Transfobia e hashtags – Será que somos mesmo todos Verônica?

veronica

Por Larissa Lisboa

Uma onda de feeds no facebook me chama a atenção nesses últimos dias, e me deixa com certo incômodo pela comoção virtual tão honrosa e pacífica por uma causa nobre, a indignação popular à violência policial com uma travesti em São Paulo.

Talvez, a indignação popular se dê pelas imagens, que são chocantes e talvez façam com que nossos olhos se paralisem por alguns segundos e nossa voz se cale perante a uma imagem brutalmente violenta.  Mas que, depois de alguns segundos de paralisia, voltamos à nossa feed festiva, com vídeos de gatinhos e cachorros humanizados.

Verônica Bolina é só mais uma travesti para a estatística de violência no Brasil, que, aliás, é o país com o maior número de mortes de travestis e transexuais no mundo. Entretanto, talvez isso não seja o que mais me indigne nessa situação específica de violência. O problema maior, acredito, seja como a questão de Verônica é tratada pela sociedade.

Lembro-me do caso recente de Claudia Ferreira da Silva, a mulher que ficou conhecida como “a arrastada”. Claudia, moradora da favela da Congonha, no Rio de Janeiro, baleada pela Policia e que teve seu corpo arrastado por mais de 350 metros, no trajeto do morro ao hospital. Lembro-me que esse foi o primeiro caso em que vi no facebook a hashtag “#somos todos Claudia”.

Depois desse caso, muitas foram as notícias veiculadas na mídia que, consequentemente, fizeram surgir a célebre e complacente frase “#somos todos”. O incômodo que sinto por essa frase está justamente na sua contradição, afinal, ninguém pode ser o outro. E, enquanto todos falam pelo e como o outro, pergunto aqui: Esse outro tem voz? Ele fala por ele mesmo?

No caso específico de Cláudia, quais dos tantos amigos do facebook, que colocaram em suas feeds “#somos todos Claudia”, estão acompanhando, compartilhando e discutindo sobre o caso nas redes sociais? Se eles fossem realmente Claudia, não estariam mais preocupados com o andamento do caso?

Mas não estamos aqui falando de Claudia, mas sim de Verônica. E para refletirmos sobre este caso específico, gostaria que pensássemos sobre o porquê da violência com travestis e transexuais no Brasil.

Há alguns dias, um amigo me ligou muito abalado, dizendo que sofreu preconceito por ser gay dentro da lotação, perto de sua casa, em São Paulo. Um homem e uma mulher entraram, olharam para ele e começaram a gritar dentro do transporte frases como “viado tem que morrer” ou “onde já se viu homem fantasiado de mulher?”. Meu amigo, sentindo-se coagido, não apenas porque os dois estavam muito exaltados e o homem era grande e forte, mas também porque se encontrava sozinho na situação de violência, onde os olhares coercivos de todos o repudiavam, sentiu-se completamente hostilizado. Por isso, não fez nada, a não ser se calar e torcer para que chegasse logo a seu destino. Mas chegando, veio a revolta: “Por que me calei?”.

Ele havia me contado isso justamente na mesma semana em que, enquanto eu ia para o restaurante universitário da UFSCar almoçar, passou por mim um casal de homens de mãos dadas e, como passávamos em frente a um prédio em construção, com alguns trabalhadores que descansavam no horário de almoço, eles gritaram para que todos, inclusive o casal, pudessem ouvir:  “mas o que tá acontecendo no mundo, gente?” e “como pode dois homens de mãos dadas?”.

A violência de gênero está em todos os espaços. Ela está instaurada e, se não tivermos cuidado, será legitimada pela bancada conservadora do Congresso Nacional, com Eduardo Cunha, Marco Feliciano e Jair Bolsonaro nas figuras emblemáticas do retrocesso das conquistas políticas.

E questiono aqui, por que ser gay, ser travesti, ser transexual causa tanto repúdio na sociedade brasileira? Muitos são os questionamentos que encontramos, a maioria deles ligado ao tradicionalismo cristão da nossa sociedade, e dos atuais fundamentalismos que estimulam um discurso de ódio e violência.

Entretanto, não vemos quase nenhuma discussão a partir da questão da mulher. Verônica, agredida, violada e humilhada, as Verônicas do nosso país são também as representações da mulher no Brasil. Meu amigo, humilhado e hostilizado na lotação, só foi coagido porque considerado uma figura “afeminada”, um julgamento feito pelo casal apenas por visualizar nele a representação de uma mulher.

A discussão da violência de travestis e transexuais nos movimentos LGBT  encobre uma violência ainda mais arraigada na nossa sociedade brasileira, a violência contra a mulher. Quem nunca ouviu alguém dizer que “ser viado tudo bem, o problema é ser afeminino, ficar se vestindo de mulher”?

O grande problema na questão de Verônica tem a ver com o olhar sobre o outro. Reparem nas imagens que foram veiculadas, um rosto desfigurado por ter seios e um corpo feminino, afinal, se Verônica realmente cometeu um crime, por que fora agredida desta forma? Por que colocada com os seios á mostra? Por que suas calças foram rasgadas? O que um crime de homicídio tem a ver com a exposição de seu corpo?

Verônica foi violentada por ser mulher. No contexto atual em que os homens dizem se sentirem cada vez mais “coagidos” com as conquistas das mulheres, um sujeito anatomicamente masculino que ultrapassa essa questão reducionista, escolhendo pela autonomia consciente de dizer quem quer ser, jamais poderá ser aceito. Um homem que se torna uma mulher é a maior derrota ao masculinismo, ao machismo, afinal, como alguém decide ser passivo, frágil ou menor?

Nestes momentos nebulosos conjunturais em que os movimentos de resistência estão cada vez mais fragmentados, é preciso muito cuidado com discussões como essas. As reflexões sobre as Verônicas do Brasil não podem ser fixadas apenas à discussão do travesti ou do transexual, mas concatenadas com a discussão da mulher, afinal, se as mulheres fossem realmente respeitadas em nosso país, uma travesti e uma transexual seriam motivo de orgulho e não de depreciação.

Portanto, será que somos mesmo todos Verônica? Será que estamos realmente preocupados e atentos aos acontecimentos violentos do nosso país, ou apenas preocupados com o nosso narcisismo de uma feed floreada de acontecimentos efêmeros? Até quando vamos nos apropriar das situações de violências de povos marginalizados, enquanto silenciamos suas próprias vozes? Será mesmo que Gaytri Spivak estava certa, o subalterno não pode mesmo falar?

 

Um comentário sobre “Transfobia e hashtags – Será que somos mesmo todos Verônica?

  1. Achei seu artigo bem incoerente, principalmente no que se refere a ‘tal’ Verônica. Pelo que sei essa ‘moça’ , sob efeito de drogas, invadiu a casa de uma senhora de 73 anos e com uma bengala, provavelmente da idosa, quebrou todo a casa e a própria senhora. Parece que D. Laura foi salva por outra travesti e a ‘coitadinha’ da Verônica acabou sendo presa. Na cadeia ‘aprontou’ horrores, tendo comido a orelha do carcereiro e, em seguida, agredida por policiais. Estou esperando, até agora, a hashtag ‘somos todos Laura’.

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