CAVIAR COM COCAÍNA: Tele-Estorvo, por Marina Filizola

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Três da tarde e aquela rotina de sempre.

A gente nunca acredita que num dia tacanho qualquer, em plena segunda pós domingo sorumbático, o telefone que vive pacato vai tilintar uma ligação do além. Não é normal uma pessoa te ligar depois de doze anos mesmo porque, antes disso, essa pessoa também nunca tinha ligado. Muito menos perguntar da sua vida, sem ao menos ter ideia que sua vida mudou radicalmente em uma década e que pra falar da vida de doze anos pra cá você teria no mínimo que ler um livro, e se aprofundar em assuntos ácidos e desinteressantes pra quem esta chegando agora e ainda por cima esta mais louco que o batman. E que você simplesmente não tem mais paciência pra papo-furado e escolhas mal feitas. Então misteriosamente aparece uma mensagem sem identificação nenhuma no maldito whatsapp, aquele que surgiu para agilizar a vida e fuder com nosso silencio comprometido. São as inconveniência digitais da nossa geração I-touch.

Foi assim:

– oi ciclana, aqui é o fulano, posso te ligar?

Esse whatsapp é uma faca de dois gumes: por uma lado acelera e descomplica pendências que antes eram uma epopéia pra desenrolar, por outro facilita muito a vida de gente lazarenta que fica caçando assunto quando não tem mais o que fazer.

Normalmente a engenhoca é um triunfo na mão de safado, que esta perdido na maior paumolecência dos infernos. E dai o exú lembra sei lá em que momento do dia que tem seu telefone desde mil novecentos e guaraná com rolha, que faz mili-anos que não te vê, bate aquela saudade ilícita sem nenhum fundamento palpável e literalmente arrisca a vida pra tentar um contato de segundo grau com a intimidade que você nunca deu a ele.

É muita balela mesmo.

Quando a mensagem fantasma estremeceu meu telefone sempre mudo, logo pensei: deu merda. Só pode. Porque cargas d’água um sujeito que não era estranho muito menos próximo, me passa uma mensagem codificada e pede uma ligação sinuosa bem no meio da minha pacata segunda-feira? Meu pensamento vai direto pra tragédia. O figura esta morrendo esta na merda esta perdido, qualquer coisa desse gênero. Mas nunca poderia passar pelo meu cérebro nefasto que por uma luz do divino, o brocha sentiu uma saudade imensamente desproporcional aos seus sentimentos anestesiados, e quis bater um papo cabeça com qualquer sustância argumentativa.

Não.

Tinha chorume no meio disso.

Com certeza.

– pode, liga aí, tô em casa, tudo sob controle com você?

Exatos cinco segundos depois o telefone toca. Tá aí um tipo de ansiedade que me deixa incomodada e desconcertada, essa rapidez nefasta no gatilho do telefone, principalmente numa segundona nervosa em que pessoas normais atarefadas e que cumprem um papel útil na sociedade não tem nem tempo de cagar, quanto mais ligar pra jogar papo fora.

– e aí, tudo bem? Pôxa, maior saudades, a gente se conhece de longa data né, liguei pra saber como esta sua vida, como esta tudo por aí.

Engraçado nunca ter ligado antes.

É só um parênteses do meu pensamento.

Mas tudo bem.

– tudo bem por aqui, na santa paz, na correria de sempre, mas me diz, aconteceu alguma coisa?

– nada, liguei porque pensei em você, e eu gosto pra cacete de você, fiquei sabendo que formou família, como tá sua filhinha, maior barato né?

– é moleque, não é menina.

Percebe-se que o ordinário não andava atualizado de forma nenhuma, que não visitava minha pagina nem nunca visitou, que não sabia porra nenhuma de mim, que sou casada chata seletiva, que escrevo coisas acidas e que não tenho tolerância pra gente parasita.

E que por conta disso corria um grande risco de tomar uma cortada infernal se o blablabla não parasse por ali.

– maior barato ter filho né, eu tenho quatro.

Não me agüentei.

– caralho camarada!

Um pensamento que não saiu: que fabrica de porra hein, tudo da mesma otária ou pingou seu sêmen por aí? Não precisou. O silencio cortante pediu um argumento.

– três com a ex e um com a atual, mas presta atenção, três moram comigo, dois ainda são de colo, sou meio mãe meio pai, e eu sei que é um trampo infernal, as vezes acho que vou ficar louco.

– Nem me fala. Insanidade mesmo colega. Quatro é Foda hein. Uma gangue.

Por um instante pensei: caramba, o cara realmente está bem intencionado, quer bater um papo, precisa desabafar, acho que fui meio cruel, minha mente leviana esta me deixando muito anti-social, credo.

– então, vamos marcar de se ver, sair pra comer alguma coisa, topa?

– vamo aí, a gente combina, me liga que a gente marca.

– eu vou viajar pra floripa amanha mas quando eu voltar te ligo e a gente faz alguma coisa, meeeeu, eu te adoooooro, meeeeeeesmo, de verdade, quero muuuuuito te ver, assim que eu voltar a gente combina, vou ligar mesmo, beijãaaaaao.

As palavras quando ficam alongadas não me deixam feliz. Palavra alongada dá vertigem, não traz sensação boa. Gente que fala assim, dobrando triplicando vogal é pessoa que esta emotiva demais, normalmente é afetada-dopada-retardada e queimou os fios do cérebro no ultimo grau, é só minha opinião.

– tá bom então, vou esperar, se cuida.

Sabe quando você fica olhando pra um ponto fixo com sobrancelhas franzidas e nariz engruvinhado, cara de “Que-porra-foi-isso”? Então. Foi assim que eu fiquei. Trinta segundos depois chegou outra mensagem e foi aí que tive uma visão: esse filho da puta estava querendo me estorvar.

O whatsapp reluzia a mensagem pitoresca:

– posso ligar de novo?.

Êta, que porra, o bagulho estava mal parado.

– pode, liga ae.

Confesso que estava curiosa pra saber onde o cú de burro queria chegar.

Meio segundo depois e o telefone toca. Viu como minha mente delinqüente não erra nunca?

– então, vou te falar, ontem a noite tive um ataque e falei pra minha mulher que ia sair pra dar um rolê pra espairecer, acabei indo pro Love History, virei a noite e agora tô aqui num boteco no centro do lado do antro cheio de gente louca, e eu tô bem louco também, meeeeu, que saudaaaade, eu te adooooro, quero muito te ver.

Eu sabia. Só comigo acontece essas merdas três da tarde. O arrombado teve a manha de deixar a mulher em casa e se enfiar num inferninho de quinta categoria, entupiu o rabo de farinha, virou a noite fritando na pista dando moral pra vagabunda, e agora está perdido num boteco zero-estrelas e adivinha pra quem ele liga? Quem?

Pra mim.

Vai pra putaqueopariu viu. O sem-vergonha realmente não tinha discernimento nenhum. Agora o que mais me intriga é saber em qual momento esse pederasta lembrou do meu santo nome no meio disso tudo, diz pra mim, é muito constrangedor.

– caramba hein, agora eu entendi, você tá bem louco.

– que é isso, sou macaco velho, eu sei administrar.

Tá bom. Da conversa inteira essa foi a única parte que me deu ataque de risos. Pra cima de mim? Justo comigo? O cara conseguiu graduação em retardado-do-ano.

– quero te ver, como você tá, me manda uma fotinho sua pelo whatsapp.

Vai vendo.

– foto pelo zap-zap? Não tenho idade nem paciência pra isso meu irmão, passei dessa fase,

cê tá me confundindo?

Quase enviei uma foto mandando ele tomar no meio do cú mas desisti da idéia porque tinha certeza de que ele ia amar.

– me manda seu nome completo e seu rg..preciso..manda..como é seu nome completo mesmo?

– quê? Pra quê meu filho?

– vou comprar uma passagem pra você ir pra floripa comigo,..

Oi?

Hein?

What’s?

– eu sei que você tem filho, eu também, o que você precisa, a gente esquematiza uma bábá, eu cuido, sou graduado em filho. Eu te amo cara, serio, amooooo.

Pé-pé-péraí. Que leproso. Fudido. Escroto. Asqueroso. Brocha. Bossal.

O cara perdeu a noção de perigo.

A ligação acabou ali mesmo. Exatamente quando ele começou a enrolar a língua bonito. Não dá pra argumentar com nóia. É um tipo que devia ser encinerado da face da terra.

Ligou pra mulher errada.

Da balada errada.

No ano errado.

Minha ultima mensagem foi enviada via whatsapp. Pra encurtar o assunto. E é nessas horas que a comunicação á jato vale ouro.

– Aqui não rola esse ti-ti-ti esse papo furado que não agrega em nada. Não tenho saco nem idade nem paciência pra flerte de drogado. Sou bem resolvida colega, ligou pra pessoa errada. Não faço coisas que odiaria que fizessem comigo, consegue captar a mensagem ou prefere que desenhe? Tipo blá-blá-blá de fotinho e os caralho a quatro. Além de tudo esse tipo de conversa entorpecida com nego que esta virado no giraia e perdeu o caminho de casa não me encanta, inclusive é um papo que mais me instiga a estar exatamente onde eu
estou. Enfim. Cada um faz suas escolhas. Mas presta atenção, porque elas definem muita coisa. Fica em paz.

Falei. Não dá pra deixar passar em branco. É muita petulância. Quando a maquina do desconfiômetro quebra, fica um aviso néon no subtexto: não ligue pra ninguém. Na certa vai dar merda.

O postulento automaticamente tentou ligar, e claro, o assunto estava aniquilado. Pra bom entendedor meia palavra basta, mas pra um retardado é preciso gritar no alto-falante. E de novo, lá vinha ela, a mensagem reluzente. Era inacreditável. O sujeito tinha a manha.

– desculpa, você me entendeu errado, não tem flerte nenhum.

Opa. Vamos lembrar o bonitão de um detalhe: não dá pra mentir pra mentiroso. Captou a deixa?

– ah, por favor, pra cima de mim? Na boa.. toma o rumo de casa e não torra. Falô.

E foi isso.

Hoje em dia o limite é raso pra distinguir invasão com evasão de privacidade.

Mas um otário a gente reconhece do longe.

marinafilizola

3 comentários sobre “CAVIAR COM COCAÍNA: Tele-Estorvo, por Marina Filizola

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