CAVIAR COM COCAÍNA: “Ossos do ofício”, por Marina Filizola

Uma mulher de sucesso. Acordou certa disso. Mas não era a primeira vez que dormia desconfiada da sua certeza. De manhã ouviu o despertador tocar Sinatra, espreguiçou a lombar delineada por treinos de soft-yoga no lençol de fios egípcios, ouviu os passos cautelosos da governanta afofando o tapete persa na ponta do pé e as cortinas de seda deslizarem junto com suas pálpebras, que descolaram os cílios emplastrados pelo rímel á prova d’água depois de um sono tão profundo que nem as dez gotas de rivotril se lembravam mais se tinham mesmo descido através daquela goela aveludada e de poucas palavras, logo depois do chá inglês servido na cama, que tomou numa golada só para limpar seu estômago sensível das iguarias gelatinosas e nauseantes servidas no jantar em sua homenagem que ela tinha, como sempre, saído à Francesa, pra não ter que cumprimentar toda aquela gente cheia de ossos.

Estava acostumada em não ser uma pessoa agradável. Deu meio sorriso sem dente depois das palmas ardidas que aclamavam vermelhas alguma reação do botox de suas bochechas estáticas, comeu meia colherada de escargot de procedência duvidosa com uma torrada borrachenta pra não fazer tão feio, pois a consistência não convencia: estava mais mole mais escuro mais acido que o normal, não parceria o escargot que ela comia folheando as dezenas de revistas que ela editava, sentada no seu divã de camurça chamuscada com almofadas retrôs madrugada adentro. E não distribuiu nenhum elogio. Achava deselegante muita melação, lambeção de ovo, puxação de saco. Não descruzou as pernas, não amassou a roupa, não retocou o batom, não sentou nas bactérias mutantes que infestavam o toalete.

Parecia uma mulher de cera. Com olhos de gelo. Não se assemelhava a nada vivo. Nada que respirava. Ouviu o acunputurista preparando, em silencio absoluto, as agulhas na bandeja de prata. Foram dez agulhas fixadas como antenas de televisão entre nódulos horrorosos que faziam suas costas pareceram uma montanha russa e pontos de ansiedade salpicados entre a testa sem expressão e as costelas franzinas. Tinha mais pontos de ansiedade do que nódulos, foi o que o japonês disse. E sussurrou o diagnostico mecanicamente profissional com um cagaço silencioso, antes de se retirar de costas e cabeça baixa.

Encarar seus olhos repuxados faziam as pessoas virarem pedra. Era o que diziam as entrevistas curiosas de revistas de fofocas que ela jamais deu audiência. Não dava entrevista para revistas ralé. Quinze inspirações profundas seguidas de um grunhido, a ponta do pé esticada se alinhou com o topo da cabeça, a lombar fez um cleck e estava pronta para atravessar mais um dia. Sentou no vaso de mármore e fez um xixi asséptico: nem barulho de gotas. Lavou as mãos varias vezes, três sabonetes diferentes e álcool gel pra finalizar a desinfetação neurótica seguida de um creme miraculoso dentro de um vidro minúsculo que custou mais que um salário mínimo. Lustrou a dentição que nunca aparecia para o publico com a escova vibradora automática e, sim, ela tinha dentes apesar dos rumores de que eram presas.

Desinfetou o rosto dos ácidos corrosivos noturnos para esticar a pele tencionada por tanta postura tanto glamour tanta gente tonta. E mesmo depois de se olhar seguidas vezes no espelho, não se achava nem de longe um mulher bonita. Não era mesmo. Ficava aprumada elegante e pavoa depois de se cobrir com tanta grife, mas quando estava vestida de pêlo e pele, pendia mais para um gato raro e sem pêlo que dá angustia de passar a mão.

Seu closet já esperava o drama da manhã: sapatos altos baixos médios plataformas anabellas tornozeleiras tamanco sandálias sapatilhas e o pote de calmante a postos que ela comia que nem tic-tac na semana da moda. Vestidos de gala de seda de tule de renda de diamante encrostados, de couro de antílope da Malásia, de cobra do Sri Lanka, tudo lógico, feito sob encomenda. Óculos quadrados redondos espelhados escuros de aço de grau o diabo a quatro. Óculos usava sempre. Seus olhos podiam endeusar ou destruir uma coleção inteira numa única piscada, era importante que ficassem cobertos. E que refletissem os flashs que a cegavam e que lhe renderam um principio de catarata no canto do olho esquerdo. Era quase caolha, imagina uma noticia dessas na capa da revista Contigo, que lama.

Justo ela, que ditava a tendência da moda no mundo, tinha um bloqueio cabeludo na hora de se vestir. Era muita opção muita estação muita frescura muito relaxante muscular deslizando esmagado dentro das veias finas de sangue azul. Folheou frustada a ultima edição da Vogue rogando uma praga gorda nas suas escolhas que oscilavam de humor assim como ela mudava de calcinha. E o que antes ela achava fashion, tinha agora a absoluta certeza de ter sido um deslize espiritual. Dois Frontais goela abaixo foi o que resultou encarar o closet mais desejado do país. Vestiu seu Armani pacato seus sapatos reprodutores de bolhas de sangue pisado e engoliu sem cuspe sua indecisão eterna discreta e nada refinada que rasgou sua goela ressecada.

Tomou seu café da manha no quarto, ameixas pra equilibrar a flora intestinal, activia para evacuar o escargot bizonho do dia anterior. Fez sua maquiagem básica sem muito esforço, tapou rugas olheiras e vincos com uma massa corrida, reforçou o rímel a prova d’água do dia anterior e passou um batom clássico na boca recheada de silicone. Seu motorista o segurança e sua acessora já estavam a postos fazia mais de hora pois se havia uma coisa que ela não tolerava era esperar. Nem Petit Gateau ela esperava assar, comia quase sempre cru. Se abundou no conversível muda e trotou pelo tapete vermelho com a recepção farofenta que já conhecia: fotógrafos repórteres e jornalistas tentavam desesperados conseguir a foto perfeita, o angulo do rosto que desvendasse algum mistério escondido por de trás daquelas lentes cobiçadas que dominavam o mercado mais dogmático cobiçado arrogante arbitrário conflituoso e soberano do momento: o mercado das vaidades.

Sentou na primeira fila. Sua cadeira tinha seu nome timbrado num papel dourado, tinha um buquê de flores do campo e rosas vermelhas. Colocou de lado como se fosse alérgica a agrados e se sentou caquética engessada e de pernas cruzadas com as mãos pontiagudas entrelaçadas entre anéis de brilhantes. Não levou sequer um caderno de anotações para desespero geral dos estilistas. Nunca fazia anotações. Era uma arma muito poderosa um comentário qualquer cair nas mãos de um jornalista bisbilhoteiro. Sua mente seletiva impiedosa e indecifrável parecia um carro blindado. Observou ao redor o que vestiam os formadores de opinião: era muito triste a decadência espiritual das pessoas. Sabia que no século das roupas fast-food o consumo tinha que se virar do avesso para a amaciar a mola emocional enferrujada de pessoas sem amortecimento, o que resultava em looks miseráveis e confusos. Tinha algo ditando o comportamento que não era mais ela e foi nesse baque com a realidade que ela despejou duas bolinhas de alivio-imediato caçapa adentro para bloquear a crise de nervos. Muitos pensaram ter sido um bocejo: colocaram um Play na Madonna pra quebrar a monotonia.

Tomou uma metralhada de flashs na fuça segundos antes das luzes se apagarem e foi a cota para que seu segurança, um modelo negro de volumes invejáveis, desse uma esculhambrada majestosa na imprensa. Chega de flash, foi a ordem curta e grossa do sujeito, que virou celebridade instantânea e cotado sem dó como provável amante da tirana. Coitado.

Começou o desfile. A ditadora mexia o pescoço como um boneco do playmobil e não esboçava nenhuma reação, nem um tique no topo da sobrancelha, uma coceira no bigode, um reboliço no quadril anêmico, nada. Assistiu de óculos escuros cartões de credito incinerados no catwalk da fama daquelas passarelas infames. Nem um fio da franja de seu cabelo com corte juvenil se deslocou do cocuruto besuntado de laquê.

O sonho de se viver sobrevoando as calçadas de Paris e Nova York terminavam ali. Junto com o fim do desfile. A déspota sequer levantou o rabo oco para bater palmas para os estilistas. Não sorriu não acenou não aceitou o convite para tomar champanhe com as modelos bulímicas de saúde maquiada, canelas finas e rostos cheios de quina. Não gostou do que viu. Achou tudo ultrapassado. Queria ir embora embora pra longe daquele tumulto de gente transparente enrolada em panos estampados, que projetavam seu caos mega-existencial em coleções mirabulosas que a tempos desconheciam o que era bom gosto e etiqueta. Um figurino sozinho, apesar de impecável, era obsoleto. Pegou os fragmentos da sua auto estima corrompida dentro do pote de tic-tac, despejou delicadamente duas bolinhas para dissolver debaixo da língua e partiu disfarçando a tremedeira.

A temida editora da Vogue se afogava muda na ensebada escorreguenta e gelatinosa moda. Estava atordoada para cotar a próxima tendência no mundo. Não podia mudar o comportamento que tinha arregaçado com a vida do seu ganha-pão.

Em casa se despiu das marcas e voltou a ser um gato raro. Sentada em seu divã, a virilha peluda descoberta, rímel e ranho escorrendo do nariz, cotovelos ressecados e dois fios brancos de cabelo sintético saíram do esconderijo atras da orelha. Desligou o iPhone da semana fechou as cortinas isolantes. Não jantou. Abriu o alivio-imediato em gotas sagradas em câmera lenta, como se fosse abrir um vinho da safra de maomé num jantar a luz de velas. Soluços de solidão ecoaram de noite dentro do closet felpudo. O eco seco de soluço químico não se preencheu com roupas e a moda nem de longe fazia a vezes de seu terapeuta-amigo-Salvador-da-pátria. Se calou. Etiquetada e rotulada num cabide novo. No dia seguinte ligou para o celular pessoal 24hs de prontidão do seu analista. Com voz de atropelamento misturado com ressaca e língua pegajosa de sonolência induzida, marcou a consulta com caráter urgente.

Só não sabia que roupa ia vestir. Por dentro.

marinafilizola

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