Feto Condenado

Por João Victtor Gomes Varjão

Mamãe, não me tire. Pelo amor de Deus.

Quero ficar com a senhora. Na barriga da senhora. Viver o que Deus me deu. Se eu sair vou apanhar, mamãe. Tá vendo a cor da minha pele, não, mamãe? É pele de quem vai apanhar. De quem vai ser preso, mamãe, até alguém matar. Me deixe aqui, por favor. Médico não sabe de nada. Que é que tem passar mais de nove meses, doutor?

Se os polícia me pega, mamãe, eu já tô é preso. Tem essa de ser criança, não. Entra junto no camburão. Não me deixe, não, mamãe. Aqui é bom. Tem comida, é quentinho, tem fartura, é que nem gente rica. Aí não tem é nada pra gente. Aí a morte vem assim. De repente.

Não quero apanhar de papai, não, mamãe. Eu sei que ele bate. Até a senhora chora, mamãe. Eu quero ficar aqui pra sempre. A senhora sabe que na invasão não tem nada. Por favor, aguente. Não tem professor, nem escola. Aqui eu aprendo mais. Não vou passar fome, ser vagabundo. Aqui eu não morro bem rapaz. Aqui dentro eu vou ser é homem.

Mamãe, eu juro que não vou roubar. Juro que não vou matar. Mas só se aqui eu for ficar. Se eu sair, já era. Os PM nem vão vai dar trela. Só um tiro ou cadeia pra mim, na certa.

Não tô brincando, não. Não pari, mamãe. Espera. Por favor, mamãe, é difícil ser da favela. A gente já sofreu demais. Se eu sair, a gente vai sofrer muito mais. Deixa eu ser feliz, só um pouquinho? Só uma vez? Isso já me satisfaz.

Aí fora é pra chorar. Apanhar. Cair na cela entupida, mamãe. Eles vão me estuprar. Vão me rasgar. Eu tô com medo, mamãe. Eu vou deixar de ser criança. Pra gente não existe criança esperança. Vou ter de virar gente grande. Apanhar que nem gente grande. Sofrer que nem gente grande. Mamãe. Mas eu nem nasci. Não quero, não. Me segura antes de eu partir.

A culpa não é minha, mamãe. Nem da senhora. Eu acho que é daquela lei áurea que largou a gente pedindo esmola. Eu só vou roubar pra me alimentar. Não queria, não, mamãe, mas tem outra escolha pra dar? Eu queria era ser professor ou até virar um doutor. Mas eu não entro nem no prézinho. Acorda, molequinho. O jeito é matar por um real de pão. Nosso sonho morre dentro do camburão. Senão tudo morre de fome. A gente só mata o que come.

Por favor, mamãe. Não quero acordar com a boca cheia de formiga. Aí fora é difícil, num tem outra saída. Não quero fazer a senhora chorar. Só quero fazer a senhora me amar. Me segura, mamãe, não deixa o ventre rebentar.

Quero morar aqui.
Na barriguinha.
Ser sempre seu guri.
Não virar notícia de ladrão ou de quadrilha.

João Victtor Gomes Varjão é de Juazeiro da Bahia. Tem dezoito. Escreve prosa e poesia. Lançou em 2014 o livro de contos Moscas Civilizadas em Gaiolas Modernas pela editora Multifoco. Está trabalhando em um novo livro de contos para lançar não sei quando.

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