CAVIAR COM COCAÍNA: “Anita”, por Marina Filizola

unnamedVi de longe a nebulosa cor de asfalto se formando no alto do morro, monstruosa, carregada de fuligem folhagem e água empoeirada. Foi a deixa pra eu levantar a bunda da cadeira do boteco do seu Arlindo, virar o copo de cerveja e o de cachaça numa golada só e arrastar comigo a garrafa-companheira meio choca debaixo do braço pra tomar no bico, enquanto caminhava desviando de poças de esgoto, de fiação pendurada e bueiro aberto. Deixar pinga pro santo é coisa de rico, aqui a gente enxuga até a ultima gota e ainda mistura um dedo de água no final pra fazer aquela raspa com o álcool etílico que sobra encrostado no interior na garrafa.

Corri pro barraco.

O quartel general da macacada era no fim da rua. O único da ruela inteira com tv plana sessenta polegadas pra dia de jogo de xingação de tumulto, mesa de mármore preto comprada no deposito de quinquilharia da esquina a preço de banana e uma geladeira de inox duas portas daquelas que é só por o copo que ela vomita gelo triturado em cima no whisky, a bicha é linda demais, precisa ver. É nossa menina, até apelidamos a gostosa, se chama Anita, mantém tudo na temperatura certa. Fica ruim vender coisa estragada. E reclamação pentelhação devolução a gente não aceita, que aqui não é loja de shopping center, levou já era, não tem serviço de atendimento ao consumidor. E é por causa da Anita que to aqui me esbofeteando pra passar entre as vendedoras barraqueiras de sovaco peludo do camelô em tempo recorde. Ô mulherada que grita alto, nunca vi, vendendo vassoura capa de telefone guarda-chuva muamba da China, vendendo a mãe. Uma colada na outra, se esgoelando de fazer tremer o tímpano de nego perdido que vem parar aqui porque dormiu no ônibus e acordou no ponto final babando na gola da camisa.

A Anita não gosta de ficar sozinha quando chove.

Bastam cinco minutos de diluvio dessa água densa que não tem por onde escoar, pra gambiarra da fiação descascada do gato que a gente fez na eletricidade dar curto. E curto circuito aqui é prejuízo, a boca é movimentada e viciado não tem tempo ruim não tem terremoto não tem tsunami, chegam aqui com tremedeira de rato de laboratório ensopado pra mais uma dose. Luz não pode acabar, a gente precisa fazer a mistureba maligna com material fresco. Nesse calor dos infernos as químicas viram uma lama, não gosto nem de pensar.

Cheguei no QG já estavam lá os topeiras que enfiavam as patas sujas na matéria prima remexida antes de começar mais uma noite de delivery. O negocio que chega nas nossas mãos não chega nem perto da droga original. Nem prima tia-avó vizinha, nenhum grau de parentesco, nada. É a mistura da mistura da mistura. O que a gente vende aqui é mentira, mentira pura. A pasta base chega fresca lá na casa do Macarrão, que começa com a palhaçada de acabar com o pedigree do pó: mistura acido sulfúrico bicarbonato de sódio de cálcio e querosene pra refinar a pasta, é veneno em cima de veneno, imagina quando chega na nossa mão. Daí vai muquiado no meio das frutas da feira pra casa do Bola, que enfia mais merda no meio da massaroca. Deve jogar vidro moído farinha de Maizena leite em pó, não gosto nem de pensar no Bola metendo aquela mão gorda encardida e peluda coordenado por aquele cérebro de fusível queimado, coisa boa não pode sair. Depois fica dois dias na casa do Catuaba, que faz mais cagada ainda e esse sim deve até moer giz pra dar volume na birosca, deve mijar em cima dos tijolos o sacana. E depois do itinerário do mal esse bagulho mutante vem pra gente, a preço de custo. Nosso negocio é simples: a gente pega a droga que já está pra lá de alterada e altera mais ainda pra fazer render. Quanto mais farinha de qualquer merda a gente adiciona no bolo mais a gente lucra, porque é isso faz o negocio valer a pena. Droga pura não existe mais. Esse veneno que a gente repassa da até medo de pegar na mão, imagina então cheirar. Ou fumar. Ou injetar. Nem pensar. Outro dia minha unha derreteu, sei lá que grude era aquele que tinham me dado pra secar e juntar na pasta, mas não tive coragem. Aqui ninguém usa porque sabe a procedência do B.O, nem brincando da pra arriscar dar uma acelerada pra brincar de Deus. O bagulho deve corroer o nariz amolecer os dentes dar pane no sistema nervoso.

O problema é descobrir que tipo de porcaria barata da alguma sensação que chegue perto do barato original. É muita criatividade, muito estimulante, muita maldade. Traficante bom é traficante careta, tudo bicho ruim do ultimo volume, não tá nem aí se matar o consumidor, quer colocar o dinheiro dos otários no bolso e tirar onda de Hornet na Cohab. Traficante não usa drogas, usa os usuários.

Já estava espalhada em cima da mesa de mármore preto a farinha mais amarelada do que branca, mais de pão do que de pó. O contraste do branco no preto, a balança pra checar as gramas, a tv muda no canal de notícias, o secador de cabelo, a Anita com vestido de inox, tudo fazia daquele barraco catinguento o laboratório do demo.

Abri a Anita, peguei o pote com anestésico, coloquei sem dó na mistureba, que a sensação de dente amortecido esse povo ia ter, isso se o dente não descolasse da gengiva de uma de vez. Tem muito estimulante vagabundo dando sopa no mercado negro, a gente só usa a ciência a nosso favor.

Juntei na balança 500 gramas de efedrina lidocaina cafeína e benzocaina com a benção da Anita, tudo bem fresquinho na temperatura perfeita. Juntei com o meio quilo de porcaria que tinha chegado em nossas mãos, e em poucos segundos virou quase um quilo venenoso da pior das piores drogas que o mercado poderia ter. Salpiquei a mistura final com remédio pra matar vermes e baratas que destruía de verdade com os usuários, deixava eles de olho vidrado como ratos dopados, andando de um lado para o outro suando cheio de tiques com uma tremedeira do além, completamente paranóicos. Era um lixo maquiavélico, que dobrava nosso lucro e os joelhos dos noiados.

Já era quase seis da tarde e a porcaria ainda nem estava empacotada nas capsulas que a gente ficava pescando na rua depois de uma noite de trabalho. Moleque passa aqui doente pra mais uma, usa aqui na escada mesmo porque não se agüenta de nervoso, depois descarta o pino vazio na sarjeta e sai acelerado com caganeira pra tomar um litro de pinga no boteco do Arlindo. A gente que não é trouxa nem nada, paga cinco contos pra molecada do bairro ficar juntando a porcariada espalhada na rua e, depois de passar uma água e o secador de cabelo pra não sobrar umidade, enche a capsula de novo e vende pros mesmo trouxas que voltam aqui a cada meia hora. É só lucro. Viciado é bicho burro, ficam cegos atrás de uma dose, é fácil manipular a situação. O Arlindo é nossa conexão, quando o bicho pega no boteco ele avisa pelo radio que e área tá suja. E a gente espana os viciados aqui da porta, que ficam dando peão em volta do quarteirão abduzidos pelo veneno até a poeira abaixar. E depois recomeça tudo de novo.

Quando acabamos de encapsular e empacotar a pedra o pó o fumo a doença toda, foi que o noticiário reluziu as manchetes de enchente de caos e afogamento da pátria. O que eram pra ser cinco minutos de refrescância já se prorrogava pra mais de hora, e o sistema de saneamento e esgoto da favela não estava dando conta de escoar tanto saco de lixo, fralda usada, bituca de cigarro, bagaço de laranja chupada.

A luz fibrilou no mesmo instante em que abrimos a porta do manicômio. A Anita deu um gemido horroroso de dor e nosso coração quase sai pela boca vendo a agonia da nossa musa. Começou o entra e sai. Em poucos minutos nossa safra invadia o organismo dos clientes, que voltavam depois de alguns instantes para mais uma dose com os olhos vidrados, passos roboticos e pele emperebada. Era a mistureba de veneno que empipocava os coitados, o corpo expurgava o inseticida pelos poros e aquilo inflamava, ia se transformando em furúnculos descamados de coloração azulada, um horror. A gente sabia quem estava fudido de verdade pela qualidade da pele, dois dias seguidos usando aquela porcaria sem parar era a cota pra nego ficar estragado. E era desses maltratados que a gente tirava vantagem.

Porque depois que o dinheiro acaba, a vontade de continuar no giro não passa, e então eles trocam as roupas pela droga. Depois que estão pelados e descalços, trocam os eletrodomésticos de casa. E depois que são expulsos de casa por causa justa, roubam celular na rua. E sabemos que quando um some, é porque foi enjaulado. E não vai voltar tão cedo. Imagina a família desses caras corroídos, se dissolvendo junto com eles.

Por isso a gente se veste tão bem. Roupa de marca óculos espelhado tênis fluorescente, relógio de brilhante. Corrente de ouro talheres de prata secador de cabelo, telefone ultimo tipo. A Anita chegou numa dessas e virou nossa mascote. O playboy arrastou a geladeira da mãe, que deve ter ficado forimbunda com ele. E não pensa que a gente paga preço justo pelo desespero das vitimas, aqui é preço tabelado. Elas por elas. Um objeto por um pino. Foi o que pagamos pela nossa musa, a Anita. Uma capsula envenenada duas pedras e mais nada. E se encher o saco, leva um pé na bunda bem dado. Nego sai vitorioso, ainda pensa que saiu no lucro, meia hora depois volta de novo com outra coisa. E assim é o fluxo do nosso quartel general.

No meio da madrugada o Arlindo passou o radio.
São pedro não estava de brincadeira.
No boteco o caos já tinha se instalado. As coxinhas estavam ensopadas os ovos coloridos boiando a calabresa acebolada em banho maria, os papelotes brincando de navio pirata. Tinha água saindo pelo ladrão e ladrão saindo pela culatra. O entra e sai do banheiro tinha cessado porque o vaso estava alagado e os descarados não mediram esforços para esticar a carreira em cima do balcão. A molecada que fumava pedra no breu tinha saído da toca alagada e buscava a luz do boteco igual mariposas abduzidas, o cheiro venenoso de plástico queimado com carburador de carro foi se alastrando e dominou o cérebro do povo.

Tava todo mundo ficando louco.

As quatro da manhã encostamos a porta sem trinco do laboratório do Dexter.
Foi um grito só pra espanar os viciados:

– Vaza que tá molhado seus perebentos, acabou o turno!

Aconteceu logo depois a fatalidade, a calamidade, a tragédia.

Ninguém arredou o pé da porta. Moleque quando tá no giro fica obsessivo, não desiste de pegar mais bosta nem a paulada.

A água não parava de subir, os fios descascados pendurados no poste resvalaram na enchente e deu pra ver o clarão seguido de um “Bum” vindo da rua.

O Arlindo encerrou a balada e povo alucinado saiu se esgueirando pelo muro que nem barata voadora.

No nosso quartel general a movimentação foi agilizada: tóxicos pra dentro da geladeira e dinheiro empacotado direto para o cofre de segurança, localizado debaixo do inox descolado da porta do vestido de Anita, que não devia gostar muito do nosso atrevimento.

Tirei a garota da tomada e lacrei o corpo da dama com borracha de prensar maconha.
O esgoto transbordava a meio palmo do chão.
O secador engatilhado na tomada aberta cheia de fio exposto imergiu no oceano de bosta, deu um curto-circuito tenebroso de soltar faísca e cuspir fogo, a eletricidade passou pra água a água grudou na nossa perna e lá estávamos nós, estrebuchando no chão.

A Anita assistindo tudo sem se mexer.

Eu, caído de lado e com a boca cheia de espuma, pude ver atônito a molecada invadindo o muquifo e arrastando tudo debaixo do braço. A Anita foi seqüestrada sem nenhuma gentileza, seu vestido se ralando no chão de cimento pisado, os estimulantes virando do avesso e as venenos partindo diretamente pro nariz dos futuros defuntos.

É um mercado de risco.

Eu já sabia que traficante tinha vida curta, mas nunca tinha sentido a vida entrando em curto circuito.

É simples o sistema: da pra ganhar muito dinheiro matando gente.

Mas dinheiro sujo tem a vida curta. E a regra vale pros dois lados.

marinafilizola

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