Coluna 15: “Baseado”, por Lucimar Mutarelli

unnamed

Qual filme não é baseado numa história real?

Se a vida é a matéria de toda linguagem artística todas as expressões são fundamentadas em histórias reais

Não gosto de listar os filmes, músicas, autores e nada

Gosto de gostar, de amar, adorar ou odiar

Para que uma obra me encante, é preciso acreditar na verdade

Estudei com Marcelino Freire durante três anos e não passava uma aula em que ele não dissesse: Mente! Pode mentir! Desde que seja com verdade!

Toda obra de arte é uma mentira, Pablo Picasso popularizou o que os gregos já sabiam e até antes deles. Falo dos gregos porque é até onde minha mente consegue chegar no passado

Esta semana, minha amiga Adriana Andrade compartilhou um teste “quem é você em Sex and the city”. Sou fascinada por testes e provas e jogos desde a infância. A escola era meu paraíso. Meu marido, filho, sobrinhos e amigos compartilham dessa admiração e sempre jogam comigo. Mas o que eu queria dizer é que nós somos todas as personagens de qualquer série, de qualquer filme, de qualquer obra de ficção. Pelo menos uma parte da gente é

É muito óbvio: toda ficção é baseada na observação do outro. Mesmo que o outro esteja dentro de você

Sempre achei que Vitrúvio chegou a conclusão de que é o homem a medida de todas as coisas. O Google me corrige e ensina que foi Protágoras e o querido Da Vinci resgatou e tornou popular a visão antropocêntrica. É nóis no centro da bagaça toda. De antropocêntrico para egocêntrico

Não sou fã de ficção científica ou de seres imaginários. Mesmo que eu reconheça a base da criação humana, prefiro dramas cotidianos e catárticos

Não gostando de listas, seguem exemplos para tentar ilustrar:

Rodrigo Garcia é um cineasta colombiano. É dele “Coisas que você pode dizer só de olhar para ela” e “Destinos ligados”

Miranda July também sabe fazer isso muito bem. “Eu, você e todos nós” é muito do que eu amo num filme. Porque fala de mim, me toca, me representa

E “Felicidade” do Todd Solondz

Meus mestres amigos e companheiros nos dias impossíveis de viver de verdade

No processo de criação do meu romance “Só aos domingos”, exatamente dedicado para Rodrigo Garcia, aparecem cinco mulheres: Pele, Lucia, Bete, Levine e Alezandra. Parti dos sete pecados para estruturar as personalidades, signos, cores, arquétipos, numerologia e horóscopo. Dei uma volta gigantesca para, pouco antes, de chegar ao final me reconhecer em cada uma delas

Da mesma maneira que me identifico com cada uma das meninas de Sex and the city, nas mulheres de Rodrigo Garcia e Miranda July. No caso da Miranda July, me reconheço até nos papeis masculinos

Foi numa aula sobre o Impressionismo que parei de acreditar na crítica especializada. Escolho um filme pelo trailer, ator, tema ou diretor

A crítica é uma visão particular da obra. Todos os meus amigos saem em defesa dos críticos: é uma opinião diferenciada, de alguém que conhece mais aquele tema do que a gente que não estudou. Tá certo, concordo

Passo fita crepe na boca e tento ficar quieta. Carinha amarela com olhos e nariz, sem boca

Resisto

Mas sempre será a visão dele durante a apreciação. Como que ele desliga quem ele é durante o filme (pode ser também exposição ou peça de teatro) e analisa somente de acordo com o que ele sabe?

Eu não confio. Há muito tempo que vejo com ódio as estrelas classificando uma produção artística. O que importa mesmo é a sua opinião. É a sua fruição da história ou conceito ali, representado

Para chegar na abstração das linhas horizontais e verticais, Mondrian partiu de uma árvore. Milhões de anos antes dele, os povos pré-históricos, denominados assim por outros conhecedores, se debruçavam sobre a observação da natureza e dos outros parceiros para contar as histórias de caçadas ou de um dia nublado ou ensolarado na parede de sua caverna

Nossas histórias são transportadas pelo nosso sangue. Apaixonada e hipnotizada em uma palestra de Lourenço Mutarelli, ele descreveu como tenta acessar seus ancestrais através do seu DNA. E demonstrou isso fisicamente. Vibrando com seu corpo todo

A cada texto embaralho as letras para que seja diferente dos outros, único na minha emoção e a cada final me encontro com tanto que já foi dito e que já foi feito e, assim mesmo, continuamos, seguimos, tentando fugir dos estereótipos e sempre reencontrando o todo

Comunhão artística. Encontro com os santos nos quais eu acredito. Deuses do cinema, da música, do cinema, teatro, literatura e todas as formas de expressão únicas e individuais. Partes de um todo

Todos iguais tentando ser diferentes

Fortes humanos

Fortalezas construídas onde a gente corre para se abrigar sempre que o mundo real está impossível ou chato demais para se viver

Passei a vida de professora tentando responder aos alunos, colegas e pra mim, qual é a função da Arte e, uma das conclusões é: para nos proteger e fazer companhia enquanto esperamos a tempestade passar

E se é Arte com maiúscula ou minúscula, isso é tudo bobagem

Há muito parei de acreditar em arte maior ou menor. Não concordo com a briga do erudito e do popular. Livro bom e livro ruim. O que importa é se serve para você. Marcelo Coelho num momento de lucidez extrema determinou que todo livro é de auto ajuda e toda obra de arte também é. Ajuda quem dá e ajuda quem recebe

Importa se você recebe de verdade uma mentira bem contada, se ela te conforta, se aquece o coração e te ajuda a passar o tempo de uma maneira mais confortável

Os tempos contemporâneos são os mais bonitos porque são aqueles em que nós estamos aqui

Sendo assim pode assistir novela, Big Brother, filme novo, besteirol, clássico francês ou italiano, filme de ação, de amor, de chorar, de rir, de ver com amigo, de ver sozinho, de comer pipoca, filme de mandar o outro calar a boca enquanto você chora, comédia romântica ou não, besteirol, infantil, debiloide, é verdade, eu juro

Nos dias de hoje você pode ver o que quiser e gostar

Não liga para a crítica especializada e não liga para esse texto também

Liga para fazer o bem para você e para quem está próximo a você

Baseado em fatos reais

Egocentrismo usado para cuidar do outro e, no fundo, a gente está cuidando da gente.

lucimar-mutarelli

Confira os textos anteriores da autora: Coluna 1Coluna 2Coluna 3Coluna 4Coluna 5Coluna 6Coluna 7Coluna 8, Coluna 9, Coluna 10, Coluna 11,Coluna 12, Coluna 13, Coluna 14.

3 comentários sobre “Coluna 15: “Baseado”, por Lucimar Mutarelli

  1. Pingback: Coluna 16: “Adágio”, por Lucimar Mutarelli | Livre Opinião - Ideias em Debate

  2. Pingback: Coluna 17: Cada um no seu quadrado, por Lucimar Mutarelli | Livre Opinião - Ideias em Debate

  3. Pingback: Coluna 18: “Vila Itaim”, por Lucimar Mutarelli | Livre Opinião - Ideias em Debate

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s