Breve Relato Sobre Metamorfoses Cotidianas

“O objeto que ele estava fazendo se deformou,
mas ele aproveitou o barro e fez outro,
conforme lhe pareceu melhor.”

Jeremias, 18:4

— Tava vendo na Discovery que quando você olha pra uma estrela, você tá vendo o passado. É que até dar o tempo da luz dela viajar de outra galáxia pra chegar aqui, tipo um zilhão de anos, ela já tá morta. Daí também fala, por exemplo, que se a luz do sol apagar do nada, a gente só vai perceber depois de uns oito minutos, olha que viagem!

— Nossa, coincidência você falar isso. Ontem o professor passou um texto sobre cartas de amor que usa esse exemplo.

— Como assim?

— Tem a ver com isso o que você falou agora, dessa coisa de ver o passado. No texto fala que a luz das estrelas são como as palavras duma carta de amor: o que tá no papel, ou o que a gente consegue ver, só diz sobre o passado de quem escreveu naquele momento, mas não diz nada do presente. É como se todo mundo, pelo menos em algum momento da vida, fosse uma estrela em particular, alguma coisa assim.

— Meu, que bonito isso! Bem poético. Mas sabe, falando em estrelas, espaço e essa coisa toda, imagina como é ficar viajando no espaço, na gravidade zero? Eu e você, de carona num desses foguetes do instituto, sumir daqui pra sempre?

Enquanto se beijavam, o fuzil disparou.

As cabeças explodiram simultaneamente.

* * *

Depois de um acidente de carro, sua mulher ficou de cama. Sua rotina de casado se transformou em trocar fraldas geriátricas, botar alimentos empapados numa sonda gástrica, limpar merda, vômitos, dar banhos e continuar o flagelo até o limite do suportável.

Ela se parecia muito com sua mãe. A cada dia, porém, a semelhança se esvaía.

Certa noite ela dormiu com um travesseiro no rosto e não acordou.

No enterro, sua avó lhe deu um demorado abraço e tirou da bolsa um um livro de citações:

“Não fique triste nas despedidas. Uma despedida é necessária antes de vocês se reencontrarem.”

Para ele, o verdadeiro poeta foi o chefe:

“Tire uma semana”.

Tão rápido quanto os foguetes que via da sacada de sua casa de campo, ele obedeceu e tratou de aproveitar a folga. Finalmente estava livre para extravasar. Na infância, ele costumava praticar com os ratos que caçava. Ele gostava de massacrá-los enquanto agonizavam.

Mais tarde, a maturidade lhe apresentou outras espécies.

*

Para alguns povos indígenas, a carne humana era mais do que uma opção no cardápio. Era algo místico. Eles alimentavam a crença – com o perdão do trocadilho – de que ingerir a carne do inimigo era o mesmo que incorporar suas virtudes.

*

Ironia da vida, nem toda obra de arte termina num museu. A dos chefs, por exemplo, ou vai direto para o lixo ou vira merda e vai para o esgoto.

Na categoria livre de entorpecentes, ao lado da hora do banho, é nos momentos de evacuação intestinal que o ser humano tem a maior odisseia filosófica do dia, não há Discovery Channel ou National Geographic que supere. Talvez gênios como Bach, Mozart e Beethoven compunham suas pérolas enquanto cagavam; pode ser que Einstein fazia o mesmo no desenrolar da Teoria da Relatividade, ou até Gandhi e Hitler na preparação de seus discursos. Não tenho dúvidas de que Thomas Edison, já em sua milésima e fracassada tentativa de inventar a lâmpada, entoou um sonoro “foda-se” e, após a janta, sentou-se na privada/penico/mato ou o que estivesse disponível; cagando, olhou através do horizonte quando um sinal divino tocou sua vida:

eis o nascimento de uma invenção.

Caso não tenha hemorroidas, você há de concordar que trata-se de um respeitável momento de prazer e auto-conhecimento: a mente relaxa, o corpo relaxa, o esfíncter externo relaxa, as fezes são libertas e a consciência se expande para o infinito.

*

Depois de buscar os cadáveres baleados, ele deitou os corpos sobre a mesa de sua garagem. Com o auxílio de uma makita e de um bisturi, serrou a pele, a carne, o esterno, afastou as costelas, cortou os ligamentos e extirpou o coração de cada um.

Enterrado os corpos na vala das rosas, seu futuro amor foi colocado numa geladeira. Os corações que antes sonhavam com o espaço infinito se espremiam num pote cheio de sal grosso.

Como disse o seu pai segundos antes de morrer, “Você não tem coração.”

*

Simpatia culinária para corações ausentes

Ingredientes:

  • 2 corações de um casal assassinado;
  • 400 gramas de bacon;
  • milho;
  • 1 cebola grande picada;
  • 4 dentes de alho grandes;
  • 1 maço de cebolinha verde;
  • 2 tomates picados;
  • 1 pimentão;
  • óleo;
  • sal a gosto;
  • páginas de “Os Sofrimentos do Jovem Werther” a gosto;
  • pimenta-do-reino a gosto.

Modo de preparo:

  • Após retirar o excesso de gordura dos corações e limpar suas divisões internas, perfurá-los por todos os lados o máximo possível;
  • Logo em seguida, insira os pedaços de bacon nas perfurações. Após ficarem bem recheados, ponha os corações numa panela de pressão com água o suficiente para submergi-los e leve ao fogo por 40 minutos até a água secar;

– Enquanto isso, frite todos os demais ingredientes numa frigideira com bastante óleo.

  • Secada a água na panela de pressão, coloque os corações em uma bandeja de alumínio e despeje os temperos fritos sobre eles.

– Recite um trecho da obra escolhida:

“Quando ler, minha amada, a fria pedra tumular já terá coberto o inerte corpo do homem antes inquieto, infeliz, que durante os últimos instantes de sua vida não conheceu melhor prazer que o de conversar com você.”

  • Retire a página do trecho lido, mastigue-a bem e depois engula. Pegue mais algumas páginas e forre a bandeja onde os corações serão servidos.
  • Para acompanhar, arroz branco, favas e um bom vinho.

Bon appétit.

*

Terminado o banquete, ele fez uma aberração fecal paquidérmica, um Leviatã de merda, o autêntico aborto pelo rabo. Nascia ali o embate entre uma criatura descomunal contra o seu inconsequente criador.

Certa vez, sua mãe disse que “o estrume é que faz as flores crescerem”.

Era o carma do Dr. Frankenstein.

*

Dada a descarga, a tubulação entupiu completamente. A água incapaz de levar as fezes para baixo subiu para a borda, que fez despencar quilos merda no chão. Foi um burlesco espetáculo de água, bosta e milho flutuando na correnteza sanitária em cada centímetro cúbico daquele azulejo.

— PUTA QUEU PARIU!

[Eis suas últimas palavras. Depois de escorregar em uma das fezes, ele caiu para trás e enterrou o crânio na haste da torneira do bidê. Em seus últimos instantes de consciência, alimentou esperanças de se juntar com sua mãe noutro lado. Lembrou-se da infância, quando ela segurava sua mão para afastar todos os monstros que habitavam as sombras de seu quarto; das consolações carinhosas depois de um dia difícil na escola e dos eternos abraços que o tornava imune a todo medo e frustração. Lembrou-se de como a monstruosidade do universo era pequena diante dela. Podia sentir os finos dedos de suas mãos tocando seu rosto, como se dissesse “Fique calmo, filho, a mamãe está aqui… Tudo vai ficar bem. Confie em mim.”]

* * *

Boiando ao redor do corpo do nosso heroi, uma das fezes digeridas e inebriadas pelo romantismo das páginas de Goethe deu seu parecer:

“’Nesses momentos, vagueio por entre as horrendas cenas noturnas desta época inimiga dos homens’… mas eis que a sorte lança o testemunho de nossa jornada: o curso da vida não nos quis no esgoto! O homem, cuja apatia nos reduziu a um aborto, jaz podre em seu merecido leito de morte neste cômodo sombrio! Que a Providência tenha piedade de sua alma e abençoe os irmãos que se sacrificaram por nós! Que a tragédia seja uma pálida sombra diante da fortuna que o destino nos reserva!”

[Dias depois, uma estranha ave entrou no banheiro. Enquanto os urubus se alimentavam da podridão do cadáver, a singular criatura devorava todas as fezes do chão.

Satisfeito com o banquete, o pássaro voou seguindo os ventos e entrou no campo do Instituto de Lançamentos Aeroespaciais, onde evacuou sobre a lataria de um foguete segundos antes de decolar.]

Eles jamais estiveram tão perto das estrelas.

Nicollas Bilatto

não é muito bom em falar sobre si e escreve às vezes

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