OSSOS DO OFÍDIO: “Ariano Colombiano”, por Marcelino Freire

Detalhe do estande do Brasil, que fez homenagem a Ariano Suassuna na Feira Internacional do Livro de Bogotá

Detalhe do estande do Brasil, que faz homenagem a Ariano Suassuna na Feira Internacional do Livro de Bogotá

 

Sim, Ariano Suassuna veio parar na Colômbia.
É a cara dele que dá as boas-vindas na entrada do estande do Brasil. Dentro da FILBO, Feira Internacional do Livro de Bogotá.

Pernambuco é o estado homenageado. Temático. O estado que Ariano, paraibano, escolheu para viver. Quando adotou o Recife. Eu também adotei o Recife, vindo de Sertânia.

Aliás, Sertânia fica na Colômbia.

O trio de autores que circulou por aqui tinha incrivelmente um pé em Sertânia: eu, nascido lá. Sidney Nicéas é quase dono da chave sertaneja da cidade. E o escritor colombiano Carlos Enrique Sierra Mejía, que nos fez sala local, é casado com uma sertaniense. Pasmem! Atualmente, ele vive entre Medellín e Sertânia.

Prova de que Sertânia existe.

Mas poucos deram bola. Digo: lá na Feira. Exceto alguns leitores que Nicéas catou pela gola, poucos foram os que foram. Ao debate principal. Sempre digo: falamos para quem vem. E veio, por exemplo, a escritora equatoriana Gabriela Alemán. Conhecida por essas bandas. Autora do romance, situado entre o fantástico e o real, intitulado “Poso Wells”. E o jovem, também equatoriano, Galo Esteban Peréz. Ele, de 24 anos, tem em Quito um coletivo literário. E publica, a duras batalhas, a revista “El Monociclo”.

Como eu gosto de sair da rota dos discursos!
Meu Cristo!
E saio, sempre que posso.

Adorei, por exemplo, quando a Embaixada me pôs a viajar para o interior. Estive na Universidade Del Valle, na cidade de Cali, a 40 minutos de avião.

Universidade que ensina teatro, artes plásticas, cinema. E pulsa de boa-vontade.

Que papo animado!

Professores e alunos haviam lido os meus contos, via internet. E assistido a meus vídeos. E discutido o romance “Nossos Ossos”, na versão traduzida por Cristian De Nápoli para a editora argentina Adriana Hidalgo. Só elogios à tradução. Disseram do ritmo. Da reza, ladainha. Da musicalidade. Na terra da salsa. E negra. Cali é uma das cidades mais dançantes. E mais negras da América Latina. 55% da população é pura melanina.

Salve e salve e saravá!

Mas voltemos a Bogotá.

Heróis esses educadores que ensinam português. No IBRACO, na Universidades dos Andes. Uma vez, na primeira viagem em que estive em Bogotá, em 2003, fui à Universidade Javeriana. E já naquele tempo estudaram os contos do meu segundo livro, “BaléRalé”. Essa vontade de conhecer, de falar, de se entrosar. Gente que abre o coração da palavra para nos receber.

Eu também, modéstia à parte, tenho a alma destravada. Quando viajo a essas feiras e festas, no Brasil e fora do Brasil, gosto do contato inusitado. De saber quem anda aprontando no pedaço. Soltando o verbo.

A FILBO, este ano, homenageia as mulheres (a Feira vai até o dia 4 de maio). E, das mulheres em cena, quem está chamando a atenção é a dominicana Rita Indiana. Também cantora e compositora. Autora dos cultuados romances “Nombres y Animales” e “Papi”, é famosa, em seu país, como “a cara da homossexualidade no Caribe”. Ativista sexual, “andrógina”, e ainda, responsável por uma feroz reinvenção do merengue, misturando a esse gênero clássico a música eletrônica e o hip hop.

Já estou de olho nela.

E de olho nos pintores colombianos. Como tem pintura boa por essas bandas. Conheci dois deles: Cristo Hoyos. E o impressionante Abel Rodríguez. Explico: gente simples, retirantes urbanos, retratados aos olhos de Cristo. Árvores e sombras sob as árvores estão nas pinceladas de Rodríguez.

Cores, cores.

Vivas cores que faltam à cidade de Bogotá. Cercada por ricas montanhas, a cidade ferve entre nuvens de fumaça. Trânsito de carros deixando tudo acinzentado. E entre nuvens assim, de fato. Formando um céu, ao longe, nascido de um sonho, espetacular. Bogotá é uma bruma. Cobertura, de gás e ideias e pulsações, permanente sobre nossas cabeças.

Andei até escrevendo, ora veja, um conto novinho em folha.

Parei o fluxo do conto para escrever este artigo para o LO. No improviso. Desarmorial, ao que parece.

Perdão, se perdido.
O que o mestre Ariano acharia disto?

 

marcelinofreire

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