Precisamos falar sobre amor(te), por Aline Bei

(Foto via soulemama.com)

(Foto via soulemama.com)

 

A gente estava no hospital com elevador porque

tinha vários andares de gente doente, minha vó

1 delas. Meu pai disse que dessa vez ela ia, não disse chorando,

minha vó

Era velha. Pior perder os pais quando se mora com eles, o meu

viu os irmãos que só se encontravam em situações extremas de felicidade ou

tristeza, mais de

Tristeza ou de contas

pra pagar, quem paga

sempre

é meu Pai.

tô duro, perdi

o emprego, a escola do meu filho tá atrasada

eram umas

das tantas desculpas

pra não colocar a mão

no bolso e meu pai nunca tinha nenhuma.

Quando entramos no quarto da minha avó ela estava normal na cara.

Se não fosse pelo pijaminha azul e pela cama inclinada, eu não diria que ela estava doente.

Minha vó me olhou com os olhos de sempre, fechadinhos de sorriso, uma senhora linda. Fumou a vida inteira e trabalhava como funcionaria pública porque não existia demissão para os funcionários

Públicos, era uma espécie

De trabalho

perpétuo. Eu pensava que Chico Buarque era político, foi ela que me contou do Chico escritor. Minha avó

era Inteligente. Trabalhou em

biblioteca. Quando minha mãe me batia, ela Ficava muda por

dias. Nunca gostou da minha mãe. Gostava de mim e do meu pai. E do cigarro.

E das palavras

cruzadas.

Logo que entrei no quarto, dei-lhe um abraço de engolir cabelo. Meu pai disse:

Oi mãe – naquele tom de como se ela já estivesse morrido.

Chegou a janta, eu dei a sopa

De mandioca pra ela na boca, eu limpava a boca dela devagar

E sentia amor. Poderia cuidar da minha avó pra sempre: nunca sentiria pressa.

A gente riu juntas de uma programada da tarde que passava na tv, meu pai

Mandou eu parar de rir tão alto que aquilo ali não era um parque de diversão, meu deus, era um hospital. Meu pai

carregava a morte. Minha vó

tinha humor. Xingava caralho, porra, já com 70 anos.

Gostava de roupa justa. Usava malha pp. Puxei a pequenez dela. Puxei ela pelo braço, um dia,

Pra perguntar do amor. Falei que gostava de um menino na escola que era tão branco

Tão branco

Que parecia rosa. Eu dividia o lanche com ele. Ela disse:

-Continue dividindo.

Minha avó

morreu 1 dia depois da nossa visita. A sopa de mandioca ainda estava

Dentro dela no enterro, que me foi

Menos marcante do que o dia

anterior no

hospital. Sinceramente do enterro

Mal me lembro, mas toda vez que eu chegava perto do caixão eu

chorava,

O cheiro da madeira era muito forte e eu pensava que se minha vó

Acordasse ali dentro,

ela sofreria muito de se ver numa caixa fechada. Caixão devia ser maior, com mais espaço. Como são as casas, a morte

talvez seja um outro tipo de vida e a gente achando que morte é não sentir.

Quando me juntei com meus primos no velório, ficamos lembrando

das coisas

da vó.

As pulseiras coloridas que usávamos pra acertar nas garrafas e ela

Nem ligava, o telefone

Tocava muito antes da minha vó atender como se

ela

preferisse

que desistissem de

ligar, a Itubaína que ela nos dava no copo de pinga, a gente virava o copo e ficava com a barriga cheia de

gás, o colchão de água da bisa que estava doente, mas o colchão

A gente usava pra pular mais alto e dava uma vontade secreta de

Estourá-lo

com agulha e seria água pela casa inteira, água pra brincar de piscina, quando a bisa morreu

herdamos o colchão e a gente ria

lembrando

Da vó

maravilhosa que tínhamos e os adultos nos dizendo

Chega,

loucos pra nos empurrar a

Morte.

Aline Bei

A busca ou o processo.
(nunca o pronto)

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