Coluna 11: Ouvindo Hello Kitty, por Lucimar Mutarelli

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Hoje eu acordei procurando músicas para rezar. Meu marido sempre diz que música é a religião dele e hoje eu entendi porque

Precisava de uma oração para minha irmã e madrinha Marina e outra para minha sobrinha e afilhada Laura. Cada uma precisando de uma luz. Ocasiões muito distintas. Em comum o amor. É sempre o amor

Na página de Marcelino Freire encontrei Cais. Letra e melodia perfeita. “Para quem quer se soltar”. Laurinha, óbvio

Marininha ganhou “cheguei a tempo de te ver acordar”. Na voz do Milton a composição do Lô e do Marcio Borges

E assim eu sigo rezando cantando. Desespero para que os dias atuais passem de forma mais leve

Outra sobrinha, Jessica, compartilhou Marisa Monte. Sempre achei que era do Cartola e o Google me ensina: Mestre Candeia: “preciso andar”

Escrever essas crônicas ensina algo novo todo dia. Faz entrar num baú que eu achava que estava limpo, bem resolvido e fechado

Não é muito diferente de viver. Todo dia a gente aprende um pouco. Hoje eu acordei com a boca cheia de autoajuda. Sim, acordei egoísta. Preciso me ajudar primeiro para ajudar o outro

Vamos lá, vou tentar explicar: estava me sentindo longe e distante do meu filho depois de uma leitura que uma amiga fez no tarô

Passei a desabafar com a família e amigos em busca de consolo. Até tatuagem da Hello Kitty eu fiz pra ver se conseguia manter a promessa de ano novo de falar menos

Fiquei longe da minha casa, que eu amo de paixão, durante 12 dias. Me sentia confusa, distante, atordoada e sem chão. Sim, claro, o chão literal da minha casa. Base, estrutura que nos permite ficar em pé

Minha amiga Fatima me segurou pelos ombros, me deu um tabefe bem no meio do rosto e gritou:

– Para se aproximar do seu filho você vai fazer algo que não gosta que ele faça???

Acordei. Des-surtei  e voltei correndo para o meu lar

Pedi uma reunião urgente com marido e filho

No final da lavagem de peças grandes, médias e pequenas, ouvi:

– Mãe, preciso te falar uma coisa, a gente não pode ser amigo

Segundo tapa na minha cara. Tudo bem. Eu precisava de umas porradas mesmo para voltar ao meu lugar. Voltar ao meu centro. Concentrar.

Marisa Monte declamando: só vou voltar quando me encontrar…

Parei de dormir e afundei na literatura. A luz nasceu de uma carta que escrevi pra minha mãe

Quando eu terminei a oitava série, ela disse abertamente:

– Agora chega de estudar. Você precisa trabalhar!

Obedeci a parte de trabalhar e não parei de estudar. Sempre determinada conclui o Ensino Médio e ainda consegui uma bolsa de estudos no Objetivo quando não passei de primeira no vestibular

Durante 30 anos eu guardava essa frase da minha mãe com mágoa, achava que ela não apoiava os meus estudos, que era contra a minha felicidade. Eu era jovem, sabia de tudo. Não precisava de conselhos de ninguém. Na juventude sempre tinha respostas na ponta da língua. Pensar antes de responder não existia na minha vida. Hoje eu não penso pra escrever. Só sinto. Saio dizendo tudo em busca de tranquilidade na minha cabeça

Graças a esses textos lembrei que minha mãe foi na minha formatura da Faculdade e disse orgulhosa:

– Uma analfabeta com uma filha professora – cobria a boca e ria sem graça, não mostrava os dentes

Meu marido, ainda namorado, sorriu e complementou:

– Que isso, Dona Maria. A senhora é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço.

Ela riu mais ainda e, mesmo sem mostrar os dentes, comentou:

– Ai, esse Lourenço…- e ria. Ria até chorar

A literatura me trouxe lembranças melhores. Reclamava da memória. Não brigo mais. O que é importante mesmo, uma hora volta

Reinterpretei a frase: chega de estudar. Tal ordem me fez batalhar mais para conseguir o que queria. Ela me jogou na água porque sabia, eu podia nadar sozinha. Finalmente entendi muitos conselhos que Dona Maria me dava

Encontrei nas mesmas palavras dela a força que eu precisava para entender a mãe que meu filho precisa e não de mais uma amiga

Pela primeira vez, em muitos anos, a resposta veio rápida e clara e em voz alta. Imitando a postura da brava guerreira que foi a minha mãe, depois de 3 horas e 42 minutos respondi:

– Você tem muitos amigos e eu também tenho. Mãe, você só tem uma e, curiosamente, eu também só tenho um filho. É isso que a gente precisa ser!!!

Chorei, rindo

Um dos lemas na minha casa é: tudo pode ser dito. Depende da maneira que se fala

A cada dia aprendo um sentimento novo. Aprendo lembrando da minha mãe, do meu pai, observando minhas irmãs, irmãos, cunhados, sobrinhos e amigos. Aprendo até cantando e vendo filmes

O que eu aprendi na escola não serviu pra muita coisa

Só para me distrair com bobagens e repassa-las para os meus alunos. De conteúdo, eu falo, claro. O que aprendi e carrego comigo é a observação e admiração de algumas pessoas. Algumas você aprende observando os erros. Quando pode, tenta ajudar, quando ela não aceita, silencia. Prefiro os acertos. Eu e a torcida do Corinthians. Exemplos de professores e colegas. Pessoas. As pessoas estão todas por aí. Rezando e cantando individualmente ou em grupo. Nesses duros dias descobri que não sei rezar sozinha, só em grupo. Até na igreja eu fui. Amandinha me levou. A tal da água batendo na bunda. Ateus clamando: Deus, ajuda

Com esse texto finalmente entendi quando meu Lourencinho diz que minha mãe é uma das pessoas mais inteligentes que ele conheceu. Ele estava falando de outro tipo de sabedoria. Outra forma de saber e conhecer. A sabedoria de fora da escola. A autoajuda da vida mesmo. Situações e problemas que enfrentamos e nem é preciso ter uma resposta, certa ou errada

A gente não precisa de nota, de provas ou da aprovação do conselho dos professores. A recuperação é com a gente mesmo, dentro da nossa cabeça e cada um vai aprendendo só de conviver com o outro, lições que valem ou não a pena fazer. Escolhemos atividades obrigatórias e voluntárias. Disciplinas da carga horária ou optativas

Hora de trabalhar, hora de descansar. Fazer a vida mais leve. Celebrar sempre, do jeitinho que ensina meu marido. Nossa vingança é persistir, ele disse ontem. Continuar mesmo sabendo que no final vai dar uma merda muito grande

A tatuagem da Hello Kitty apagou porque era de henna. Colei um adesivo no guarda roupa e outro que ganhei do meu filho na frente da minha escrivaninha

Olho pra ela nesse momento. Aqui eu preciso falar, lindinha. Você me ajuda só quando eu precisar dar uma resposta na hora, de imediato.

Mesmo sem boca, Hello Kitty ensina:

– Cobrir a boca e sorrir sem mostrar os dentes

Gente que sabe falar
Gente que sabe ouvir
Gente que sabe cantar
Gente que sabe rezar

Gente é muito bom, grita Caetano (Maiakovski ensinou pro Caetano)

Tatuagem de henna ou aquela que faz sangrar a pele?
O que é definitivo? O que é temporário?

Parabéns, Laura

Força, Marina

Muito obrigada, família e amigos

Gente que não deixa a gente desacreditar

E a Marisa Monte ainda está falando: deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar rir pra não chorar

Outro dia estava sentada no sofá, olhando além da televisão. Meu filho veio e me deu um beijo na testa, saiu e pediu: bença, mãe

Um homem de ações, não de palavras

Gente que ensina pra quem tem vontade de aprender

De verdade

Porque hoje eu acordei com a cabeça cheia de canção

Que venha a vida

Rindo, sem mostrar os dentes

“dois rios inteiros

sem direção”

lucimar-mutarelli

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7 comentários sobre “Coluna 11: Ouvindo Hello Kitty, por Lucimar Mutarelli

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