Em entrevista, o escritor Wilson Alves-Bezerra conversa sobre o livro “Histórias Zoófilas e Outras Atrocidades”

 

IMG_6616A.JPG © Mari Ignatios

O escritor Wilson Alves-Bezerra

Desde a primeira morte que presenciou, sabia que todos iam acabar frios e inertes, e que não falariam mais. Deus passou a ser o atirador escondido entre as pedras, detrás dos muros, ou na janela em frente. Morrer era calar. (Conto: Abismo, p. 135, Histórias Zoófilas e Outras Atrocidades)

Em seu primeiro livro de contos, intitulado Histórias Zoófilas e Outras Atrocidades (EDUFSCar / Oitava Rima, 2013), Wilson Alves-Bezerra explora o “abismo” mais íntimo de seus personagens. A obra reúne 19 contos divididos em quatro partes e é um convite ao leitor para diversos enredos muito bem construídos.

Doutor em literatura comparada pela UERJ e mestre em literatura hispano-americana pela USP, onde também se graduou, Wilson é autor dos seguintes ensaios: Reverberações da fronteira em Horacio Quiroga (Humanitas/FAPESP, 2008) e Da clínica do desejo a sua escrita (Mercado de Letras/FAPESP, 2012). Traduziu autores latino-americanos como Horacio Quiroga (Contos da Selva, Cartas de um caçador, Contos de amor de loucura e de morte, todos pela Iluminuras) e Luis Gusmán (Pele e Osso, Os Outros, Hotel Éden,  ambos pela Iluminuras). É professor de Departamento de Letras da UFSCar, onde atua na graduação e no mestrado. Sua tradução de Pele e Osso, de Luis Gusmán, foi finalista do Prêmio Jabuti 2010, na categoria Melhor tradução literária espanhol-português. Como resenhista, atualmente colabora com O Estado de S. Paulo, O Globo, El Universal (México) e Los inútiles (de siempre) (Argentina).

Em entrevista para o Livre Opinião – Ideias em Debate, Wilson comentou sobre a criação de Histórias Zoófilas e Outras Atrocidades: “Este é meu primeiro livro de contos. Minha produção em livro até aqui consiste em ensaios acadêmicos, traduções literárias, livros didáticos de espanhol etc. Para chegar a esta estreia literária, aguardei um período de maturação literária relativamente longo”. Inclusive, falou sobre a importância do gênero conto na Literatura: “Para quem não considera o conto como grande literatura, cabe considerar três autores, que se dedicaram com maestria ao conto (alguns exclusivamente a ele): Edgar Allan Poe, Horacio Quiroga e Jorge Luis Borges”.

Crítico literário e docente acadêmico, Wilson explicou sobre a decisão de entrar no ramo da ficção: “A literatura vem bem antes da crítica, nas histórias lidas na infância, nas fábulas inventadas por uma criança que ainda não sabia nem escrever. Ser escritor foi uma decisão primeira que antecedeu a escolhas acadêmicas e os ofícios de crítico, professor e tradutor”. Confira a entrevista na íntegra:

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Capa do livro “Histórias Zoófilas e Outras Atrocidades”

Conte-nos um pouco da criação de Histórias Zoófilas e Outras Atrocidades? Por que escolheu essa temática?

Wilson Alves-Bezerra – Este é meu primeiro livro de contos. Minha produção em livro até aqui consiste em ensaios acadêmicos, traduções literárias, livros didáticos de espanhol etc. Para chegar a esta estreia literária, aguardei um período de maturação literária relativamente longo. No livro, há contos de mais de dez anos de idade. Portanto, no caso das Histórias zoófilas a escrita dos textos antecedeu o projeto do livro. Só quando comecei uma releitura sistemática, com vistas a produzir um livro, foi que entendi que havia um conjunto significativo de contos que ia na direção deste flerte com a selvageria, nos mais diversos níveis, que veio a dar origem ao título, a partir do qual organizei o projeto. Só então é que fiz a seleção de textos e escrevi alguns outros relatos, até ter a versão que os leitores tem em mãos agora. O que me chama a atenção neste processo todo é o quanto o tempo da literatura é particular; e também o quanto seria possível continuar mexendo nestes textos, sem publicá-los nunca. A publicação é também um “basta!”.

No Brasil há diversos contistas, com obras e carreiras consagradas. Porém, muitos não encaram este gênero como “grandioso” na literatura. O livro “Histórias…” sempre foi pensado na construção de contos? E como você avalia o gênero.

O conto é um gênero interessantíssimo, tanto para o leitor quanto para o escritor. Só é menor no tamanho mesmo. Além da intensidade e brevidade pressupostas no conto, também a possibilidade da experiência concentrada – para autores e leitores – precisa sempre ser aproveitada. Para quem não considera o conto como grande literatura, cabe considerar três autores, que se dedicaram com maestria ao conto (alguns exclusivamente a ele): Edgar Allan Poe, Horacio Quiroga e Jorge Luis Borges. Difícil falar que o conto não seja um gênero relevante depois de enfrentar a obra destes três escritores. Contos como “Pierre Menard, autor do Quixote”, de Borges e “O poço e o pêndulo”, de Poe, e “À deriva”, de Quiroga, relatam histórias com formas e registros absolutamente diversos e, ainda assim, pertencem ao mesmo gênero. O conto é uma forma inesgotável.

Quais foram as influências para a sua escrita? E, com o livro, você já encontrou um estilo próprio ou prefere sempre a experimentação?

Sobre as influências, podemos começar falando dos contistas do século dezenove: Poe e Tchékhov, ambos exploram de modo bem diverso, as situações-limite das personagens; na literatura do começo do século vinte, os meus grandes contistas são o uruguaio Horacio Quiroga (de quem sou tradutor e sobre quem escrevi meu mestrado), o norte-americano Hemingway, para quem os animais (do gato na chuva de Hemingway aos dinossauros inexistentes de Quiroga) são fundamentais; depois vem o fantástico de Cortázar e os delírios matemáticos de Jorge Luis Borges. Estas são influências fortes de contistas.

As Histórias zoófilas trazem a marca da diversidade, inclusive por conta do longo período em que foram escritas e gestadas. O estilo de um autor se renova em diversas fases e de acordo com os projetos de livro que esteja enfrentando. Este tipo de pergunta, é melhor que o leitor responda.

Em alguns contos podemos interpretar os personagens são levados ao limite da conduta, levando-os até a uma prática brutal. Podemos também apontar a “zoofilia” do ser humano em uma transa entre racional e irracional, sendo este o animal. Como o escritor Wilson encara essa conduta humana para a construção dos contos?

Sigmund Freud, num texto fundamental, O Mal estar na Cultura, já indicou o caminho com maestria: vivemos na cultura ao preço de renunciar a pulsões primitivas, agressivas e sexuais. A cultura é uma construção em torno a este pacto social. As Histórias zoófilas mostram as brechas por onde a selvageria irrompe, nos mais diversos campos. É possível considerar o livro como variações sobre o tema da animalidade entre os humanos bem comportados.

Com formação acadêmica e crítico literário, como foi a decisão de entrar na ficção? Quais são as influências literárias na sua vida? E, sendo crítico literário, foi difícil trabalhar na escrita? O Wilson é um crítico literário do próprio trabalho na ficção?

A literatura vem bem antes da crítica, nas histórias lidas na infância, nas fábulas inventadas por uma criança que ainda não sabia nem escrever. Ser escritor foi uma decisão primeira que antecedeu a escolhas acadêmicas e os ofícios de crítico, professor e tradutor. Gostei de você separar, em perguntas diferentes, as influências literárias das Histórias Zoófilas das “influências literárias na vida”. Acredito que o francês Julio Verne foi o primeiro escritor por quem tive admiração, numa coleção da Abril Cultural, que lia na biblioteca da escola, lá pelos 12 anos de idade. Toda aquela literatura de aventuras que nos anos setenta e oitenta era considerada adequada para a formação dos jovens teve impacto sobre mim: Vinte mil léguas submarinas, Viagem ao centro da Terra, da Terra à Lua, todos do Julio Verne, foram minha iniciação. Também os Irmãos Corsos, do Dumas, o Tarzã dos Macacos, do Daniel Defoe, o Huck Finn, do Mark Twain, entre otros. Depois veio a Clarice Lispector, já na adolescência, os hispano-americanos na faculdade de Letras, o James Joyce algum tempo depois, para citar alguns dos principais e transformadores.

Sobre a pergunta final, sou sim crítico da minha obra, durante a escrita e nos sucessivos momentos de releituras, mas certamente não detenho a verdade sobre o que escrevo, e procuro dar apenas algumas chaves de entradas para meus textos, como fiz nesta entrevista. Sobre ser crítico e escritor, diria: todo escritor precisa de auto-crítica.

Você acompanha os novos contistas brasileiros e no exterior? Citaria alguns?

Tenho resenhado parte do que tem se produzido no nosso continente pelos jornais desde 2009. Há muita gente escrevendo e publicando. Recomendo aos leitores que leiam as antologias que tem saído de literatura latino-americana. Pode ser uma garimpagem interessante. Citar um ou outro nome implicaria ser parcial em meio a uma multidão de novos escritores, cuja avaliação demandaria mais tempo e  livros publicados.

Wilson, o site chama-se Livre Opinião – Ideias em Debate, ou seja, este final da entrevista é um espaço livre para o artista desabafar, criticar ou colocar em debate uma ideia. Tem algo a dizer?

Quero deixar registrada uma inquietação aos leitores do Livre Opinião: quantos de nós, em 2015, estamos dispostos a pagar para ter acesso a uma obra artística, seja um livro, um disco, um filme? A internet, cujo surgimento foi transformador para nossa cultura, potencializa a circulação dos objetos artísticos mas, cabe a pergunta, sempre: e o autor? A justa remuneração pela produção de uma obra são os direitos autorais; pessoalmente, parece-me a forma de financiamento mais digna e coerente com a produção artística e a independência do criador. Porém, se o público vai deixando de acreditar que se deva pagar por uma obra artística, já que na internet “tudo é de graça”, quem pagará a conta?

Entrevista: Equipe Livre Opinião

10 comentários sobre “Em entrevista, o escritor Wilson Alves-Bezerra conversa sobre o livro “Histórias Zoófilas e Outras Atrocidades”

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