antiga de raiz, e a modernidade das trancinhas do Dajavan e/ou da MPB eram uma ofensa pra cabeça dele. É isso, as pessoas são assim, algumas mudam. O meu pai não teve tempo. Morreu cedo demais. Queria muito ver o meu pai vivendo a revolução comportamental dos negros, das mulheres, dos índios, dos asiáticos, dos anões, dos homossexuais, dos machos brancos sempre no controle, opa, dos machos brancos não. Esse não fazem parte das minorias oprimidas. Por enquanto. Um mundo em que eu posso gostar do Fabio Junior e do Djavan, não tem preço. Mesmo

Foi a minha mãe que meu deu o dinheiro, escondida dele é claro, para que eu comprasse o disco do Djavan mas eu só podia ouvir quando ele não estivesse em casa. Curiosamente, quando eu casei, algumas músicas, eu também não podia ouvir na minha casa. Meu marido tem uma relação mística com música e não é qualquer coisa que admita que entre nos seus ouvidos. Nesse momento ouço Eu me rendo no volume máximo. Deus abençoe os fones de ouvido. Entendo e respeito mas Legião Urbana eu já posso ouvir fora do fone. As pessoas mudam mesmo. Eu também não podia assistir Amelie Polain quando ele estivesse na sala e outro dia sentou pra ver comigo e acabou gostando….carinha amarela com dois corações no lugar dos olhos

É lugar comum dizer que a mulher sempre busca num homem referências do próprio pai. Uma vez meu marido quase matou a Marli de susto (outra irmã) ele estava acocorado e fumando no quintal exatamente como o meu pai ficava. Infelizmente o Lourenço não conheceu o meu pai. Eu ia adorar ver os dois assistindo televisão e reclamando de tudo que eles falam ou mostram. Assistir televisão com os dois é uma experiência maravilhosa. Você tem que ficar quieta e falar baixo mas os dois falam o tempo todo

Já contei aqui: o meu pai só ficava quieto vendo jogo do Corinthians, assistindo Som Brasil e o Jornal Nacional, ou seja, quando ele gostava do programa ele calava a boca. É isso. Meu marido também é assim. Detesta que eu assista a Globo mas gosta da minha companhia então ele fala, o tempo todo. Eu rio, mesmo, gargalho. Só quando eu estou chorando com alguma cena ou propaganda de margarina que ele para a zueira termina. Senta ao meu lado e beija minha mão em silêncio.

O idílio todo dura poucos segundos e ele volta a brincar e eu volto a sorrir

Amigo Secreto, Lucimar. A Concha falou que é difícil acompanhar o que você escreve

Porém, a partida da minha mãe, vinte anos depois, com a brincadeira já consolidada e o fato dela adorar participar (apesar de reclamar de quem ela tirou e depois reclamar do presente que ganhou, mesmo que ela própria tivesse escolhido) acabou fortalecendo ainda mais a necessidade de perpetuar a brincadeira

E, assim, seguimos. Os filhos da Marina e do Dirceu já casaram e tem filhos. Entenderam o espírito da diversão: o que realmente importa não é somente o que está dentro da caixa. O que vale, obviamente, é o momento, a reunião, a mesa enchendo de arroz, feijão, peru, pernil, cuzcuz, torta vegetariana, farofa e até frango com quiabo.

Essa mesa, a mesma que eu dei pra minha mãe quando saí do banco e comprei meu primeiro aparelho de som e não precisava mais esperar o meu pai sair para ouvir meus discos, enche o bucho e o coração e a alma e a lembrança de dias piores e melhores.

Tolstoi já resumiu maravilhosamente o fato de que todas as famílias felizes são iguais e as infelizes o fazem a sua maneira e a Gal cantou a letra do Caetano fazendo alguma referência literária: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é

A zoeira continua e que ela nunca, nunca never ends porque enquanto tiver três ou mais membros que conheçam as histórias, a ideia é que elas continuem a ser contadas, sempre

Enquanto meu irmão mais velho, Hermes lê o seu texto descrevendo as condições do local e de como era a vida no ano em que eu nasci (1969), o mesmo ano que a família saiu de Minas para São Paulo, minha irmã e madrinha Marina, me abraça. Faz parte do grupo das pessoas que não me deixam chorar sozinha. Graças a Deus, eu conheço muita gente assim…<3

Estou sentada, não somente na poltrona que era o lugar da minha mãe, estou sentada no seu colo. No quintal da casa que o meu pai e minha mãe construíram para a família.

lucimar-mutarelli

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10 comentários sobre “Coluna 9: “Que a zueira never ends”, por Lucimar Mutarelli

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