Livre Opinião entrevista Lucas Santtana: “Eu gosto sempre de brincar, aprender e fuçar o universo musical”

Lucas Santtana durante entrevista ao LOID (Foto: Jonas Lara)

Lucas Santtana durante entrevista ao LOID (Foto: Jonas Lara)

Na última quinta-feira (26), o cantor e compositor Lucas Santtana realizou show no Sesc de São Carlos, em que apresentou a turnê de seu recente álbum: “Sobre Noites e Dias”, assim como as conhecidas canções de sua carreira.

Acompanhado de Caetano Malta (guitarra, baixo e MPC) e Bruno Buarque (MPC, IPad,bateria,efx), Lucas, em seu sexto álbum, constrói um trabalho interessante com canções que dialogam com as novas gerações e apresentam as atitudes da sociedade atual.

Antes do show, Lucas concedeu uma entrevista para o Livre Opinião – Ideias em Debate e comentou sobre o início da carreira: “O começo foi bem difícil, mas você acaba fazendo porque é uma urgência na vida. Mesmo com essa dificuldade é uma coisa que eu gosto e preciso fazer para poder ser feliz”. Durante o bate-papo, o músico também falou sobre a experiência de tocar ao lado de Gilberto Gil, no antológico Acústico Mtv, e também com o cantor e compositor Geronimo: “Esses trabalhos foram legais para eu ganhar experiências de estrada e como o leque musical deles era muito vasto, fez eu entrar em contato com o reggae, afrobeat, salsa e vários outros gêneros musicais”.

Com um trabalho diversificado na música, Lucas contou sobre o processo de criação de suas canções: “Eu gosto sempre de brincar, aprender e fuçar o universo musical. Minhas músicas, em todos os discos, são misturas. Meu trabalho é mostrar que os universos se tocam e se cruzam”. Ele tambéu opinou sobre a classe artística, apontando que os músicos precisam tomar posições em relação à política do Brasil: “Neste momento delicado do país eu vejo a minha classe pouco ativa em relação a isso. Muito apática, como se vivesse no mundo da fantasia. Nós fazemos parte do Brasil, temos uma voz e precisamos participar. Dê sua opinião, se manifesta, não fique no seu mundinho fantasioso”.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

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Início da carreira, ainda jovem quando tocou ao lado de Gilberto Gil no antológico Acústico Mtv, o que você aprendeu com o mestre?

Foi o maior aprendizado tocar com ele. Fiquei na banda por três anos e meio viajando em várias partes do mundo. Foi uma experiência incrível. Mas antes de tocar com o Gil, eu toquei com o Geronimo, que é um cantor e compositor de Salvador também. Enfim, esses trabalhos foram legais para eu ganhar experiência de estrada e, como o leque musical deles é muito vasto, entrei em contato com o reggae, afrobeat, salsa e vários outros gêneros musicais.

E o começo da vida artística foi difícil também?

Foi sim. Ainda mais quando eu comecei, meu primeiro disco é de 2000, não existia espaço para o meu tipo de música. Não tinham tantos festivais, não tinham coletivos que promoviam shows e eventos. Não existia um espaço na mídia. O começo foi bem difícil, mas você acaba fazendo porque é uma urgência na vida. Mesmo com essa dificuldade, é uma coisa que eu gosto e preciso fazer para poder ser feliz na vida. Se eu não fizer isso não vou estar cem por cento inteiro na minha existência. Mesmo estando difícil no começo, eu sabia que era isso que queria fazer. Então persisti e com o tempo as coisas foram melhorando.

Passando para o seu novo álbum, Sobre Noites e Dias, o interessante da composição de Funk dos Bromânticos é que você faz uma crítica à homofobia com a genial estrofe: “Para eles o amor é livre / Ela não é gay / Ele não é viado / E não são mais classificados”.

Na verdade, o Funk dos Bromânticos não é uma crítica e sim uma afirmação sobre uma geração que eu conheci durante a turnê que a gente fez do álbum anterior pelo Brasil e também no exterior. É uma geração de vinte e poucos anos que ficava com pessoas do mesmo sexo e também do sexo oposto, e não se consideravam homossexuais. A geração que fazia, de forma natural, a ideia de que o amor é livre, independente de gênero sexual.

Fiz a música em homenagem a essa geração que eu conheci e que, de alguma maneira, traz milhões de assuntos que estão sendo discutidos, tanto na Academia quanto na imprensa, sobre a questão de gênero. E eles discutem com tanta naturalidade que se torna um grande ensinamento para todos nós. São jovens em Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, do Rio e São Paulo. Fui ler a respeito e encontrei que a palavra bromânticos é aportuguesada de bromantic, que é a mistura de romantic com brother.

Outra canção interessante do novo álbum é Mariazinha Morena Clara, que, pela interpretação, pode ser uma exaltação ao Brasil. Na canção você escreveu “Sei que você vive na praia / Mas o sol que abraça só tem no Brasil”, ou seja, mesmo fazendo concertos pelo mundo, o palco do Brasil não tem comparação?

O bom de música e poesia é que cada um interpreta de um jeito (risos). Esta é a grande graça de não definir o que é. Para você ver, eu fiz esta música para uma moça que mora no Rio e, na verdade, pelo fato de ela viajar muito, eu falo que esses lugares, como a Tailândia, são legais mas “o sol que abraça só tem no Brasil”. É uma brincadeira no sentido de alguém que está viajando muito. É dizer para este alguém não ficar tanto tempo fora do país.

Mas isso acontece com você também, que realiza show no exterior?

Sim, comigo acontece também. Mas eu sou cigano. A vida inteira eu gostei de viajar. Gosto muito da estrada.

Você tocou em São Carlos no passado, no evento da Virada Cultural Paulista, dividindo o palco com Jorge Mautner. Meses depois você retorna para a cidade. Você gosta do palco de São Carlos?

Já vim algumas vezes a São Carlos. Toquei no aniversário da Rádio UFSCar e no Festival Contato. Ano passado toquei na Virada, mas foi muito estranho porque tinha muita gente e ao mesmo tempo o público estava, digamos, meio “frio”. Não entendi muito bem, até pensei que fosse por nossa causa, mas depois do meu show teve a apresentação Baby do Brasil cantando sucessos e o povo continuava do mesmo jeito. Aí falei: “bom, não era com a gente” (risos). Mas, geralmente, os dois shows que fizemos – do Contato e da Rádio – o público foi muito “quente”.

Você é bastante conhecido pelas experimentações nas músicas. No recente álbum você faz uma mistura musical interessante, passando pelo funk, rock, eletrônico, entre outros. Como é o Lucas na criação das canções?

Eu gosto sempre de brincar, aprender e fuçar o universo musical. Minhas músicas, em todos os discos, é uma mistura mesmo. Meu trabalho é mostrar que os universos se tocam e se cruzam. Uma música não precisa ser uma coisa apenas. Se for mais pra trás, isso – a mistura – já é uma coisa da música brasileira, pode encontrar nos discos do João Donato, Caetano Veloso e Dorival Caymmi. A música brasileira sempre foi diversificada. O que o meu trabalho agrega é a questão das texturas musicais, ou seja, é de pensar a música não só como canção, ritmo e estilo, mas é vestir a canção com certo tipo de sonoridade. Isto é a diferença do meu trabalho e há quinze anos eu venho provocando, dentro da música brasileira, essa sonoridade como sendo um novo caminho para a canção do país.

Lucas, o site chama-se Livre Opinião – Ideias em Debate, ou seja, este final da entrevista é um espaço livre para o artista desabafar, criticar ou colocar em debate uma ideia. Conte-nos.

A minha classe, digamos assim, os músicos, cantores desta cena mais independente precisam tomar mais parte politicamente. Vejo muito pouco deles opinando em redes sociais, envolvidos em reuniões com coletivos. São pessoas que já falam para muita gente, então há uma certa responsabilidade de opinar como cidadãos.

Estamos passando por um momento no Brasil extremamente difícil, há toda uma onda de conservadorismo que voltou com tudo. Temos um dos piores congressos da nossa história. Muito disso é culpa do voto proporcional, ou seja, para quem não entende, o Tiririca tem novecentos mil votos. Ele não só se elege como leva junto duas pessoas do partido dele que tiveram poucos votos. Esse tipo de voto proporcional causa distorções no Congresso, e a gente está vendo isso.

Estamos com um Congresso extremamente bandido, retrógrado, conservador, que não representa a sociedade brasileira de maneira igualitária. Está sendo um momento delicado para o país. Vimos um governo de esquerda que prometeu muitas coisas. Este governo fez muitas coisas diferentes, mas também muitas coisas iguais no mau sentido, como a corrupção. Temos uma mídia completamente partidária, uma mídia em que você não pode acreditar. Toda comprada e com os pés atados. Neste momento delicado do país, eu vejo a minha classe pouco ativa em relação a isso. Muito apática, como se vivesse no mundo da fantasia. Nós fazemos parte do Brasil, temos uma voz e precisamos participar. Dê sua opinião, se manifeste. Não fique no seu mundinho fantasioso.

Entrevista: Equipe Livre Opinião

Confira as fotos do show

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