CAVIAR COM COCAÍNA: “Sonho 3019”, por Marina Filizola

unnamedEra um quarto sem porta. Pequeno, mas minha cabeça era um campo de Marte, então não importa. Não achava nada, não sabia o que eu estava procurando, mas não achava.

Ele apareceu no meio do quarto parecia um demônio: todo-estraquinado, olho esbugalhado, roupa escangalhada, nariz branco, a boca com baba seca.

Eu reconheci.

Era do grupo.

Uma daqueles que não fica limpo nem a paulada. Que vive uma vida do inferno. Que tem muito dinheiro e nenhuma de força de vontade.

Chamava ele de Hillary.
(a tal da Hillary – uma história que eu tinha ouvido de um travesti que apareceu pra dar bom dia pra família dele. Achei o nome Hilário, de traveco pistoludo, mas não vem ao caso. História muito cabulosa. Se eu fiquei impressionada, imagina a dimensão)

– vamos pra Las Vegas.

– Como Hillary?

A voz dele rouca. De festa a três dias. De manguaça no hotel Califa. De quem fechou o

Love History.

Minhas frases não saíam pela boca. Eram pensamentos no formato Quentin Tarantino.

Saiam em balõezinhos tipo gibi da Marvel.

Me pegou pela mão, na outra uma lata de Vodca. Não era smirnoff. Era Vodca pura.

Existe lata de Vodca pura em sonho. Só podia ser sonho mesmo.

Me ofereceu. Lógico.

– qué?

– não. (eu não falei mas pensei e também pensei que queria um gole)

De repente já estávamos no conversível do pai dele. Um Rolls Royce. Ou um Cadillac. Ou

um Opala envenenado. Não entendo de carro.

Racionais numa batida eletrônica violenta vento na cara e farinha voando. O filha da puta batia carreiras com o carro a milhão. Coisa de rico. Parecia neve. Parecia Nova York.
– quer?

Meu balãozinho do “não” voou pela janela. Fiquei olhando pendurada pra fora do carro pra ver até onde ele ia. Se era um “não” resistente.

O tempo todo meu telefone no bolso.

E eu a um fio pra ligar pro meu namorado. O meu Poder-Superior. O meu He-Man. Pode escolher.

Liguei. O vento de farinha na cara, racionais se esgoelando no refrão marcante:

“..E eu que me julguei forte
E eu que me senti
Serei um fraco quando outras dela vir
Se o barato é louco e o processo é lento
No momento
Deixa eu caminhar contra o vento..”

Joguei fora meu cd.

– que porra de música é essa, onde se tá, putaqueopariu você recaiu?!

– Sei lá, O Hillary me arrastou pro arrebento. Pega a 45 e enfia na boca dele!

Todos balõezinhos ao vento.

Chegamos num avião, e o pai dele tinha avião, e tinha um motorista usando Ray Ban espelhado e mascando bubaloo, e lá íamos nós o vento nevando e a gente se pendurando que nem criança no putaqueopariu do avião (avião tem putaqueopariu?) e o motorista fazia balões com a goma de mascar.

-essa merda vai cairrrrrrrrrrr….

Voou pra trás o balão. Entrou na turbina. Os pedacinhos ao vento viraram uma chuva de sangue.

Metade do avião era aberto.

Avião conversível.

Dava pra pegar as nuvens.

Batiam na fuça do Hillary, ele cheirava as nuvens.

Enfiei duas nuvens no bolso. Eram nuvens de chuva. Meu bolso pingava.

Enfim Las Vegas Ou Los Angeles, sei lá, só sei que tinha L no meio.

Um cassino enorme muita luz colorida e uma mesa de Poker que andava sozinha pelo

salão, pernas de cinta-liga vermelha. Todo mundo apostava correndo atras da mesa.

O Hillary apostou o Rolls Royce (o Cadillac o Opala) e o avião pela metade. O cabelo dele parecia que tinha giz em cima mas não era giz.

– quer um gole?

Corno.

Nego na ativa é uma raça ruim.

As luzes apagaram e acendeu a luz halógena que cega baladeiro. Era a ala psiquiátrica de algum hospital. Era frio e espaçoso e tinham faixas de amarrar maluco penduradas no teto.

Apareceu o pai do Hillary de terno e charuto na boca, batendo a pontinha do sapato DockSide no chão, as mão na cintura, meu Poder Superior com o Canela-seca apontado pro alto, cuspindo bala sem dó.

– cheguei. Interna o Hillary. Ele passou do limite.

– porra, vai me internar justo hoje, no Natal? No Natal nãaaaaaao…

Cabelo branco rosto branco, ele era o Noel.
(e o saco de brinquedo forrado de farinha)

Balõezinhos no ar.

marinafilizola

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