“Aborto”, por Le Tícia Conde

Eu – fiz um aborto.
Eu – escancaro a minha história.
Eu – falo, ao contrário de muitas meninas que se calam
porque são silenciadas – Muitas terminam mortas!
Eu – sou privilegiada
sobrevivi a essa morte
porque ter um ser arrancado do útero
é uma dor que não se comporta
e que não se vê no dia a dia
porque ‘faz de conta’ que não é com a minha irmã
nem com a minha filha
nem com a minha amiga que precisa de suporte
que é dona do próprio corpo
e que sabe que criar filho
não é questão de sorte
– quem sabe eu consigo
– quem sabe eu me viro…
como se isso fosse perspectiva
como se fosse uma escolha nobre.
A verdade é que na hora ninguém se importa
muitos abortos são feitos por falta de apoio da família
ou mesmo do cara
aquele com quem saia e que dizia que te amava,
que você achava que te respeitava
mas que na sociedade machista
insistia pra transar sem camisinha
e agora fala que a responsabilidade é só tua
ou te pressiona, te agride
até que você decida que ele tem razão
que Ele manda no teu corpo, na tua vida
– somente os homens têm o livre arbítrio nas mãos.
Eles sim podem sair impunes
– caminhando livres
não carregam a dor no útero
não sentem as cólicas nem as cicatrizes
muito menos as agulhas que entram pela vagina
e mesmo quando o filho nasce
eles podem abandonar simplesmente
indo embora como se não fosse nada
– dentro de casa o pai pode estar ausente.
Eu – fiz um aborto, e tinha apenas 15 anos.
Se alguém pensa que sou assassina
não perca o tempo, não me diga,
porque eu não mudaria meus planos
– somos só meninas
e o aborto deveria ser a Última opção
mas pra isso é necessário
que essa possibilidade exista!
Podemos ser poucas
podemos ser muitas
estar mortas, estar vivas
a verdade é que realidade destrói
porque a sociedade a sustenta
mas só nós sabemos como dói
estar sozinha quando tudo o mais
nos ignora, nos oprime, nos reprime
nos violenta!
Aborto é questão de amor próprio
ainda que eu também ame o filho
que abortei sem mais ninguém
– só eu, ele, sangue e placenta.

Le Tícia Conde

Poeta, autora do livro artesanal de poemas toda Vulva diz Cus são, Letícia Conde nasceu em São José dos Campos-SP em 1988, mas reside em São Carlos (SP). É formada em Administração pela ITE desde 2011 e cursa, atualmente, Bacharelado em Linguística na UFSCar. Possui textos publicados pela CBJE em diversas antologias e possui um livro publicado em Portugal pela WAF e Corpos Editora chamada Sussurros Espelhados.

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