Linton Kwesi Johnson — O Dubpoeta e o Blackstar

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Linton Kwesi Johnson no Black2Black (Foto: G1)

Por Thadeu C Santos

Dennis Bovell, um homem forte e alto, suava a careca enquanto dedilhava seu baixo. O instrumento suspendia o ar pelo qual sua dub band flutuava. Formada por mais cinco músicos, Dennis puxou dois reggaes bem pra cima, ao estilo britânico. Dali a pouco, Linton Kwesi Johnson era apresentado. O pai da dubpoesia finalmente se expunha ao palco, antes das dez da noite, para poucas pessoas que naquele momento flanavam pelo enorme vão da César Maia Land, hoje Cidade das Artes — o elefante branco da Barra da Tijuca. Era a abertura do Back2Black, o maior evento pró arte negra do país.

Esguio, de estatura mediana, rosto angular e barbicha caprichosamente pontuda, Kwesi Johnson não se aproxima da imagem regueira tradicional. O jamaicano, radicado em Londres desde os 10 anos, se veste como um pastor protestante, usualmente é visto de terno sóbrio e bem-alinhado, chapéu e gravata. Para os cariocas, atenuou a vestimenta. Estava com uma camisa de botão branca e leve, calça caqui e sapatos. Não sorriu. Linton é carismático. Mas de outro jeito.

Pouco antes, Ruy Castro e Nei Lopes conversavam na mesa “O negro na invenção do Rio”, um dos muitos debates do festival que este ano tiveram organização do escritor angolano José Eduardo Agualusa. O tema era o protagonismo do negro na formação cultural da cidade. Já pro final, respondendo a uma questão vinda de uma educadora que estava na plateia, Nei Lopes defendia a ideia de que o fato de crianças negras conviverem com a pouca memória de glórias por parte de negros e pardos brasileiros contribui para a baixa estima em relação a sua cor, ascendência e perspectiva de futuro. Horas depois, já apresentadas três ou quatro músicas, Kwesi Johnson dava seu depoimento sobre a questão, como se, num efeito temporal, estivesse ele mesmo em diálogo com Nei Lopes. “Imigrantes negros e caribenhos que iam para a Londres se acostumaram a ficar na periferia, tanto física quanto discursiva. Hoje, estamos muito mais perto do centro”, disse o dubpoeta ao público. Linton é o primeiro negro a constar no catálogo da coleção Penguin Modern Classics, pela qual, pode-se dizer, ganhou status de pertencente ao commodity oficial das letras britânicas. Exemplo do que declarou, outro poeta jamaicano radicado na Inglaterra, Kei Miller, figurou nas principais listas de indicações de leitura de 2014. The Cartographer Tries to Map a Way to Zion traz em poemas o embate entre um cartógrafo, definidor dos limites e agnóstico, com um rastaman, um expropriado em todos sentidos, menos no espiritual. Nos poemas de Kei Miller, o centro é um lugar definido por quem concentra poder e oprime. Durante sua vida, Linton trabalhou como uma formiga para minar esse centro.

“Sonny’s Letah” é uma das obras-primas de Kwesi Johnson. Antes de apresentá-la na Cidade das Artes, esboçou uma explicação: “Essa música foi feita em cima da carta que um rapaz — negro e caribenho, que estava preso em Londres — escreveu para sua mãe que ainda vivia no Caribe”. Linton tem uma pegada bastante característica, um flow calmo e muito bem marcado. A sílaba forte que fecha a frase rítimica é sempre esporrada na batida mais grave do compasso do reggae. A banda, porém, não se contenta em ser uma auxiliar, interpreta à altura do poeta. Aguarda a execução defendendo com primor as linhas da base e sobe em solos de metais ou guitarra quando Linton descansa a voz. Não é exatamente um show de reggae, não é exatamente um show de rap. Apesar de veteraníssimo — gravou o primeiro disco, Dread Beat an’ Blood, em 1978 —, sua apresentação é singular e tônica, transmite com fidelidade o momento original das muitas ramificações que o movimento rhythm and poetry tomou desde então. É um dubsarau. Em muitos momentos da apresentação, eu sentia vibrar o espectro de Itamar Assumpção.

“Já estive no Brasil uma vez, em Salvador, na Bahia”, contou Johnson, sobre uma visita ao nosso país em 1990. “Fui no Pelourinho. Vi o Olodum.” Para minha total redenção, se manteve contido. Não apelou para o público, como faria mais tarde o compatriota Damian Marley, ao ostentar o chavão “Brazil, I love you” repetidas vezes. Damian, que fechou a noite de apresentações do principal palco, era uma metralhadora em plena forma. Fatiava palavras em microssegundos e, aos pulos, punha o reggae à toda, à bordo de um iate superveloz. Alternando hits românticos, raggas de contestação, exaltações a Jah e a seu pai, o mito Bob Marley, ele representava um contraponto ao senhor que abrira a noite. Linton pega pesado sem se mexer quase nada, apenas movimentava os braços ciclicamente para cima e para baixo, mantendo os cotovelos arqueados. Os joelhos quebravam de leve, acompanhando os riffs da marcação da guitarra. Se manteve circunspecto, não perdeu o fio da meada, foi preciso e não se excedeu. Bem no meio da sua apresentação, exclamou um “Máximo respeito!” — com o sotaque atropelando o tom natural das sílabas —, o jargão da cena de rua dito quando se tem admiração absoluta por alguém ou por uma ideia. Linton sabe por onde se mete.

“É um prazer estar no mesmo palco em que esteve Linton Kwesi Johnson”, esguelava Marcelo D2, ao fim do show do Planet Hemp, que sucedeu ao do dubpoeta. “É um mito!”, dizia, para uma plateia pelo menos dez vezes maior a que assistiu a apresentação inicial. B Negão não se manifestou muito embora se fizessem necessárias algumas palavras daquele que chamo de “novo síndico”, dono do cetro de Tim Maia. O show do Planet foi uma porrada. A rodinha que estava pequena nos Atos 1 e 2, como é dividida a apresentação, se alargou a quase toda extensão da frente do palco no terceiro e derradeiro ato: “A invasão do sagaz homem fumaça”. De longe, foram os momentos de maior exaltação do público, que se mostrava incansável diante dos ícones do hardcore carioca. Próximo dali, outro momento sinergético teve como frente a jovem Karol Conka, um diamante de autoafirmação e criatividade, que se apresentou no palco alternativo. Uma pena, pois seu som é muito bem desenhado e merecia caixas mais potentes. Moradora de Curitiba, foi trazida do futuro por naves alienígenas a fim de acelerar a evolução da humanidade. Sua beleza é futurista, de óculos armação branca e cabelo lilás, a moça é um ás do flow bem alternado em agudos e graves. Pega em cima e joga embaixo na mesma frase. É extremamente pop e conscienciosa, se concentra em proclamar a liberdade do ser, a livre movimentação pela urbe e na total exploração das sensibilidades. Karol milita fazendo as pessoas dançarem. A extravagância é sua dose contra os intolerantes.

“Nos últimos treze anos o fascismo está crescendo na Europa”, ensinava Kwesi Johnson, quem também é sociólogo, ao se aproximar do fim do show. “Em 1970, lutávamos contra o fascismo, achei que isso estava ‘controlado’, mas agora a coisa está crescendo”, completou. Ativista, ele se situava entre diferentes braços do movimento negro britânico. Esteve muito próximo das ideias dos Panteras Negras. No disco Bass Culture, que contém “Inglan is a bitch”, clássico que não foi apresentado no Back2Black, há menções à uma “resposta violenta” que alguns negros empunhariam diante da opressão, muitas vezes, suas palavras eram confundidas como mera apologia ao homicídio de policiais e brancos. Uma tentativa de deturparem a mensagem por consciência e liberdade, acrônica, ainda corrente na cidade que, sem comprovação explícita, processa criminalmente 23 ativistas políticos, direta ou indiretamente envolvidos nas Jornadas de Junho de 2013.

A primeira noite do festival foi encerrada, no palco menor, pelo Dream Team do Passinho, uma boy band liderada por uma mulher, a simpaticíssima Lellezinha, balançando sobre um tamborzão remixado, seguindo os ditames da pegada funk clubber que está se difundindo em pistas gringas e cariocas, à la Heavy Baile. Em 2014, o grupo lançou o hit “Vida” ao lado de Rick Martin. “Quem diria, mas isso aqui começou num comercial de refri”, explicava Mike, um dos cabeças do grupo — mais mc do que dançarino — sobre o início do Dream Team. “Todo mundo aperta o play”, com 9 milhões de views no YouTube, surfou legal na onda da Copa com apoio da Coca-Cola. Na Cidade das Artes, foi apresentada em playback. Já eram três e pouca da manhã. A energia daqueles jovens crescidos em favelas distava muito dos conflitos em Brixton versados por Linton. O dubpoeta, por sua vez, ao se despedir do público admirado, agradeceu simploriamente: “Thank you all”, e se dissipou com a mesma velocidade que apareceu. Não há palavra maior a dizer, a presença de Linton Kwesi Johnson no Back2Black foi um banho de poesia e resistência. No fim da madrugada, a mensagem ficou então mais clara, fruto de um show fora da curva que reverberava. Linton, aos 62 anos, não se mostrou cansado. Parecia portar o entendimento de que ainda se tem muito a fazer: o centro, tal um monumento arquitetônico fraudulento, ainda está de pé.

 

Thadeu C Santos
é poeta e editor da kza1

 

Confira as músicas de Linton Kwesi Johnson

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