CAVIAR COM COCAÍNA: “Tadasana”, por Marina Filizola

fotoTudo começou com os comentários desmedidos do sacripantas fim-de-linha que trabalha no mesmo escritório que eu. Eu não sei o nome dele. Só sei que um dia cheguei no serviço e lá estava o trolha, com sorriso amarelo estampado na fuça gorda, alojado numa escrivaninha toda chinfrosa bem na minha sala. Nunca dei moral pro filhote de coruja, não sou de dar intimidades de me enturmar, contar a vida. Essas convenções sociais patéticas, tipo sair e tomar uma gelada com o colega depois do expediente não aconteceu, nem nunca vai acontecer. Não gosto dele de graça, sou do tipo resguardado come-quieto, que não dá moral pra cú-de-ampola que emerge do nada e acha que é seu amigo de infância. O que eu sei é que de vez em quando o romântico fica olhando com cara de prostrado pro porta-retrato rococó que fica em cima da mesa e que não me sinto nem um pouco interessado em saber quem é, contanto que ele fique mudo e não encha meu saco. Também deduzi por lógica pura que se separou recentemente, porque tem marca de anel no dedo. Marca que ele deve ter conseguido num pacote de viagem da CVC pra Jericoacara que ele deu de presente de lua de mel pra falecida, que provavelmente odiou a emboscada, mas não consigo realizar que tipo de mulher na face da terra poderia se sentir interessada naquilo. Nem quero saber, sou imensamente agradecido à fulana pois a melancolia do sujeito promove uma imensidão de distancia entre a gente, a megera foi generosa comigo ao ter dado no cafetão um ponta-pé no meio da bunda com bota de couro de bico fino.

Deve ser ela no porta retrato, mandando ele tomar no cú em grande estilo.

Acontece que de uns tempos pra cá ele se sentiu no direito de me dar tapinha nas costas, oferecer café tremido, piscar todo malandro quando a secretaria protótipo de boasuda passa pela porta de rabo arrebitado, com a bunda latejando e as tetas derramadas pra fora do decote, uma podreira descomunal. Mas como ele tá fudido e mal pago porque entrou no mercado de carnes e caiu no matadouro recentemente, ele está atirando pra todo lado. É bem do tipo que come anã, dá pra perceber pelo perfume de puteiro que ele borrifa até no cinto da calça e pela corrente de prata perdida nos tufos de pentelho que saem pela gola da camisa.

Mas agora deu de me corrigir, acredita? O cara acha que é atleta mas é do tipo que não faz porra nenhuma, só fica injetando anabolizante de cavalo na veia pra ficar com o pinto duro. Se eu espetar o bolha com uma agulha ele murcha que nem saco de idoso, vira bexiga de fim de festa. É só a capa. Por dentro deve ser todo embolorado, as perebas no pescoço caguetam as químicas sendo expurgadas, umas bolas de pus horrorosas, só garota de programa do largo da batata que lambe isso, e ainda lambe enojada.

Devem cobrar o dobro.

Mas não.

O mister universo me corrige com pontuação de personal trainer, como se estivesse me fazendo um grande favor ficar me estorvando enquanto eu digito contratos de merda que não me dão lucro nenhum.

“Olha as costas, endireita que tá corcunda, joga pra trás essa escapula, seu pulmão tá esmagado, senta reto, presta atenção na cintura, vai aumentar a barriga. Tá feio, parece um corcunda, levanta esse rosto, olha por cima, assim só vê o chão e perde a paisagem, projeta seu tórax pra frente, postura de macho alfa, assim num vai pegar ninguém, tem que se colocar, chegar-chegando, ocupando espaço, assim você vai apanhar de skinhead no metrô.

Que paisagem?

Que macho alfa?

Que skinhead?

Que filho da puta!

Agora me dei conta que chego em casa e fico me olhando no espelho de perfil de costas de cócoras, o cara me contaminou com esse papo afetado de tarado punheteiro que fica olhando pra músculo de homem em banheiro de academia.

Meu físico invejável de jogador de paciência nunca me deixou paranóico. Mas outro dia fui tentar olhar minha jeba depois do banho e percebi que minha barriga virou um calo sexual, uma protuberância pornográfica, e mesmo sendo magro de dar dó minha coluna côncava e minha lombar convexa não estão falando a mesma língua. Minha escoliose chegou no seu ápice.

Ou meu pênis encolheu.

Por isso me inscrevi nessa aula de yoga. Diz a lenda que yoga ajeita gente torta. Meu lado espiritual não vem ao caso, não estou atrás de um portal que me leve pra outra dimensão.

Quero olhar meu pinto de cima. É isso.

A primeira façanha foi achar uma aula de yoga compatível com meu biotipo. Eu não podia imaginar quantas vertentes de yoga existem. Yoga aquática, tântrica, aérea, power-yoga, soft-yoga, hot-yoga, Ayengar Ashtanga De Rose, o bagulho parece uma seita.

Peguei a que dizia ser a yoga do alinhamento ósseo, acho que era esse meu caso. Mas fiquei bem cismado com a tântrica, deve ser um bacanal desenfreado, mas essa coisa de dar a bunda pro mestre em posição de lótus invertida não me convence.

Seis da manhã foi o horário que dava. De noite não presto, chego em casa podre e só quero sentar no sofá de perna aberta e comer macarrão da Mônica enquanto assisto Big Bang Teory. É meu ritual.

Botei o despertador pra cinco e meia e na hora de me vestir veio o drama: que roupa a gente usa numa aula de yoga, pijama? Alguma coisa que estique que seja confortável que não marque meu pinto envergonhado. Pijama mesmo, cinco horas da manhã ninguém é gente, o povo da yoga deve ser desapegado, ninguém ia perceber que dormi com a roupa do treino. Bati uma chepa de ovo frito, Frooty-loops com leite, duas rabanadas amanhecidas e uma cumbuca de café com bastante açúcar.

Energia pura.

Eu não podia imaginar que yoga se pratica em jejum. Cheguei lá, o povo tomando chá de gengibre e eu arrotando ovo. O Frooty-Loops se desentendeu com a rabanada, fermentou no café melado e deu ziriguidum na minha flora intestinal. Além de tudo tive que dar um cagão quântico no banheiro que cheirava Verbena, e quando saí ficou com cheiro de cozinha de boteco de quarta-feira em dia de rabada com mocotó. Nem preciso dizer: se alguém teve vontade de mijar no meio da aula, ficou passando vontade.

Só faltou a placa na porta: interditado.

A aula começou. O mestre foi claro, eram dez minutos de meditação para poder limpar a mente de problemas e pensamentos cotidianos e entrar nas posturas com consciência limpa.

Eu não sei meditar. Eu sei relaxar, e quando eu relaxo eu durmo. Então eu me deitei no colchão e meu relaxamento foi tão grande que meu intestino se sentiu em casa e o que era pra ser um pum silencioso, saiu no formato traque-metralhadora. Realiza o estouro. Minha vergonha foi tanta que adormeci, pra não dizer desmaiei, e só acordei depois de dez
minutos com meu próprio ronco. O povo deve ter ficado forimbundo porque é foda meditar quando tem um animal peidando e arrotando do seu lado. Duvido que alguém tenha ficado com a mente livre de pensamentos cabeludos, deviam estar me mandando pra putaqueopariu em mantras espirituais.

Daí começou a palhaçada.

Ninguém comentou que pra fazer posturas transcendentais eu tinha que ter feito um curso rápido de anatomia.

– alinhem sua coluna com o topo da cabeça.

Isso eu entendi. O que veio depois é que foi enigmático.

– Patelas pra dentro, alinhe o cóccix e sugue o períneo em direção ao umbigo.

Entendeu o drama?, primeiro eu não sei em que parte do corpo se encontra a patela, muito menos que eu podia sugar alguma coisa em direção ao umbigo. Daí eu fiquei que nem um retardado olhando pro pé tentando escutar uma voz divina que me dissesse que a patela estava por ali. O mestre andou plenamente até mim, o otário, e apontou a rótula. Eu não sabia que patela era a rótula, porque o iluminado não falou “rótula” de uma vez? A parte do “sugar o períneo” me deixou desconcertado, porque ao não tinha a mínima idéia de que o tal períneo era aquele espaço perdido entre o ânus e as bolas, e que sugar era a mesma coisa que fechar o olho do cú com força como se ele fosse subir pela barriga e sair pelo umbigo. Depois até fez sentido.

– alinhe a crista-ilíaca com a ponta do dedão do pé, dê espaço entre os dedos, deixe eles respirarem. Escápulas pra trás e externo pra dentro. Relaxe o pescoço, gire a tíbia, mantenha o músculo da coxa tencionado, a postura da arvore parece ser a postura mais fácil mas não é, exige uma consciência corporal intensa.

Percebe o drama da situação, a complicação que sujeito armou?

A postura era só ficar de pé que nem um poste e eu descubro que tenho uma crista, que não é na cabeça mas no quadril, que eu tenho o poder de girar minha tíbia, que dedos respiram e que eu não sei ficar de pé.

Foi muita realidade em dez minutos.

Nesse instante de desilusão total o yogue da minha frente, que suava em cachoeiras nem sei como porque ninguém sua pra ficar de pé, deu um giro cinematográfico pra alongar sei lá que parte e respingou gotículas nojentas de esforço em câmera lenta dentro da minha boca, que estava aberta desde que a aula começou, e dentro do meu olho, causando uma cegueira imediata. Fora a ânsia de vomito, o desequilíbrio seguido de uma vertigem um teto-preto e a costelada inevitável no chão.

Caí.

Que nem uma arvore quando é degolada por uma serra elétrica. Agora eu tinha entrado mesmo em sintonia com meu corpo. Por isso o nome cretino da postura,

Tadasana, a postura da arvore.

Foi o único instante que minha mente ficou vazia. Acho que eu tinha meditado pela primeira vez em toda minha vida.

Não agüentei o tranco da aula e pedi arrego na metade do primeiro tempo. Fui embora com as costelas dichavadas e um sensação de que minha escoliose tinha desandado de vez.

Cheguei no trabalho, e estapafúrdio sorriu desentendido ao me ver andar como uma múmia. Me parabenizou pela postura, pela concentração ao dar os passos, pela conscientização corporal que de um dia pra outro brotou junto com duas costelas trincadas.

Pois é.

A yoga mudou a minha vida.

marinafilizola

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