Coluna 18: “Vila Itaim”, por Lucimar Mutarelli

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a Vila Itaim merece muito mais do que uma crônica
merece um romance inteiro

infância na rua jogando bola com medo de ser achada no esconde-esconde

vontade de beijar o menino amado no salada mista, ser ignorada nas festas juninas da igreja e nos bailinhos da escola

caçula de sete irmãos, a menina mimada ganhava tudo que pedia

quando aprontava e sabia que ia apanhar, tremia o corpo todo, fingindo desmaiar. Lourencinho desconfiou: “talvez não fosse só fingimento”. Pânico noturno, o exame diagnosticou

“essa menina sofre dos nervos” mais uma vez, mamãe acertou

Vila Itaim é muito mais do que o jogo de amarelinha ou pedrinhas ou escopa na rua no quintal com a Vera e a Kira, as filhas da Dona Dorinha

fingir que vai comprar arroz só pra ver o bonitinho do mercado

passar as tardes ouvindo Beatles com MPB no violão do Mimi

querer aprender a dançar no Centro Cultural do Itaim

tentar ficar amiga dos amigos e dos namorados da Neia e da Lusia e elas não te querendo porque você era tão intrometida e tudo você queria e, mesmo assim, você entrava escondida no quarto do Guilherme e pegava, sem pedir, os livros e as camisetas, da Marli, você roubava o perfume que seu Lourencinho gostava

não lembra quando saia com a mamãe e o papai para passar o domingo na casa do Hermes, jogar telejogo com o Elvis e o Rafael era tão pequenininho e até hoje você ouve Wings que, na sua emoção, vinha antes dos Beatles

Vila Itaim é muito mais que a coxinha da Nalva e o quintal da Marisa com a Denise, a Nenê, o Marcos e o Doni

na cozinha da Dona Penha, esperar a Edjane e a Ednalda para rir com o Tito

fazer a unha e  cabelo na Aninha só em dia de festa porque o dinheiro sempre foi pouquinho e você sempre preferia gastar no cinema, com discos ou comida e café com leite e presentes pros sobrinhos e levava ao cinema de trem ônibus e metrô. Hoje são eles que te dão carona, muito obrigada Amanda, Naldo, Kely, Adriana e Otinho. Ailton, Anderson e até a Auri já te carregou

o trem agora é ótimo, não reclama, porque você não sabe como era há vinte trinta quarenta anos

como você pode lembrar de tanto detalhe? A Jessica perguntou

lembro conforme vou escrevendo e foi a Simone Noronha que contou que eu tinha um caderno de desenho e figurinhas e música e fazia diário
pena que joguei tudo fora porque na época ninguém podia saber que além dos meninos também gostava de uma menina mas isso foi em São Miguel, outra fase, outra vida, outro texto, outro romance

um passo pra ficar longe de casa, liberdade, bebida escondida, vinho Natal que a mãe deixava em cima da pia enquanto fazia o almoço de domingo e você dava uns golinhos porque era tão docinho e, é claro, acabava passando mal mas naquela época tudo que a mãe falava era besteira e você se achava muito maneira, descolada e moderna para ficar presa tão longe da cidade porque o Itaim era o último bairro da Zona Leste, é quase Itaquá

tinha a Rosaninha e o bar do seu Daniel, o lanche da Dona Maria e a gente fazia juntas toda a lição do Capistrano e eu gostava da feira com a minha mãe e até hoje eu gosto com meu marido

o chá das cinco era na Marina, brincando com a Adriana e brigando com o Anderson e mesmo assim não saía de lá, era onde comia sucrilhos, bisnaguinha com requeijão e bolo com guaraná

e na Lucia, jogar baralho, futebol, fingir que lutava boxe e correr atrás do Marcio no campo e cantar com a Marcia e o Ailton e ouvir aquele monte de disco com a Sílvia e a Adriana, não a sobrinha, a outra, a loira que você sempre fica feliz de reencontrar. E eu nem lembrava mas foi o Naldo que contou: passava na minha casa pra pegar chocolate do Kinder Ovo que o tio Lou comprava só por causa do brinquedo e espalhamos na vizinhança que fazíamos a coleção do Snoopy e toda hora tinha uma criança batendo no portão e Dona Maria reclamava: “ô gente, não arruma confusão”

e quando falou da igreja você esqueceu de mencionar a Irmã Irene, professora de catecismo na são José Operário onde quebrou o dedo mínimo do Menino Jesus e escondeu do padre e ia na casa da Bete tomar vinho e comer o pão da Dona Albertina e era a única casa da Vila que tinha telefone e quando você queria aproveitar um pouco mais da festa nas boates era lá que você ligava e pedia: “avisa a minha mãe, por favor” e, às vezes, esquecia e sua mãe não dormia, aflita de tanta preocupação e você voltava e se desculpava, ela perdoava e quando estava quase esquecendo, você fazia de novo

toda vez que eu durmo aqui eu aprendo e cresço mais um pouco em emoção por meu pai ter escolhido a Zona Leste e se fosse na Norte tudo seria completamente diferente

a gente vai vivendo e aproveitando tudo que vai acontecendo Itaim ou Aeroporto de Congonhas, Carrão ou Vila Mariana

São Paulo é minha casa, minha cara

que Deus abençoe a Vila Itaim, meus pais, meu marido e meu filho que lá fez grandes amigos e até o seu livro tem muito de tudo ali. Deus abençoe meus irmãos, cunhados, sobrinhos e os amigos da família

não esquece dos sobrinhos netos que ainda hoje correm naquela casa e todo mundo que para naquele portão sempre lembra da Dona Maria sentada na mesma poltrona ou do Seu Zinho cuidando do jardim, das galinhas e do milho

Corintianos, Palmeirenses, a casa do São Paulino e somente um Santista

nosso primeiro Natal foi na laje do Nilson e foi ele quem construiu nossa primeira casinha nos fundos da casona que meu pai e minha mãe fizeram para toda a nossa família

foi na aula de mestrado, na USP da Zona Oeste, que a artista plástica baiana queria fazer um trabalho sobre o solo de Paris e o professor perguntou: e a terra da Bahia?

comece pelo seu quintal

o meu quintal é a Vila Itaim

mas também pode ser qualquer bairro de São Paulo, Paris ou Nova Iorque porque uma cliente da livraria dos Jardins, não do Romano e sim do Paulista,  me falou que lá as mulheres deixam o cabelo ficar branco e ninguém pergunta por que. E eu toda metida queria ir conhecer. Curiosa, sedenta de museu de pintura e literatura não tinha internet nem telefone só a TV e os livros que meu pai e meu irmão compravam e eu lia todos e tudo eu queria saber e minha mãe abria a porta do quarto e soltava: “vocês vão ficar loucas de tanto ler”

a verdadeira raiz mora dentro da gente, anda junto, acompanha

quem tem memória, passa adiante através de carta conto música post no facebook

foi na Vila Itaim que eu e meu Lourenço construímos nossa primeira casinha. Uma edícula no quintal da Dona Maria

a antiga Rua 8, de terra e de lama, virou Confluência da Forquilha quando o asfalto chegou

e o nome que era engraçado virou nome de livro, eternizado numa História em Quadrinhos, mudou de significado

muito obrigada Vila Itaim pelas noites de Lua que eu vivia contando estrelas só pra ter certeza se nasceriam verrugas na ponta do dedo, só para contrariar a minha mãe e brincar na rua até as dez onze, meia noite “não, pode não” olha o chinelo voando na minha direção

quando trabalhava na Brigadeiro fui morar na Santa Cecília, depois Vergueiro e Praça da República, era a vez do Centro e pra Vila Itaim eu ia passear no fim de semana

voltei depois, estudando na Unesp, Ipiranga é Zona Sul, para ser professora e, por um breve período, ser filha única e viver tranquilamente a companhia do meu pai e da minha mãe

veio a Lala e a Jessica, amigas, parceiras e companheiras de café com pãozinho, festa e Lala, senta um pouquinho. Eita, a Karla fez cuscuz

Depois veio a Laura, o Lucas, a Lorena e a Melissa e conheceram um novo bairro tão diferente aqui agora tem tudo e veio o John e sentou no murinho e eu fiquei tão feliz de te ver adulto naquele quintal brincando de novo com o Juninho, a Clarice, o Mateus e o Francisco cuidando das crianças no mesmo quarto que ele brincava e brinca até hoje e foi no Itaim que você foi feito, tá no sangue, Patrão

muito obrigada, Vila Itaim, pedra pequena, pedrinha gigante para carregar no coração

quando eu morrer vou pedir pra ser espalhada aí

vou esquecer a 23 de maio e voltar pras ruas barulhentas de criança jogando queima, balança caixão ou escolinha onde eu sentava com vizinhos e sobrinhos no chão e obrigava a prestar atenção na aula daquele dia

no mesmo quintal onde ensaiava para os musicais da escola imitando Sidnei Magal ou Olivia Newton John e onde vi meu filho jogar bola, brincar de bonequinhos ou correr atrás dos primos e fazer grandes amigos e ficar de bobeira

não é o lugar que faz uma pessoa

as pessoas fazem o lugar

pessoas que fazem da Vila Itaim um território sagrado pra mim <3

lucimar-mutarelli

Confira os textos anteriores da autora: Coluna 1Coluna 2Coluna 3Coluna 4Coluna 5Coluna 6Coluna 7Coluna 8, Coluna 9, Coluna 10, Coluna 11,Coluna 12, Coluna 13, Coluna 14, Coluna 15, Coluna 16, Coluna 17.

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