Coluna 17: Cada um no seu quadrado, por Lucimar Mutarelli

11125504_10205262670579578_444093341_nMinha irmã Maria Lucia me perguntou de onde eu tiro as ideias pra escrever essas crônicas

Eu respondi pra ela que a própria pergunta poderia virar um texto

Que tudo serve de inspiração, que tudo tem história

Essa percepção óbvia eu só descobri depois que li o livro e assisti o filme O cheiro do ralo

Meu marido é escritor, sempre foi. Mesmo quando fazia histórias em quadrinhos eu lia tudo sem olhar os desenhos. A força pra mim está no texto, sempre

No cinema, o que me interessa é a história.

Lembro da escola, primeira série. A professora falando e eu anotando tudo. Até hoje sou assim. Os pejorativos chamam isso de CDF. Eu chamo de uma pessoa que tem dificuldade de guardar informação.

Sinto a cabeça confusa, muitas ideias e pouco discernimento

Estou com dificuldades pra montar os blocos no cérebro

Se eu soubesse desenhar eu te explicava melhor mas trabalho com palavras então tenho que te explicar assim mesmo, literalmente

Meu cérebro é uma caixa grande (a Isabel Teixeira desenhou direitinho mas ela estava falando de teatro) com várias caixinhas menores. Quem tem Windows phone vai entender. É uma brincadeira com a posição e o tamanho de cada caixa dentro da caixona

Cada caixa tem uma etiqueta: marido (a caixa do meu marido tem várias gavetinhas porque ele é muitos na minha cabeça, tipo pai, namorado, homem, escritor, desenhista, amigo e parceiro); filho, gatos, casa (que inclui roupa, almoço, janta, louça, quarto, sala, cozinha, banheiro, área de serviço), família (do meu lado, mãe, pai, irmãos, sobrinhos, primos, tios e sobrinhos netos), a família do meu marido, os amigos, o meu trabalho (literatura, cinema, teatro e internet)

Tem outras caixas que eu gosto de cuidar também que são a caixa do cinema e da gula. Ao cinema eu gosto de ir sozinha, só no Cine Panelinha que eu gosto de companhia

Na gula, eu preciso de companhia e de uma testemunha, Adriana Simão, ela realmente entende quando eu falo que preciso comer uma coisa…carinha meiga sorrindo

Tem outras caixas com importância variável tipo viagens, festas, concursos, cursos, palestras. Essas são temporárias. Abro, uso, tiro fotos, registro em cadernos e depois descarto

O que sobrar, vira história

O que eu esquecer é porque não era importante

Mentira

Esqueci muita coisa que era importante

Minhas sobrinhas sempre me surpreendem com histórias que elas lembram que viveram comigo. Outro dia até meus sobrinhos, que falam bem menos, me contaram histórias que eu não sabia

Fico triste por não lembrar de tudo

Queria que todas as pessoas da minha família e meus amigos virassem escritores e contassem todas as histórias

Quero ouvir todas as histórias que essas pessoas tem pra contar

Tenho uma curiosidade doentia

Tudo eu quero saber

Se for algo muito íntimo muda o nome da cidade e dos personagens. Trocar o sexo deles também ajuda a enganar sobre quem você realmente está falando. O importante é contar o milagre. O nome do santo, nesse caso, não interessa

Sinto falta de não ter mais caixas dentro da cabeça

Mas o meu marido sempre fala que esquecer também é bom

Faz parte da vida saber esquecer

Eu costumo gritar com orgulho: eu perdoo mas eu não esqueço. Então, talvez eu não tenha perdoado de verdade. Esquecer é fácil. Perdoar é mais caro

Mas voltando a pergunta da minha irmã sobre de onde eu tiro as ideias

Eu tiro as ideias da vida mesmo. Fico de olho nos outros. Em casa, na rua, no metrô, no ônibus. As histórias acontecem na nossa frente o tempo todo. Faça um teste você. Olhe em volta. Espia a vida acontecendo. Coisas incríveis acontecem o tempo todo. O escritor olha, observa, anota e depois mistura tudo aquilo nas caixas da cabeça e transforma em história

É tipo fazer um bolo. Você pesquisa a receita (ou inventa, ou alguém compartilha com você), separa todos os ingredientes e utensílios e faz

Depois a gente come

Sozinho ou em grupo

O importante é não parar de comer e cagar, nunca

Então, Maria Lucia, escrever é isso: comer e cagar, todos os dias de preferência para manter o corpo e a mente saudáveis

Você já deve ter reparado que eu sou meio camaleônica, eu reajo muito de acordo com o lugar que estou. É óbvio que, às vezes, eu me confundo e me comporto num velório como se estivesse numa festa e o contrário também acontece

Só pra te dar um exemplo, ontem eu sentei no chão do metrô porque precisava escrever uma crônica, não essa, outra

Escrevi rápido porque você sabe que as pessoas não podem sentar no chão do metrô, erro e faço coisas que não são permitidas socialmente

Isso faz parte da vida do artista também. Fazer coisas consideradas exóticas, diferentes ou muito bizarras

Cada artista tem um tipo de caixa na cabeça. Não precisa ser artista pra entender isso. Pense na sua cabeça do lado de dentro: quantas caixas você guarda aí?

Meu marido sempre fala que escrever não tem fórmula

A gente escreve e pronto

Então, é tipo viver mesmo, sabe?

Cada um cada um

lucimar-mutarelli

Confira os textos anteriores da autora: Coluna 1Coluna 2Coluna 3Coluna 4Coluna 5Coluna 6Coluna 7Coluna 8, Coluna 9, Coluna 10, Coluna 11,Coluna 12, Coluna 13, Coluna 14, Coluna 15, Coluna 16.

2 comentários sobre “Coluna 17: Cada um no seu quadrado, por Lucimar Mutarelli

  1. Pingback: Coluna 18: “Vila Itaim”, por Lucimar Mutarelli | Livre Opinião - Ideias em Debate

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