Coluna 19: “Coxia”, por Lucimar Mutarelli

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Estou internada. Fui sequestrada. Só posso sair depois que entender porque eu não gosto de teatro

“eu vou deixar isso aqui tão agradável que a gente não vai querer sair”

A Isabel falou isso. Assim mesmo. Literalmente. Com todas as letras

Fui enganada

Quando ela me escolheu eu me senti agradecida e lisonjeada

Caí na armadilha do teatro

Não gosto de teatro

Mentira

Fiz teatro na escola

A professora Borba, de português e a Sônia de matemática, elogiaram

Eu acreditei mas elas não eram professoras de teatro

Fui fazer um curso de teatro com o cara do comercial do Cornetto. Procurei a propaganda no Google mas não tenho nenhuma lembrança disso. Poderia perguntar pra Dri mas acabei de sair do facebook, se voltar lá, perco mais duas horas que poderia estar trabalhando

Procuro na gaveta uma pasta com os certificados. Achei. Espaço Cultural Teatro e Cia. Professores Wagner Veiga, Celso Delneri e Milton de Almeida. Eles falaram que eu era boa. Acreditei e saí de lá me achando

Fiz uma única apresentação no TBC comendo uma banana fingindo que estava chupando um pau. Eu chorava e falava pro professor: mas eu nunca chupei um pau. Ele resolveu: finge que é um sorvete. Eu: mas eu não gosto de sorvete. Então finge que é um pirulito, porra

Entendi e fingi

Todo mundo aplaudiu. Eu não gostei de estar no palco. Não foi legal como era na escola. Na escola normal, tipo do colégio, tudo bem fazer teatro. No TBC era uma heresia. Eu estava me perdendo

Prestei EAD. Não passei. Todo mundo escolheu comédia e eu escolhi Shakespeare. Pretensiosa. A Claudia foi o meu ponto. A Isabel falou que não é errado ter ponto. A Claudia sussurrava. Eu não dei ouvidos a Claudia. Chorei. Não estava representando. Eu chorei de verdade. Mesmo assim achei que ia passar porque se eu chorei de verdade eu devia ser uma ótima atriz. Eu não entendia nada de teatro. E hoje, eu finjo que entendo. Basta ficar quieta e concordar com tudo que o outro está falando que parece que você entende

Não faça perguntas estúpidas porque aqui todo mundo é de teatro, todo mundo passou na EAD, no CPT ou no Célia Helena. Fica quieta. Ninguém quer ouvir a sua opinião. Todo mundo só quer dar uma opinião. Então eu escuto. Ou finjo que

Os professores da EAD falaram que eu não era boa. Eles eram professores de teatro. Então, eu acreditei na verdade deles

Fugi. Corri. Prestei História por causa da professora de História. Também não lembro o nome dela. Não passei de novo. Um recado de deus dizendo que não era pra eu fazer história

Nem teatro nem história

Eu não prestava pra nada

Fui fazer cursinho

O manual de Educação Artística da UNESP caiu na minha mão. Na mão não, no meu colo, mesmo. Alguém da fileira da frente foi passando os manuais e jogaram um nas minhas coxas, coxa não é colo

Artes Plásticas, Música, História da Arte, Fotografia, Dança e Teatro

Na UNESP não tinha português nem matemática. Eu só li as palavras História e Teatro

Juntei lé com cré

Prestei e passei. Não virei historiadora nem atriz. Virei professora. Aulas de Desenho Geométrico para sobreviver. Lourenço foi assistir uma aula na faculdade. Dizia que não parecia curso superior. Que parecia colégio. Eu fazia teatro na faculdade. Escrevi uma peça para a Claudia, não a Claudia que foi meu ponto na EAD, a Ana Claudia, atriz, que também desistiu do teatro e foi morar na Bahia

Professora também fica no palco. Eu estudava muito para não falar nada errado para os meus alunos. Eu não gostava quando a sala estava quieta e todos olhavam pra mim. Eu ficava constrangida. Preferia as outras salas mais informais, aquelas dos alunos que estavam abaixo da média. Falava e ninguém escutava mas ganhava o meu salário do mesmo jeito. Era um puta salário. Ganhava tipo 3.000 no Etapa e saí pra ganhar 300 na livraria. Minha mãe não chorou dessa vez. Não chorou porque eu não contei quanto ganhava

Na livraria não tinha palco. Eu ficava na mesma altura dos clientes. Mentira. Tinha cliente que chegava de salto. Uma delas tentava me humilhar. Dizia que eu não era chique porque eu usava touca rosa, polaina e sandália com meia. Ela não dizia, só me olhava com desprezo. Depois de um ano na livraria aprendi a devolver o olhar. Aprendi imitando as clientes. Quando atendia uma perua, eu virava uma perua. Indicava os livros do Alex Atala, fingia que já tinha jantado no Dom e que o Dalva e Dito era simples mas era uma graça

Com os intelectuais eu falava que não tinha lido os clássicos e eles me humilhavam com palavras mesmo, não era só com o olhar não. Só depois que eu saí da livraria que eu tive tempo de ler os clássicos. Pode perguntar aí. Li todos. Se não li, minto que li. Pode testar. Ninguém percebe a diferença entre uma pessoa que leu um clássico e outra que fingiu

Na livraria eu era atriz porque eu fingia?

Não precisa estar no palco para ser ator?

Se um ator ler isso vai dizer que eu estou menosprezando o seu trabalho

Eu estou querendo dizer que mesmo não passando na EAD eu posso ser atriz?

Sim, posso. A Sabrina Greve me chamou para participar de um curta

Ela falou que eu arrasei. Eu acredito mais na Sabrina do que nos professores da EAD

Professor mente mais que ator?

Livreiro também mente?

Só quem sabe mentir pode ser ator?

Eu não sei mentir

Mentira

Invento histórias o tempo todo mas isto não quer dizer que eu seja uma atriz

Desisti de ser atriz e professora

Muita gente desiste de fazer teatro e de dar aula

É muito difícil ganhar dinheiro fazendo teatro ou dando aulas de teatro ou de qualquer outra coisa

Olho para os colegas de classe e abro a inquisição do dia: mas vocês trabalham com quê?

Espero que ninguém pergunte com o que eu trabalho

Dei aula durante 20 anos e desisti

Mentira

A escola desistiu de mim

A coordenadora me mandou embora. Eu perguntei por que e ela não respondeu. Eu chorei

Arrumei outra escola. Fui demitida de novo. Perguntei e ninguém respondeu. Chorei, claro

Na terceira, não aguentei. Enfiei uma caneta no pescoço da coordenadora e perguntei: Por quê?

Você é muito sincera

Muita sinceridade não é bom na escola

Será que sinceridade é bom no teatro?

E na vida? Qual a porcentagem de sinceridade que eu posso usar?

Depressão. Três meses de sofá. Maridão do lado: Procura alguma coisa que você gosta

Eu: Livraria. Eu adoraria trabalhar numa livraria. Foi meu primeiro emprego aos 15 anos quando a minha mãe se recusou a comprar um absorvente pra mim e eu resolvi trabalhar pra comprar tudo que eu queria

Mentira

Quando você trabalha você fica mais responsável com o dinheiro e não quer gastar com porcaria, você precisa economizar, aluguel, luz, almoço, janta e café da manhã não precisa porque eu tomo no banco

Banco? Você não disse que era professora?

Disse mas antes da faculdade eu trabalhei no Bradesco. O Bradesco pagava tipo 4.000.

Eu saí pra ganhar 400 como professora. Minha mãe chorou. Eu comprei uma mesa e 6 cadeiras pra minha mãe e ela continuou chorando

Era melhor ter ficado no banco, ela dizia. Eu achava melhor ser professora. Era divertido. Tinha que estudar bastante pra dar aula e eu adoro estudar. Tinha mais folga também do que quando trabalhava no banco

A Ana Claudia, que ainda tentava ser atriz, estreou uma peça na Gibiteca Henfil. Eu fui assistir o ensaio da Ana. Li num folheto que o Angeli ia dar uma palestra lá. O Angeli era lindo. Eu fui na palestra para ver o Angeli e ele não foi

Sorte a minha

Quem foi, foi o Lourenço

Eu me apaixonei pelo Lourenço no palco. Sentado entre o Marcatti e o Glauco, o Mattoso, que, 20 anos depois dessa palestra deu esse apartamento pra gente, mas isso é outra história muito mais bonita do que essa que eu estou tentando contar e não consigo

Queria só explicar porque eu não gosto de teatro

A Bel falou que quando a gente explica muito o texto não fica bom

Precisa deixar umas lacunas para que o leitor preencha

Então vou parar de falar

Pra sempre

lucimar-mutarelli

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