A viagem alucinógena de “Vício Inerente”, novo filme de Paul Thomas Anderson

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Compartilhando de uma conversa alucinógena é o que se sente após a sessão de Vicio Inerente. Ao fundo, Chuck Jackson, em Any Day Now, vai sendo tocado enquanto sobem os créditos finais. Letreiros de neon só exercem a marca alucinógena. Logo de cara, as assinaturas de dois gênios, dois Thomas: Um do cinema, Anderson, o outro na literatura contemporânea, Pynchon. A junção que deu certo, a mistura que dialoga com o nosso período, mesmo que o filme seja ambientado no início de 1970. Aliás, o livro foi publicado em 2009, mesmo assim Pynchon narrou precisamente uma época utópica em que jamais vivi, desconstrói o sonho americano e mostra de onde veio a personalidade que somos hoje.

Viajei no último parágrafo. Mas a viagem alucinógena é o que faz bolar o fino de Vício Inerente. Joaquin Phoenix – méritos para mais um papel memorável na carreira – interpreta Doc Sportello, detetive particular, um dos últimos remanescentes da geração hippie – no livro e filme é a geração escrachada pela elite e órgãos de poder, chegando ao preconceito – que em certo dia é surpreendido pela visita de sua ex-namorada, Shasta Fay Hepworth (Katherine Waterston), que lhe pede ajuda para investigar um plano envolvendo o desaparecimento de um milionário do ramo imobiliário, Michael Z. “Mickey” Wolfmann (Eric Roberts, aparição rápida, porém interessante), arquitetado por sua esposa e amante.

Sim, que loucura essa trama. Agora, imagina seguir a investigação com Doc completamente chapado. É impossível não ver o personagem nas cenas sem um fininho entre os dedos. E isso só torna o filme excelente, ou seja, o espectador não sabe se aquilo que Doc investiga é real ou apenas alucinação do efeito da droga. No livro também seguimos o personagem sem saber se os fatos são verídicos. Pynchon magistralmente manipula o leitor com sua narrativa longa – o livro tem mais de 400 páginas – descrevendo as imaginações de Doc, deixando o caso em outro plano. Porque o que interessa nem é a mais a solução, mas o comportamento bem traçado de uma sociedade e período complexos.

Paul Thomas Anderson – que também assina o roteiro – nos entrega uma crítica do período da virada dos anos de 1960-70. Era da mudança de consciência e conduta estadunidense, que influenciaria também a mudança na cultura do mundo.  O filme, repito, assim como o livro, não é bem tragado por muitos. A crítica não foi bem receptiva e muitos torceram o nariz. Haverá espectador que reclamará das sequências prolongadas e diálogos muitas vezes sem nexos, mas é apenas uma visão da geração que não seguia o fluxo da sociedade cada vez mais transformada em individualista e capitalista. Doc é a escolha da decadência da geração hippie, que pregava o contrário do materialismo. E para escapar desta mudança, o consumo de drogas se torna a solução.

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Diante de tantos personagens, há também inúmeras interpretações marcantes, Josh Brolin é um deles, no papel do detetive Christian F. “Bigfoot” Bjornsen. O único ator de peso que se equilibra com a atuação de Phoenix. Pode-se dizer que Bigfoot é o alter ego de Sportello. Os dois em cena traz momento alto do filme. Aponto duas cenas marcantes entre os dois: os telefonemas de Bigfoot para Doc, principalmente a sequência em que a esposa do detetive interrompe a conversa telefônica e xinga Sportello. Outra é a cena final dos dois, que se torna antológica para o cinema. Nem me prolongarei para não estragar a surpresa, mas o apelido “Bigfoot” não é à toa.

Outro destaque fica para a interpretação de Katherine Waterston. Ela se entrega completamente na personagem de Shasta. Faz acreditar que está no dilema e necessita da ajuda de alguém confiante e fiel. Por isso recorrer a Doc, que mesmo investigando a seu modo desenvolve teorias que acrescentam à trama. Waterston também faz uma cena memorável em Vício Inerente, que só destaca a sua performance. A química entre ela e Doc faz parecer tão real, que só acrescenta o motivo do detetive em se aprofundar no caso.

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Vício Inerente é um presente para os admiradores de Pynchon – esta é a única adaptação para a mídia cinematográfica do autor, que tem fama por ser recluso. E PTA nos entrega mais uma brilhante obra de sua carreira. Lógico que não é a melhor do diretor mas nesta arte em que vemos cada vez menos diretores ousados, PTA é um dos únicos do cinema americano a correr o risco.

Entre os embaraços da trama – o que mostra ser proposital -, Vício Inerente foca na crítica à especulação imobiliária, em crescimento na época do enredo. Notamos isto na sequência em que Doc e Shasta saem na chuva em busca de maconha, a câmera acompanha Shasta pela calçada em que ela olha um terreno baldio. Anos depois, por consequência da investigação, Doc vai ao mesmo local e enxerga um enorme prédio de uma companhia criada para lavagem de dinheiro.

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O filme faz pensar se Doc está à frente do seu tempo ou apenas estagnado em um período datado. As classes sociais distantes e os costumes julgados de modo preconceituoso. A geração que pregava a paz e o amor se torna ultrapassada, podemos também pensar que a sociedade está num eterno trânsito e Doc na direção de seu carro prefere continuar acelerando, sem um lugar que se identificasse em parar.

Pynchon, nas últimas páginas, descreve isto:

“[…] Talvez então começasse assim por dias a fio, talvez ele [Doc] simplesmente tivesse de ficar dirigindo, passando de Long Beach, passando por Orange County, e San Diego, e cruzando uma fronteira onde ninguém mais pudesse dizer na neblina quem era mexicano, quem era anglo, quem era alguém. Mas também, ele podia ficar sem gasolina antes de isso acontecer, e ter de abandonar a caravana, e parar no acostamento, e esperar. Por o que quer que fosse acontecer. Que um baseado esquecido se materializasse no seu bolso. Que a Polícia Rodoviária aparecesse e decidisse não incomodar. Que uma loura inquieta em um Stingray parasse e lhe oferecesse uma carona. Que a neblina se consumisse, e que alguma outra coisa dessa vez, de alguma maneira, estivesse no lugar dela.

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