Embargo de Fé: a Catedral do Povo

O Portal. Foto: Thiago Siqueira.

O Portal. Foto: Thiago Siqueira.

As dimensões falam em 70 metros de diâmetro do círculo que forma o espelho d’água em volta do monumento; falam também do formato hiperboloide da estrutura que pesa 90 toneladas, e possui 30 metros de altura. Mas do lado de fora, as dimensões e especificações técnicas parecem ter sido falseadas, pois o monumento gigantesco parece muito maior.

Até mesmo o céu de Brasília, tão vasto, imponente e livre parece conter-se acima do crucifixo prateado no topo. A altura se torna um mistério, e a largura tanto quanto. Aqueles que lançam um olhar frio logo são aquecidos pela fé, aos seus olhos a Catedral de Brasília se torna um gigante sob o céu.

O que tem lá dentro é um mistério que os vitrais fazem questão de deixar transparecer, ainda que timidamente: meros tons de branco e azul fluem na parte interna e mostram alguns sinais de sua existência para quem está fora, enquanto o cinza dos vitrais externos suaviza os tons, deixando-os quase invisíveis.

Do lado de fora as pessoas se encantam e se ajeitam para os fotos com um dos marcos da arquitetura ao fundo, enquanto abraçam algum familiar, ou com seus respectivos amores. A fé e o respeito dividem espaço no enquadramento.

Um ou outro passa com fones de ouvido, sentam um pouco, olham a Catedral, e seguem caminho aparentemente até a rodoviária. Foi possível ver um rapaz com camisa social, calça jeans e mochila se sentar e cantarolar algum gospel famoso. Enquanto outras pessoas, em especial senhoras, esperam a missa começar sentados em algum canto, enquanto cochicham baixinho e fazem o sinal da cruz com as mãos. Começam a marchar para a porta principal, e percebem que não vai ter missa.

Contraste

Breve descanso na Catedral. Foto: Thiago Siqueira.

Breve descanso na Catedral. Foto: Thiago Siqueira.

“Esse casamentinho não vai dar jogo não”, diz um senhor de cabelo raspado e franzino, pouco mais de 1.80 metro de altura, próximo a um estande que expõe lembranças da capital. “Vai sim, o cara é do Lago Sul!”, responde outro senhor um pouco mais baixo em tom incisivo. O vendedor que estava entre os dois não mostra interesse na conversa e grita “olha a lembrancinha, pessoal!”, para chamar a atenção de um casal que fazia uma selfie.

O casal não se interessa pelas lembrancinhas e partem para entrada com um sorriso que murcha ao perceber que a porta está fechada. Notam também um morador de rua dormindo na sombra da entrada.

Assim que o casal sobe, outras três pessoas vão até a entrada – um casal na casa dos vinte e poucos anos, e uma senhora que parece ser a mãe de um deles. Descem a rampa em silêncio e sérios, olham pela brecha em forma de cruz da porta, e um morador de rua que estava na porta do templo há algumas horas, ao notá-los, avisa “não abre agora, não” num tom de voz trôpego. A matriarca pergunta se a missa não começa às 18 horas, e tem como resposta um “é”, estendido.

Os três sobem e começam a fazer poses para as fotos, até o sinos, presente dos espanhóis, começarem a suar. O barulho abafado das badaladas preenchem todos os outros sons: o barulho dos carros, do morador de rua enquanto conta suas moedinhas, as vozes dos visitantes cessam por alguns instantes, e o vendedor de lembrancinhas fica em silêncio até o fim das badaladas, mas seus amigos parecem não perceber o som, e continuam a conversa.

Em pouco menos de uma hora parado em frente à Catedral é possível ouvir todos os sotaques brasileiros, ver os mais variados tipos de famílias, grupos de viagens, e diversos estilos.

O vendedor de lembrancinhas, um homem alto, com uma barriga estufada embaixo da camisa branca, um bigode grosso, pochete na cintura, calça jeans e boné que esconde os óculos e parte do rosto, fica na entrada, ao lado da estátua de são Lucas. Funciona como um guia turístico, e além das miniaturas dos monumentos também dá informações sobre a programação da Catedral. Enquanto conversa com outros amigos, deixa escapar “meu filho vai na universal”, enquanto comenta que é evangélico.

Outras pessoas chegam às 18 horas para aproveitar os últimos raios de sol para as fotos. A disputa é por um bom enquadramento com o monumento preenchendo o fundo. Outros sentam e olham para o nada, como se a Catedral abastecesse a fé já cansada dos fiéis.

A noite

Já sem luz, é possível ver um pequeno feixe pela fresta em forma de cruz da porta fechada. As paredes brancas brilham com as luzes já ligadas. O brilho é maior onde os pilares se tocam e formam um círculo, que despontam em uma coroa que serve de púlpito para a cruz cinza no topo. O monumento de fé, suor, e amor toma o lugar do céu, e no planalto central, o estrelato é seu. Sua beleza cativa os visitantes.

Os amigos do vendedor de lembranças discutem sobre o casamento que acontecerá mais tarde. Um deles diz algo, enquanto o vendedor de lembrancinhas embrulha uma miniatura da Catedral em mármore marrom em uma folha jornal para uma cliente, “espera esse casamento começar, só encostar na porta e tirar na pancada. Já falei com ele”, diz um dos colegas em ameaça ao morador de rua que já estava subindo a rampa para ir embora.

Às 18:30 horas da tarde o sol de Brasília já está praticamente escondido. Mas no horizonte se vê o museu com uma faixa laranja com os resquícios dos últimos raios de sol. Do lado contrário se vê o Congresso Nacional em fundo cinza, como a Catedral. Os holofotes brilham no lar dos deputados e senadores, mas, mas nem o Itamaraty, nem o Congresso, o Supremo Tribunal Federal, Palácio da Alvorada, Museu, ou qualquer outro monumento, ou estrutura no Planalto consegue minimizar a expressividade da Catedral. É quando o sol nasce, ou se põe que o céu de candango mostra o quanto é espetacular.

Alguns casais e famílias que estiveram na Catedral mais cedo voltam depois do pôr do sol e se impressionam com a visão, compram uma pipoca e seguem de volta para o carro. Enquanto devido ao horário, o número de trabalhadores saindo dos ministérios, Itamaraty, Câmara e Senado indo para a rodoviária caminhando começa a diminuir, após passar por um fluxo intenso.

A Noiva

Quando o rapaz das lembrancinhas vai embora, a noiva chega para fazer as fotos. O fotógrafo dá as coordenadas, “Saiu o conjunto nacional no fundo. Vem aqui na pipoca”, diz ele sem que a noiva obedeça. Enquanto os turistas olham encantados.

O vestido branco brilha no escuro, assim como sorriso da noiva, enquanto alguns turistas escasseiam, mas não se tornam raridade. O homem da pipoca apenas observa o ensaio, mais um dos muitos que já viu. Um casal de jovens sorri um para o outro enquanto a garota olha para a noiva com os olhos brilhando, quase como se dissesse, “vamos nos casar aqui”.

A História

Cruz Histórica. Foto: Thiago Siqueira.

Cruz Histórica. Foto: Thiago Siqueira.

“No dia 30 de junho de 1980, incalculável multidão ocupou esta esplanada da esperança para participar entre preces e cantos, da primeira missa celebrada por um papa em terras da Santa Cruz, o Santo padre João Paulo II”, diz uma placa assinada por Don José Newton de Almeida Baptista, primeiro arcebispo emérito de Brasília, que deixou o posto em 1984 por limite de idade, vindo há falecer 15 anos depois, em 2001. Sentado próximo à placa, um turista diz ao celular “Como tá aí em Natal?”.

Toda a história da Catedral se mistura à história dos candangos, dos brasilienses, dos brasileiros. A fé de Juscelino em construir a Catedral foi o que possibilitou. Mas claro que há outros dois fatores que colaboraram: o primeiro foi o sonho do Padre Dom Bosco, que ao descrever o sonho profético que teve, acabou por ditar o ponto onde seria construída a Catedral; o segundo ponto fundamental diz respeito aos debates políticos que começaram a acontecer por volta de 1700, acerca da interiorização do capital do país.

A interiorização era uma questão estratégica que buscava fortalecer as fronteiras, e a economia do país. Atualmente há quem diga que a União pegou uma fatia do território do Goiás e ainda não pagou. Quando na verdade, o governador goiano, à época Juca Ludovico, foi extremamente receptível, e favorável, assim como os demais deputados e senadores da região. O estado goiano começou uma campanha nacional pela interiorização, que enfrentava duros ataques vindos de alguns setores da sociedade, em especial dos Jornais de grande circulação, partidos oposicionistas e dos cariocas.

A Pedra Fundamental da Catedral foi lançada em 1958, mas o templo foi concluído apenas quatro anos depois, em 1960. “Concluído” significa apenas sua estrutura. Sua inauguração oficial aconteceu apenas em 1970, com suas colunas ainda de concreto, e vidraças transparentes, não as de Athos Bulcão que hoje maravilham os turistas que entram.

Nas laterais do templo estão o Batistério e o Campanário. O Batistério possui formato oval, e é possível identificá-lo ao lado direito da Catedral como uma bola branca achatada na cor branca, a poucos metros da Catedral. Em seu interior possui paredes revestidas de lantejoulas cerâmicas pintadas por Athos Bulcão, entregue em 1977.

No Campanário branco de bases largas e sólidas, que afinam até a fragilidade que toca o suporte dos sinos, é possível ler na placa que explica o monumento sua origem, e descobrir que “os quatro sinos desta Catedral metropolitana foram doados por subscrição entre os emigrantes espanhóis residentes no Brasil e o governo espanhol no dia 12 de outubro de 1976. Foram restaurados pelo governo espanhol no dia 12 de outubro de 1994” – Desenhado em um dos lados da base do Campanário vemos as marcas urbanas: um coração desenhado a tinta spray.

A Nave

Nave. Foto: Thiago Siqueira.

Nave. Foto: Thiago Siqueira.

Durante a tarde, quem vai a Catedral e cruza o corredor de vendedores até a entrada, ao chegar dividem suas feições entre um profundo encantamento e um profundo embargo religioso. Ao fim do corredor escuro, quando o corredor desemboca no salão principal, o visitante olha pra cima, e percebe que lá dentro é outro mundo. Que de tão surreal, faz parecer que com aquela imensidão, e “céu azul, verde e branco”, a Catedral é a antecâmara do paraíso.

As primeiras coisas visíveis são o Cristo Crucificado, e a Nossa Senhora em uma caixa de vidro. Já a primeira coisa notável são os Anjos, flutuando. Vindo do topo, como se fosse à abóboda do céu, a ponte onde o paraíso se abre, e os permitem passar para o mundo humano, e flutuem até a terra, como parecem estar fazendo. Não se sabe dá pra afirmar com certeza o que Alfredo Ceschiatti e Dante Croce pensavam ao esculpir os anjos, mas as impressões dos turistas são muitas.

Dos três anjos dentro da Catedral, o maior pesa 300 kg, e possui 4,25 metros de comprimento, esse está mais próximo do solo, e estende levemente a mão enquanto fixa os olhos no chão, como se preparasse para pousar; a do meio é um anjo que possui 200 kg, e mede 2,40 metros de comprimento, que desce com a mão ao peito, voando em círculo, como se tivesse receio, mas quisesse descer junto ao primeiro; já a última e menor, se encontra mais próxima do topo, pesa 100 kg, e possui 2,22 metros de comprimento, voa com os braços estendidos como se estivesse correndo para alcançar a primeira e aterrissar junto aos outros dois anjos.

Após desviar os olhos dos anjos, os vitrais inebriam os sentidos dos visitantes, que começam as andanças. Quem vai pelo lado esquerdo pode ver O Coro, obra de Di Cavalcanti, é possível ver uma ou duas pequenas aranhas presas entre o vidro e o quadro. O quadro está preso à uma parede branca, que pertence a estrutura que forma a lojinha de Suvenires oficial da Catedral; logo atrás vê-se a Cruz Histórica – fincada em 1957 para a celebração da primeira missa em Brasília, para comemoração da Santa Cruz e conforme as palavras de Juscelino “Hoje é o dia da Santa Cruz, dia em que a Capital recém-nascida recebe o seu batismo cristão”.

À Pietá fica escondida entre Cruz Histórica e D.Bosco – outra estátua, dessa vez em homenagem a Dom Bosco, padre que teve o sonho profético de Brasília, e foi proclamado Co-padroeiro do templo. A imagem é a primeira réplica idêntica a Obra de mesmo nome do escultor Michelangelo. A reprodução foi abençoada pelo Papa João Paulo II, e foi feita pelo Museu do Vaticano. Além de réplica de outra estátua, parece a réplica de um humano, tamanha a perfeição, e cuidado em representar a humanidade e dor de cristo em seus momentos finais, recebendo o último amparo.

Após À Pietá, estão as escadas, que levam a cripta embaixo da nave. Um lugar escuro, e que comporta um número menor que o salão principal acima. Além de espaço para pequenas missas, é também onde está sepultado Dom José Newton de Almeida Baptista. Apesar de um pouco assustador pelo clima que o mármore negro das paredes gera junto às tampas brancas que dão entrada as câmaras de sepultamento que se destacam sob a fraca luz do local, existe uma energia de fé, um silêncio que move as pessoas a sentarem, e rezarem com mais calma, alheios ao tempo, ou só se sentarem, e ficarem em suas reflexões.

Para os que entram na Catedral e preferem começar a explorar pelo lado direito, encontrarão pinturas de Athos Bulcão em mármore, expostas em uma parede também de mármore branco – além de todo o “céu divino” que separa o templo do mundo real, e é de sua autoria, os confessionários de Niemeyer ficam incólumes, pouco apreciados pelos turistas mais ao canto.

A esse ponto, só resta olhar o batistério e o Campanário do lado fora. O Campanário não recebe visitas, e possui o acionamento dos sinos de maneira eletrônica há algumas décadas.

O batistério visto por fora é uma massa oval que parece um pedregulho de calcário gigante, mas no interior, é surpreendente. Uma câmara circular, com iluminação na parte superior, o que dá um tom de divindade. Ao centro, um pequeno palanque com uma vela gigante, uma mesa e uma pequena fonte. Constam algumas cadeiras em semicírculo para os pais e padrinhos nos atos de batismo. As paredes são revestidas por um painel de pequenas cerâmicas brancas, azuis e verdes, feitas por Athos Bulcão.

O Turista

A abóboda dos céus e os anjos a descer. Foto: Thiago Siqueira.

A abóboda dos céus e os anjos a descer. Foto: Thiago Siqueira.

É possível perceber alguns comportamentos característicos dos que entram na Catedral, os que não são tão religiosos entram e olham tudo com os olhos e os flashes das câmeras fotográficas brilhando. Andam à direita e esquerda, desvendam todos os cantos. Alguns se demoram em cada monumento fotografando tudo para observar e mostrar aos amigos mais tarde, apresentar aos outros a À Pietá, Dom Bosco, a Cruz Histórica, o Cristo e outras obras, ao fundo de suas selfies. Outros andam despercebidos de tudo, apenas apreciando, vagueiam calmamente, se sentam no banco, olham as imagens, respiram a fé. Poucos reparam os detalhes menores, como por exemplo, os candelabros brancos ao redor do templo, com crucifixos também brancos embaixo, poucos os notam presos ao mármore branco.

Outro tipo de pessoas são os que chegam ao templo, se curvam em respeito, andam calmamente até uma das cadeiras, sentam-se e fazem suas orações. Algumas se ajoelham, abaixam a cabeça, juntam as mãos, e deixam a fé fluir. Quando terminam as orações, se levantam um pouco atordoados, e com o rosto comovido pelo ambiente. O mais interessante é como os sorrisos dessas pessoas parecem maiores que os do que não seguem esse ritual. E as passadas mais lentas, assim como o tempo de apreciação das obras da Catedral. Como se degustam um belo vinho francês.

A importância da Catedral é gigante, um exemplo disso, é o artista Kobra, que já expõe suas obras em prédios de diversas cidades do mundo, como Nova York, Moscou, Atenas, Londres e várias outras. Mas o ápice que conversa com a Catedral é a obra chamada O Candango. A peça de fundo colorido traz a Catedral em seu fundo em preto, e um candango na frente. A obra mostra o respeito, e dentre as várias possibilidades, o quanto a Catedral é importante para a cidade como um todo.

Todos os dias, são vários os sotaques, estados, e países que marcam presença no espaço da fé. A Catedral é uma obra para a eternidade, e que compõe a beleza. Como uma turista comentou com outra que a acompanhava, “essa aqui é melhor que a outra”, enquanto apontava para o Congresso Nacional.

thiago

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