Coluna 10: Cagando e andando, por Lucimar Mutarelli

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Escrever uma crônica prum site é tipo postar no facebook

Escrever é tipo cagar

Ninguém fala estou defecando pra opinião do outro. A gente fala: estou cagando e andando

Eu tenho muitos nojos e um grande deles é sobre cocô. Odeio escatologia, não suporto filmes que abordam essa temática e textos, então, vomito

Outro dia estava querendo ajudar minha cunhada e comadre e fui limpar o penico da sobrinha neta número 8 (vou fazer igual o Silvio Santos, numerar as pessoas que eu listo para preservar, um pouco, as identidades). Nossa, tive uma ânsia daquelas bem fortes, não consegui e piorei a situação. Além de não ajudar, atrapalhei

Outro sobrinho, o camisa 10, está na fase que falar cocô é divertido. Você pergunta o que ele quer comer, ele fala cocozada. Quer brincar? Sim, de jogar cocô. Ele ri, se diverte. Quando você entra na brincadeira e fala que vai pegar um pouco de bosta no banheiro pra servir no prato ele não ri. Ele entende o contexto e diz: mas o cocô era só pra você almoçar, não pra mim. Ele só tem três anos, não fala assim com esse monte de palavras, eu que escrevi do jeito que eu acho melhor que você entenda

O facebook cria monstros

Graças ao facebook eu me tornei uma escritora

Mentira

Eu comecei no Orkut

Mentira

Comecei com os cartões de aniversário, de formatura e marcadores de página que eu fazia no ginásio para os amigos. Só os marcadores eu vendia, os cartões eu dava de graça. Aprendi com o meu marido o que a gente pode cobrar e o que a gente pode fazer de graça. Essa expressão cagando e andando também ouvi do meu marido

Quando eu dei aula no Etapa, inventei que meus colegas pensavam que eu só falava do meu marido. Mas foi o meu marido que escreveu isso numa peça. Ou não. Foi uma atriz que veio na minha casa, ficou me observando e colocou isso no texto. Agora eu preciso ficar me controlando pra não ficar toda hora citando o meu marido

E a merda é que eu adoro falar do meu marido e escrever acho mais legal ainda porque quando a gente escreve parece que vai ser eternizado, parece mais importante do que postar no facebook. Quando eu levanto e sento na minha escrivaninha para escrever eu me sinto tão importante

Grande bosta

O que diferencia o meu trabalho do sobrinho que é bombeiro, do outro que é consultor ou do irmão que vende sapatos. Não tem porra de diferença nenhuma. A grande diferença é que eles ganham um salário para fazer o trabalho deles e eu não ganho nada.

Não é tão exagerado assim. Às vezes, eu recebo uns dinheirinhos mas não daria pra sustentar uma casa, virei dependente do meu marido. Mas o meu marido não liga (repara quantas vezes ela vai falar do marido). Ele diz que é uma troca, um sempre ajudou o outro. Tipo, um caga e o outro limpa

Tem outra diferença: as pessoas pedem pro escritor mostrar no que ele está trabalhando. O meu sobrinho bombeiro deveria convidar a família e os amigos pra irem um dia acompanhar o trabalho dele. Eu queria sentar ao lado da Auri e ficar observando enquanto ela analisa cada contrato. Por que algumas profissões precisam da aprovação do outro? Tem gente que vai lá, trabalha e pronto. Não acha nada demais. Por que quando eu dava aulas eu não ficava mostrando pra minha família e pros meus amigos os diários de classe, as planilhas com os registros das atividades dos alunos, os PowerPoint. Agora que eu escrevo tenho essa necessidade de ficar mostrando tudo pra eles. Olha esse texto. Olha como eu sou inteligente. Olha de onde veio essa ideia. Se você quiser eu escrevo um texto na sua frente em três minutos e meio. E daí? Quem se importa? Tá cada um cuidando da sua vida, cagando e andando mesmo. Estão todos trabalhando e resolvendo um monte de problema sério e você aí importunando com texto. Querendo que todo mundo leia o seu texto. Para com essa merda

Podia levantar agora e ir lá na sala perguntar pro meu marido o que ele acha dessa minha fase de fixação por cocô. Mas ele está trabalhando e não vou atrapalha-lo. Podia dar uma olhada no Google e ver logo o que o Freud disse sobre isso

Pior ainda, poderia pegar os livros do meu marido e descobrir sozinha o que o Freud disse. Tenho muita preguiça. Não quero. Não agora. E todo mundo sabe o que o Freud falou. Todo mundo cita Freud. Até as novelas e os programas de humor usam: Freud explica

Será que explica mesmo? Será que se eu for fazer análise eu vou entender porque estou escrevendo esse texto sobre um assunto que eu tenho tanto nojo? Será que o terapeuta vai me deitar no divã e ficar me ouvindo falar durante uma hora sobre todos os grandes problemas que afligem a minha pequena alma? Será que desabafando aqui com você eu não tiro essa merda toda que está dentro de mim e não jogo pra você? Eu resolveria o meu problema. Eu tiro o peso de cima de mim e divido com você. O problema deixa de ser meu?

Outro dia eu fui ao cinema com as irmãs 1 e 2. Elas andam com bolsinhas minúsculas, com as mãos livres. Eu ando com uma mochila e uma sacola. Se deixassem, eu carregava mais uma. Outro dia meu cunhado observou: até o colar dela tem uma bolsa. Será que é outra fixação consumista? Eu prego tanto o desapego material então porque eu ando com as bolsas amarradas junto ao peito?

A primeira vista uma bolsa pode representar o consumismo porque a gente vai ao shopping de bolsa. Porque a gente carrega sacolas do mercado. Porque são as embalagens que guardam o conteúdo das nossas compras. Só que bolsa tem muitos significados

Quando eu era criança eu lia Manequim, Claudia, Nova e Contigo (hoje eu curto e leio todas no face) e sempre me interessei por astrologia e depois que descobri que meu ascendente era Câncer comecei a ler as previsões do meu signo solar e de Câncer também. Não sei mais onde li isso, não dá pra citar a referência de tudo (igual ao facebook que a gente vai aprendendo um monte de coisas com os amigos virtuais que depois eles te acusam que você está imitando ele, é uma perda de identidade total. Uma amiga falou que não posta os textos dela no facebook porque tem medo que alguém copie. Eu publico fotos da minha sobrinha Jessica e falo que são minhas e até hoje ela não reclamou) ou talvez o meu marido (tava demorando pra mencionar o meu marido) tenha chegado a essa conclusão: a bolsa representa a casa

Numa olhada rápida na internet achei até um sociólogo dizendo que a bolsa representa uma amiga muito íntima da mulher, que representa segurança e conforto e etc

Isso quer dizer que eu sou insegura? Isso quer dizer que as minhas irmãs andam sem bolsa porque são muito bem resolvidas e seguras? Sim, pode ser

Eu me colocaria no time das inseguras e todas as minhas irmãs no das seguras. Todas não. Menos uma que eu ainda não conheço e tenho que ir atrás mas isso já é assunto pra outra crônica ou para o meu terapeuta particular

Adivinha? Sim, meu marido…carinha sorrindo e piscando o olho esquerdo do peito

Isso seria jogar uma merda no ventilador que ninguém quer que eu jogue porque essa história fede e ninguém quer ouvir uma história que cheire mal

Eu não quero falar de coisas desagradáveis tipo bosta, cocô e merda

Quando procuro ficção quero achar uma história de amor, uma grande e estonteante aventura, uma batalha de superação ou personagens que me façam rir ou chorar. Eu quero me emocionar, quero sentir alguma coisa. Mesmo que seja ruim

Eu busco aprovação. Tudo que eu faço eu tenho que mostrar pro outro e esperar os elogios. Se alguém me critica eu fico de mal. Fecho a cara, puxo meus cabelos e choro. Paro de falar com o outro. Corto relações

Menina mimada. Caçula. Infantil. Criança. Imatura. Eu falei pra Clarice: se eu achar a minha nova irmã, eu deixo de ser a caçula e isso pode ser bom pra mim. Ela pode permitir que eu cresça de verdade

Desde a primeira infância eu tento desesperadamente agradar a alguém e eu desconfio que seja a minha mãe

Realmente o Freud explica tudo mesmo.

OS: ontem eu reencontrei uma amiga de infância. Vera Lucia, e com uma frase ela tirou um peso que eu carrego há 45 anos: mas você nunca foi brava. Eu era revoltada e ser revoltada é bem diferente de ser só brava. Porque se as pessoas falassem brava no sentido de guerreira, como o Rodrigo fala eu adoraria mas falam brava no sentido de birra, de manha. E isso, eu sou mesmo. Não gosto mas sou. Mas eu tenho ouvido seletivo. Só ouço o que preciso. O filtro que a Isabel falou que todo ator precisa ter. Fofoca construtiva.

lucimar-mutarelli

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8 comentários sobre “Coluna 10: Cagando e andando, por Lucimar Mutarelli

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