Coluna 20: “Canetinhas”, por Lucimar Mutarelli

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Estou fazendo a faxina anual de começo de ano

Aquela que você arruma todas as gavetas, coloca os lápis de cor em ordem cromática e as folhas de sulfite novas na gaveta das novas e aquelas que você usou só um lado na gaveta de papeis de rascunho

No meio da bagunça, minhas canetinhas estavam soltas, perdidas, fora da embalagem

Enquanto arrumava uma por uma, lembrei que meu pai amava usar minhas canetinhas quando eu era criança

É óbvio que ele não guardava no lugar

A noite, quando a minha mãe mandava arrumar o material para o dia seguinte, eu ficava louca da vida se ele tivesse esquecido meu tesouro na imobiliária

É óbvio também que foi ele e a minha mãe que trabalharam para comprar as canetinhas pra mim

O que eu sei é que as canetinhas eram minhas e precisava delas na bolsa da escola, não era mochila. No pré era um saco vermelho que a gente levava só o lanche porque o material ficava na escola. Da primeira a quarta série eu acho que era uma pasta preta também. Não sei se essa lembrança é minha ou do meu marido mas isso, neste momento, não tem importância

O que preciso falar é que meu pai usava as canetinhas para desenhar um monte de pássaros. Pareciam umas emas. Na época eu não dava a mínima importância para aquelas cartolinas, queria era saber das canetinhas

Depois que ele morreu não sei onde os desenhos foram parar. Alguém deve ter perguntado “quem vai querer isso?” e é muito provável que tenha ido pro lixo. Na hora recente da morte, a pessoa está tão viva dentro da gente que não precisa de nenhum objeto para lembrar daquela pessoa. A gente joga tudo fora ou passa pra frente, doa tudo. Tem gente que vende. Eu prefiro doar. Eu e meu marido já tivemos que vender muitos livros, discos e CDs para pagar o aluguel, para comprar comida e todas essas coisas que a gente não ganha de graça

Depois que eu trabalhei na livraria da vila, comecei a ganhar muitos livros e a comprar também porque o desconto para funcionários era muito bom. Então, se eu ganhava, não podia vender. Comecei a dar de presente para toda a minha família e achava que estava agradando. Um dia, sem querer, ouvi um sobrinho brincando: “lá vem a tia lucimar com os livros”. Percebi que talvez estivesse dando os livros para as pessoas erradas e li uma postagem do Ronaldo Bressane e alguém comentou que o facebook não servia pra nada. Foi aí que eu tive a ideia de sortear os livros

Quanto mais a gente dá, mais a gente tem. Quanto mais a gente doa, mais a gente recebe. Eu e meu marido somos assim: quando a gente tem, a gente tem. Quando a gente não tem, precisamos pedir ajuda pra família ou pros amigos. Sempre aparece alguém que ajuda. Sempre alguém tem uma ideia brilhante de projeto

E assim, seguimos

Hoje, eu queria doar as minhas canetinhas para o meu pai porque não sou mais tão egoísta como eu era

Então eu uso e penso nele

Talvez seja uma forma de deixar ele usar também

O meu pai me mimava muito

Hoje eu descobri porque

De alguma forma eu dava uma atenção especial pra ele também

Quando ele pedia para que eu escutasse uma música, ele dizia: presta atenção na história

Todos os dias eu esperava por ele no ponto do ônibus. Nos dias que ele recebia, comprava um chicabon pra mim

Quando meu pai morreu, pedi pra ele que me mandasse um homem bom, honesto, leal, gentil e trabalhador como ele. Cinco meses depois da morte do meu pai conheci meu Lourencinho que era tudo isso e um pouco mais

Meus sogros se tratavam por pai e mãe e depois que meu filho nasceu, nós também passamos a nos chamar assim

Algumas pessoas estranham

Outro dia, a irmã de um amigo comentou: ele não é muito novo para ser pai dela?

Electra explica e o que ela não explica a gente inventa

Meus alunos também deixavam eu usar as canetinhas coloridas deles. Às vezes, eu ganhava algumas de tanto que eu gostava. Até hoje gosto de ganhar qualquer tipo de caneta e caderno porque ainda gosto de escrever a mão

Gosto de escrever no celular e no computador também

A cada dia eu sinto que gosto mais de escrever e compartilhar minhas lembranças e minhas fotos

Sempre que conto uma história, alguém lembra de outra e compartilha comigo e assim vivemos

Trocando, doando ou vendendo, e a vida é isso, viver e trocar histórias, figurinhas e fotos, seja no facebook ou na vida real

Continuamos

lucimar-mutarelli

Confira mais textos de Lucimar Mutarelli clicando aqui

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