OSSOS DO OFÍDIO: Revolução no Salão, por Marcelino Freire

11077891_1621919091364286_1186001_n

 

        Hoje acabou a nossa diária-alimentação.
Foram 50 euros por dia. E o Salão do Livro acabou ontem, dia 23 de março, aqui em Paris.
Eu fui um dos convidados. E estou feliz.
Apesar dos 50 euros.

        Explico: na verdade, digo, apesar da polêmica “revolução” em torno dos 50 euros. Para quem acompanhou as notícias do Salão aí no Brasil – em que nosso país foi homenageado –, só se falou nisso. No baixo custo da diária-alimentação para os escritores. Na falta de cachê para os autores brasileiros, essas coisas.

        Sei, eu até cheguei a dizer lá na Folha de S. Paulo. A saber: concordo que o valor tenha sido baixo, mas existem outros valores em jogo. Escreva aí, meu amigo, ora diacho: por que não falar de outros ganhos?
E eu não estou sendo, ulalá, romântico.

        Só estou cobrando: por favor, jornalistas, por exemplo, façam um perfil de Paula Anacaona. Essa editora francesa que só publica literatura marginal, prosa aí escrita na periferia do Brasil. Não seria esse um assunto mais relevante?

        Se bem que, passada a febre da polêmica fácil, a mesma Folha fez, ontem, um perfil de Conceição Evaristo. Dizendo que ela é “uma autora desconhecida”. Só se for para a Folha, é claro. Porque faz tempo, sabemos, que Conceição é cultuada nos saraus das quebradas, na cidade do Rio de Janeiro, em Salvador, por todo canto de nossas cidades. Eta danado! É escritora negra, logo, ao que parece, aos olhos da grande mídia, até agora, “completamente invisível”.

        Quanta ignorância! Meu Cristo! Ave nossa!

        E hoje, enquanto escrevo essas frescas memórias, saiu no jornal O Globo outro perfil: o de Ferréz e o de Rodrigo Ciríaco. Ambos que ganharam dinheiro além dos 50 euros. Explico de novo: porque, sem se estenderem nas reclamações, os dois camelaram seus próprios livros. Viraram (Paulo Coelho não veio) best sellers, podem crer. Sucesso de vendas, fora e bem distantes do ranking da FNAC, a livraria oficial do estande do Brasil. Ambos (Ferréz e Ciríaco), vale a pena ressaltar: publicados e traduzidas por Paula Anacaona. Inclusive a própria Conceição.

        “Não traduzo o que é fácil de traduzir. Minha preocupação é com outros caras, outras caras do Brasil”, diz Paula. E, na guerrilha, ela grita, solta as “nossas” palavras. Foi ela idem que, teimosamente, lançou o meu romance “Nossos Ossos” por aqui. Também lançou Raimundo Carrero, Paulo Lins, Rachel de Queiroz, José Lins do Rêgo. E está agora debruçada no clássico calhamaço “Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves.

        A fé de Paula se junta a de Leonardo Tonus, ele que, nascido em São Bernardo do Campo, é professor da Sorbonne e um dos grandes divulgadores de nossa literatura contemporânea. Qual jornal, um dia, dará conta de apresentar ao Brasil essa figura que é o Tonus? Salvo engano, não me lembro se vi algo, na nossa imprensa, mais demorado sobre ele. E sobre o programa do governo federal, por exemplo, que traz estudantes pobres, das universidades do Brasil, para virem estudar nas universidades francesas – esses alunos são, em boa parte, os que lotam as plateias do Salão do Livro e compram nossos livros e sorriem à nossa chegada e festejam.

        Em tempo, é bom que se diga: quando falo do governo brasileiro, não estou ganhando nada para isto. Só, mesmo, os 50 euros. No entanto, eu não deixei, em uma das mesas, de mandar um recado para Dilma Rousseff: “mais humor e mais amor, presidenta”. Em tempos difíceis, relaxa um pouco mais, mulher. Solta um sorriso, abre o peito, puxa lá de dentro um jeito de aplacar a ferocidade que há. “Raecionários” de plantão, sei lá, estão em toda parte do Brasil. E fora do Brasil também. Inclusive, ao que parece, querendo tomar conta do Salão.

A todos eles, repito: amor, amor, amor.
Paris é quem nos ensina.
Eis a verdadeira revolução!

marcelinofreire

2 comentários sobre “OSSOS DO OFÍDIO: Revolução no Salão, por Marcelino Freire

  1. eis o que a folha publicou : “A biografia da autora, um dos nomes menos conhecidos na delegação nacional de 43 embaixadores das letras que veio à França.” em outras palavras, nâo se diz que a conceiçâo evaristo é “uma autora desconhecida”…

    abraçâo

    márcio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s