Anelis convida à piração — os amigos imaginários destravam e irrigam qualquer parada

14090_668579769935154_697284322607843651_n

Por Thadeu C Santos

Sutil e desvairada, Anelis está em estado gasoso. Os amigos imaginários (a banda), com Saulo Duarte em uma das guitarras, é o primor da vibe e do suingue; tem ótima pegada black, jazzística, regueira, sambista & psicodélica. A voz não pede perdão pela flechada, abre uma vereda na audição de qualquer rueiro. Um lance que sacode, é dançante e quente. Quando segura um dub-tonelada, base da apresentação bem tramada pelo baixista Mau, sopra o oxigênio para que a sagacidade de Anelis passeie pela música. Os amigos têm muito espaço, não “acompanham”, partem pra cima e dividem o protagonismo em partes iguais. Ela também é a amiga imaginária deles. As composições de Anelis são de rara letra, parcerias com Céu, Russo Passapusso, Kiko Dinucci e Alzira E. e Rodrigo Campos, pontos cardeais do som brasileiro, a era dourada da produção independente. Beirando o delito, é um trampo em ascensão. Acima de tudo, é uma música gostosa. Que instiga.

O show supera a sacação do disco de line certeiro. Embora algumas faixas não tenham sido apresentadas, ganha-se bons reggaes, verdadeiras rasteiras, e uma inédita, também parceria com Rodrigo Campos (“se a água acabar, vou te deixar”). São Paulo está forte ali. O Rio de Janeiro teve que parar para ouvir. A apresentação rolou no Levada 2015, no Oi Futuro de Ipanema, em dois dias, 24 e 25 de abril. Fui ao último por pura sorte. Os ingressos, poucos e a 20 pratas, se esgotaram rapidamente. Em relação a seu disco anterior, Anelis deu um salto mortal triplo e caiu de pé. Nota máxima.

“Estou a fim de jogar conversa dentro, cê tá com tempo?” O teatro do Oi Futuro é bastante estreito. Acomodados em cadeiras numeradas, uma voz mórbida apresenta os patrocinadores do projeto e anuncia o começo do show. Com forte ar condicionado, o clima é o da galeria de imagens que toma o hall do teatro, no terceiro andar do edifício, o lugar tem cheiro de shopping center e conta com muitos seguranças. Estávamos confortáveis e protegidos. A partir do momento que Anelis nos chamou pra conversar, mote de sua primeira canção, tudo mudou. “Oi, tudo bem?, faz tempo que eu não te vejo dando sopa por aí…” Me senti na 24 de Maio, no Centro do Buquê, flanando de chinelos pela galeria do reggae. Próxima, a Rota dá uma dura nuns moleques. Cai a madrugada. Uma galera arma a aparelhagem e um pessoal soma. Posso ver Anelis e seus amigos imaginários ensaiando na rua, cercados dessa onda. O show é uma jam session porradaça, que encara o olho do cão desconfiado — é capaz de provocar ternura em qualquer terreno difícil. E o singular é justamente a sinergia com o dub.

Diferente da fatia saboreada por Paralamas, Skank ou Cidade Negra — e até mesmo Gil —, Anelis está em meio ao abismo do grave mais radical do reggae. Não se perdeu o gosto pelo riff caribenho, porém o esporão sonoro da marcação do dub, seus ecos e alucinações arrancam o chão — e mais, encaixam-se aos ritmos regionais brasileiros e da música americana que, misturados, emprestam força a um balanço de ótima ginga do som de Anelis.

Parte da mpb está nessa, meio que morando em Kingston. Nos discos da década anterior, o dubismo do zumbi, da Nação, as linhas de base d’O Rappa e os reverbs de B Negão & os Seletores se tornaram pilares da recente canção dub brasileira; já é, talvez, a hora de observar na música recente a mais ampla contaminação jamaicana desde que os movimentos da guitarrada paraense, do reggae maranhense e do samba-reggae baiano vieram à tona nos salões de terra batida.

Na cena atual, além da própria Anelis, o dub nas canções dos parceiros, Russo Passapusso (solo e Bayana System), Céu e Rodrigo Campos (que tem novo disco anunciado) e de ouvidos ao redor, como os de Curumin, Karol Conka, Rael, Posada ou Criolo, citando alguns, estão tão bem desenhados quanto o de bandas que se dedicam exclusivamente ao roots, como Ponto de Equilíbrio e Mato Seco, e soundsystens experientes como o Digitaldubs. O movimento é difuso. Ter uma cena com diferentes músicos encampando trabalhos na linha a qual Anelis se apresenta mostra que o dub conquistou uma frente importante dentro da música brasileira, e seguirá sendo um auxílio às composições que necessitem do ambiente provocado por sua aparição.

“Já falei pra você que eu gosto assim.” Voltamos à Ipanema. Anelis estava com um macacão azul claro com estampas de pássaros na frente e de nuvens nas costas. Os cabelos espetados e bem cheios, tingidos de loiro, contrastavam bem com a pele amorenada e o batom roxo, uma purpurina dourada brilhava nas pálpebras. Ela estava ótima e cantou belamente, garganta pegando fogo, sobrando. “Una voz clara, suave, fuerte, seductora”, como descreveu Ana Schlimovich, blogueira do La Nacion, em seu flagra do show http://blogs.lanacion.com.ar/rio-de-janeiro/musicalidad/musica-del-futuro/#more-2304. Musica del Futuro.

Os amigos imaginários estavam com tudo. Atropelaram. Edy Trombone, um homem alto que se vestia como um veterano da salsa cubana, arrebentava em seu instrumento, nos momentos de solo, parecia improvisar como numa deleitosa jam de jazz. Edy deitou e rolou, ao fim, foi o mais aplaudido dos músicos, ainda mais por Anelis tê-lo apresentado por último. Lelenha Anhaia e Saulo Duarte brincaram de tocar guitarra, dando conta do grande espectro rítmico o qual a banda flerta. O time era coeso, acalentado por Zé Nigro. Em muitos momentos a banda comia o coro solta. Num desses auges, Anelis se deitou no chão e convocou o limbo fronteiriço da realidade e do sonho ao palco. O laboratório produziu música para a alma sair do corpo. Estava feito o convite. Aquele lance todo era foda demais.

“Somos livres, mas não. Então eu te evitei.” O tapete estava estendido para a poesia e a interpretação. Vimos uma cantora solta dançando com seus músicos. Anelis dá às letras a mostra de um combate interno. Amor. Cidade. Interação humana. Em alguns momentos parece buscar equilíbrio à porralouquice, como se avisasse dos riscos dos rompimentos constantes e desmedidos — principalmente os que destoam da orientação do respeito por quem está perto. A cantora está deslocada, recusa a barra forçada, o bla-bla-bla dos regulamentos. Ainda há um caminho a ser descoberto. A vida não está decidida e, bem sabe, talvez não queria se decidir. A atenção está no instante, o tempo de se esticar e saltar fora, a hora de agir que não deve tardar — embora não contraste com o ritmo da preguiça. “Song to Rosa”, a melhor, é um hino à perseverança que não esmorece. Anelis quer fugir dessa merda toda. Enlouqueceu. Conscientemente.

Thadeu C Santos
é poeta e editor da kza1

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s