Coluna 16: “Adágio”, por Lucimar Mutarelli

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outro dia meu amigo edson franzolin disse que estava numa clínica de dor

meu marido sempre fala de um exercício de criação artística que se chama: ir além

e se a gente pagasse pra ir numa clínica sentir dor?

aquele dia que você acordasse muito bem disposto e bem humorado você marcava uma hora na clínica e escolhia a dor que gostaria de sentir

hoje minha cabeça está tão leve e despreocupada e tranquila, vou pedir ao doutor renato para implantar uma dorzinha de uma semana no lado esquerdo do cérebro. Quem sabe assim eu posso faltar uma semana no banco ou ligar pra minha mãe fazer bolinho de carne moída ou passar a tarde deitada no sofá vendo sessão da tarde sem culpa

hoje eu acordei com uma vontade tão grande de sentir aquele aperto no peito de quando um grande amor/amigo vai embora e você fica lá sentada no banco do metrô chorando e pensando porque aquelas pessoas não param pra saber se está tudo bem se você quer um café ou um chocolate quente ou um cachecol ou porque ela não senta somente do seu lado e fica ali vendo os vagões passarem, vendo o menino se inclinando um pouco demais para olhar se o próximo metrô vem vindo ou essa senhora dormindo com a boca aberta e você fica com um nojinho e a roupa dela tá muito suja e não olha na parte embaixo da cintura porque acho que ela não toma banho faz tempo

outra dor que eu gosto é aquela do dia seguinte da ginástica. Quando você não pode nem sentar

dores fraquinhas não dores de verdade

ontem coloquei num texto que os homens podem vestir saias vestidos e passar batom mas sem passar pela dor de sangrar todo mês não dá pra bater no peito e falar da mulher que ele é

eu sou escritora, finjo que sou, na verdade sou filha, irmã, tia, prima, amiga, aluna, professora, namorada, esposa, amante, mãe, bancária, recepcionista, livreira, roteirista, parceira e dona de casa

e o escritor pode escrever na primeira pessoa de um homem mulher criança travesti velho sedentário cego surdo mudo

o escritor é um artista e faz da dor, aqui qualquer sentimento serve, sua expressão ou não

imagina se eu tivesse que morrer toda vez que matar um personagem ou cair nos trilhos do metrô ou ficar presa durante três meses?

por isso a gente finge, mente, simula

Lourenço Mutarelli falou numa palestra que todos os seus personagens tem a idade que ele tem ou já teve

essa é a melhor dor que eu gosto de sentir

dor de ser muitas: menina, adolescente, mulher, criança

gosto de sentir a dor do outro também mas não a dor do mundo de verdade. A dor da ficção, da mentirinha, do faz de conta

choro no mundo inventado da novela, do filme e do comercial da Sadia, diminuindo as dores de verdade

quando nos ausentamos para criar, tiramos folga da existência do mundo real

é um minutinho para se despir da matéria e estar livre para habitar qualquer lugar da imaginação

não significa, necessariamente, inexistir ou desaparecer. É existir em outro lugar. Forçar a sua participação em outro cenário

fantasias nos ajudando a passar os dias de forma mais leve

até não ficção serve. É a existência do outro sentada aqui ao meu lado. Quando eu procuro Dustin Hoffman no Google é porque eu realmente preciso daquele amigo. Atrizes, atores, diretores, roteiristas, dramaturgos e escritores. Músicos, compositores e os pintores são todos meus amigos porque não tem vergonha de exibir suas próprias dores. Sejam elas reais ou fictícias. Não me importo. O que me preenche é o que eu acredito

compartilham pesadelos que também me atormentam. Responsáveis por diminuir a tal da dor existencial. Mesmo que seja de mentirinha

é triste saber que seu amigo também sofre

contei pra Dona Iracema a minha frase preferida de cartões de aniversário:

“se você fica triste, eu fico triste

se você fica alegre, eu fico alegre

então, fica rico, porra!”

sempre que vejo um amigo sozinho ou sofrendo ou triste, pergunto primeiro se ele precisa de companhia para tomar um café, cozinhar pra ele ou me ofereço para lavar uma louça. A dor fica menor vivida junto. O problema é que, às vezes, o que a gente precisa é chorar sozinha mesmo. Aí sim, a casa fica todinha limpa. Mesmo que no dia seguinte você saiba que a dor vai continuar lá, igualzinha, com nome diferente

cada um dá o nome que sente: saudade melancolia nostalgia depressão solidão emoção agonia

se preferir, pode chamar de vida também

viver é morrer ao contrário

morrer é pra dentro

viver é pra fora

ou vice versa

depende do dia

porque hoje eu acordei com a boca cheia de minúsculas

lucimar-mutarelli

Confira os textos anteriores da autora: Coluna 1Coluna 2Coluna 3Coluna 4Coluna 5Coluna 6Coluna 7Coluna 8, Coluna 9, Coluna 10, Coluna 11,Coluna 12, Coluna 13, Coluna 14, Coluna 15.

2 comentários sobre “Coluna 16: “Adágio”, por Lucimar Mutarelli

  1. Pingback: Coluna 17: Cada um no seu quadrado, por Lucimar Mutarelli | Livre Opinião - Ideias em Debate

  2. Pingback: Coluna 18: “Vila Itaim”, por Lucimar Mutarelli | Livre Opinião - Ideias em Debate

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