CAVIAR COM COCAÍNA: “A Prótese”, de Marina Filizola

unnamed (2)Chegou no escritório do cirurgião decidida: hoje ia comprar tetas novas.

Desceu do carro elegante, salto-alto desestruturado, batom vermelho Mamãe-me-arranha,
calça extra-justa peidou-rasgou, blusa solta sem sutiã. Olhou magnânima para o porteiro,
identificou seu nome em letras garrafais segura de que o coitado sabia que ela ia comprar próteses. Que sua muchiba estava com os dias contados. Que ela tinha juntado dinheiro suado durante dois longos anos depois de ter decidido convicta que queria air-Bags.

Esse era o papo da fulana:

– Cansei, cansei de ter dois tabletes de músculo no front-side, passei trinta anos sem peito agora vou passar os próximos trinta com um par novo em folhas, vou comprar sutiã Meia-taça, com bojo, de renda, usar decote ousado, biquíni tomara-que-caia. Essa coisa de vestir camiseta no pêlo já tá me deixando injuriada. Nego fala que não precisa, mas na hora que o parque de diversão é instalado esquece tudo. Cai de boca na borracha. É tudo papo-furado de marido comportado, recalque de come-quieto, que passa na banca e fica pasmando na revista playboy. E na hora do coito o sujeito tenta balançar os peitinhos miúdos a todo custo, e é só pelanca pra todo lado, deus me livre.

A opinião das amigas era de uma diversidade, de uma lucidez, uma encheção de saco
desgraçada.

Quase todas tinham bolas frontais. Mas nem todas estavam de acordo com a decisão da fulana. Ficava fácil pra quengaiada ficar colocando areia no processo. Mas ela não queria saber, apesar dos comentários serem, as vezes, bastante concretos.

– ele te atrapalha? Não né? Quer fazer cirurgia compra um braço extra, mas deixa suas tetas fora disso. Dói pra caramba, o pôs operatório é pior do que o do parto, tem que mijar no bidê por duas semanas, lavar cabelo nem pensar, dormir de barriga pra cima um mês pra não desandar com o transplante, você dorme de bruço?, porque não vai poder mais viu, pensa bem. E depois que pode, fica estranho pra dedéu, é um troço que não faz parte, incomoda pra se ajeitar, atrapalha pra treinar, no ar-condicionado o silicone fica gelado, vai vendo…E olha a sua postura, mulher elegante é assim, chapada, tudo veste tudo cabe tudo sobra, um sonho.

Certo dia foram todas num almoço. E o papo foi esse: tetas. Ter ou não tê-las? Imagina a canja. Oito mulheres discutindo tamanho. Formato. Cicatriz. Mililitros. Foi de dizimar

apetite de gordo. A coitada viu peito de tudo quanto é jeito, a cada cinco minutos vinha
uma e..

– vem ver o meu!

E lá ia ela de novo pro banheiro. Os garçons deviam estar desacreditando na situação, era o sonho de consumo de qualquer homem.

– pega, aperta, espreme, ficou lindo né?, nem parece comprado, se eu soubesse tinha
colocado mais, nem da pra ver a cicatriz, dá? Não dá, tô falando, parece que nasci com eles.

Mulher é bicho estranho, quem tem tira, quem não tem coloca. Se o cabelo é enrolado alisa, se é liso quer volume. Se esta casada é infeliz, se esta solteira fica depressiva. Caça homem no tapa. No thinder. Acua pai solteiro na porta da
escolinha. Mulher não tem meio termo.

A não ser aquela que ela não sabia o nome. Mas se estava na mesa, fazia parte do time.
A última exemplar de seios naturais sobrevivente, e defendia sua tese em pró de
muchibas originais a todo custo. A fulana era irredutível. Tinha lá seus argumentos:

– não ponho mesmo, até fui no medico na intenção de marcar cirurgia, mas o doutor me desencorajou, disse que os meus eram rígidos sedosos e bem colocados, acho que até ficou com tesão, ou ele tinha um pinto gigante que o volume era desconcertante e chamou minha atenção. Daí desisti. E foi a melhor coisa que eu fiz na vida minha filha, não me arrependo mesmo. Escuta bem o que eu vou dizer, peito natural é coisa rara no mercado, R A R A. Outro dia saí com um molambento que nem vem ao caso detalhar quem é, tá bom, eu admito, era o medico do pênis anaconda sim, e daí?, mas o sujeito delirou porque eu era natural, disse que a pegada é outra, a pele fica diferente. E tem mais: tenho saído de casa sem sutiã, os tarados de plantão ficam babando nos bichinhos soltos ao vento, marcando a blusa branca discretos, homem olha mais pra mim que pra minha irmã que tem dois balões infláveis, pode acreditar, a moda agora é teta miúda, se atualiza, tá indo contra a maré.

A maioria estava plenamente satisfeita com a aquisição. Inclusive, quase todas teriam
colocado mais se soubessem como era gratificante o poder dos mamilos.

Aquela que tirou o excesso tentou se pronunciar. Mas essa não conta. Ela não queria ouvir o depoimento de quem nasceu abonada. Queria ouvir o blablabla de quem não passou na fila da teta.

Teve a que mais lhe chamou atenção. Essa tinha colocado a prótese por motivos óbvios:
mãe de gêmeos.

Não tem peitola que resista a gêmeos. Dois chupando repuxando mastigando, a natureza não perdoa.
A lei da gravidade é severa com mães de múltiplos.
E foi essa figura que deixou a novata preocupada. Porque a negação dela era pontuada:

– não põe, vai se arrepender! Depois não diz que eu não avisei.

– não, mas eu quero mesmo, nunca quis, juro, mas a maternidade mudou minha concepção, fiquei com o maior peitão, eu adorei a experiência, vou por sim, pára de jogar praga desgramada, decisão já tá tomada.

– não põe sua anta, vai se arrepender, escuta o que estou te falando.

– porra, mas você pagou pra ver. Tá aí me exuzando mas recauchutou o playground né?

– foi a pior cagada que eu fiz. Serio. Mas não tive escolha. Paguei meus pecados. Humanos não deveriam ter mais de um filhote, mais de um é pra coelho cachorro sapo. O corpo da mulher não tem essa elasticidade. Imagina o estado da pessoa depois de amamentar dois durante um ano. Não sobrou nada, a pelanca chegava no umbigo. Daí deu nisso. Agora não posso mais dormir de bruço, tem um negocio entre eu e o lençol. E eu amo dormir de bruços. Agora não rola mais, tem uma lombada em baixo de mim. Outra coisa: uma merda pra treinar, eu me enrolo nas tetas, tem que usar um top de compressão master senão a bola bate na cara. Uma bosta. De verdade. Fora que nenhuma roupa fica elegante, olha essa foto!, tá vendo?, pelo amor de deus, olha pra isso e vê se tem cabimento, que coisa horrorosa.

O desanimo deu uma pontada nas certezas da decidida, não tinha como negar. Ela esqueceu do resto da mesa e se posicionou frente a frente com a empata-foda, estava ficando contaminada por toda aquela negativa que a insatisfeita rogava sobre ela. Claro que a insatisfeita foi se apercebendo de sua vitoria, aos poucos a decidida estava retrocedendo na sua decisão. Foi então que a figura resolveu tirar sua ultima carta da manga, a carta que decidia o jogo.

– vem comigo no banheiro, vou te mostrar uma coisa.

Pelo tom misterioso, pelo olho esbugalhado, pelo silêncio mortal até a porta do banheiro, ela pressentiu que veria coisa ruim. Mulher é um bicho previsível quando quer jogar areia em assunto de comadre.

– lá vem bomba.

Trancou a porta.

– eu vou te mostrar. Presta bem atenção.

A única palavra que ela conseguiu soltar foi:

– p u t a q u e o p a r i u ! !

– pois é. Então pensa direito na sua decisão. Depois que fez, já era.

Saiu do banheiro em estado de choque.

Já era hora de ir para o medico.

Juntou sua tralha, seus panos de bunda, agradeceu ao cardápio eclético de peitos de
tudo quanto é jeito, e partiu.

Não queria pensar na sua ultima visão.
Era uma exceção, só podia ser.

Porque foram seis peitos quase naturais pra um desandado. Ela não ia se abater, não ia voltar atras. Era dia de consulta, dois anos esperando a porcaria da consulta e aquela azarada lhe deu um tapa de realidade no meio da fuça. Não era justo. Acreditou que aquilo era um caso raro. Raríssimo.

Agora ela se encontrava de frente ao cirurgião, e era a hora de tirar todas as suas duvidas. De uma vez por todas.

– ô Doutor, me explica uma coisa: qual a chance de dar errado?

– como assim errado?, é uma cirurgia, em toda cirurgia existe uma pequena porcentagem, um risco de não ocorrer dentro do padrão, é normal.

– Sei. Mas me diz a verdade. Quantas pacientes suas fizeram parte dessa pequena porcentagem, pelo amor de Deus, me elucida da confusão que eu estou me embrenhando. Porque se o senhor me disser que de cem pacientes suas, quarenta e cinco se fuderam de verde e amarelo, eu tô fora. Serio.

– primeiro as primeiras coisas, vamos por partes. Deixa eu te acalmar pra começo de conversa: tenho vinte anos de profissão e apenas uma paciente me deu problema, mas no caso, ela resolveu treinar peito depois de duas semanas da cirurgia porque se sentia muito bem, e então, obvio, o negocio estourou pra tudo quanto é lado. Segundo: vejo que você é nova e esta bem decidida. Você tem uma altura acima do padrão, costas largas, e se tem alguma duvida em colocar eu te digo: coloque. Vai ficar lindo. O seu corpo comporta. Pelos meus cálculos de 280 a 325 mililitros, vai cair em você como uma luva. O problema é a mulherada que tem meio palmo de altura e quer colocar um litro. Aí já viu. Fica estranho, vulgar, feio mesmo, porque de cara se percebe que é artificial. Vamos decidir junto o formato que encaixa melhor no seu corpo: pêra gota bolinha ovo-frito ovo de Páscoa. E digo mais. Se lá na partes baixas estiver sobrando pele, a gente já corta fora. Vamos aproveitar que estou de bisturi na mão.

Ela gostou do moço. Da firmeza nas palavras. Da pontualidade com relação ao pós operatório. Do discernimento ao esclarecer duvidas. Das mãos. Do sorriso. Do volume
nada discreto da braguilha. E do detalhe íntimo das partes baixas. Ela tinha que olhar
direito quando chegasse em casa, mas parecia dentro do padrão.

– Então o senhor esta me dizendo que as chances do peito ficar vesgo são mínimas, que as chances do brinquedo ficar com cicatriz saindo pelo ladrão parecendo rosto de presidiário é nula. Certo?

– certo, as cicatrizes são mínimas. Eu não sou açougueiro. Cada cliente minha é uma porta para mais dezenas de clientes. E essa coisa de peito que fica parecendo que foi atropelado, daqueles que a gente olha e quer fechar o olho, acontece quando o peito original esta num estado lamentável. Caído até a costela. Porque antes de preencher tem que selar, e nem queira saber o que é isso. Ou quando se quer diminuir a aureola e dai é trabalho dobrado porque tem que recortar essa parte fora e recolocar no lugar. É cicatriz pra todo lado mesmo. Não sei onde você viu isso nem quero saber, mas apaga essa imagem terrorosa da cabeça. Eu sei que é difícil, mas tenta. O seu procedimento será um sucesso. Coloco minha mão no fogo.

Fechou a data.

Abriu um sorriso de satisfação que a acompanhou até em casa.

Em casa tomou providencias circunstanciais: se excluiu do grupo do Whataspp “tetas porque tê-las”.

Não dava pra viver na sombra da catástrofe dos outros.

marinafilizola

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