Dama do Lodo: “Fitness”, por Marina Filizola

unnamedNão era todo dia que ela acordava disposta, transbordando boa vontade.

– que barulho maldito esse jardineiro atazanando aí fora, tomá no cú viu.

Ninguém esta cem por cento todo dia.

Não mesmo.

Mas não era por isso que ela deixava de seguir metodicamente sua milimétrica

rotina diária. Tipo escovar os dentes e fazer cocô depois do café, esses

hábitos corriqueiros que são automáticos e que não aceitam desculpas, que a

gente faz-fazendo sem pensar.

Eram assim que ela fazia com a academia.

Acordava e ia.

Mesmo não querendo, mesmo com tpm resfriado alergia dor de cabeça pedra no

rim insônia e cistite, mesmo que fosse sábado ou domingo.

Apenas arrastava o corpo, as vezes entrava muda e saía calada. Era a forma que

tinha encontrado de manter a saúde mental. Aprendeu com a mãe que

herdou do vô que não puxou a ninguém pois era um tremendo porra-lôca.

– caramba hein, contratou o jardineiro pra fuder com meu dia? O cara tá cortando grama dentro do meu quarto, ainda tá cantando música sertaneja, é de propósito né?, contratou ele pra acabar com meu humor.

– vai treinar, na volta você tenta conversar de novo.

A mãe sabia do enredo e nem dava retorno aos comentários grosseiros.

Passava longe das metas da dita-cuja virar fisioculturista ou campeã mundial de levantamento de peso. Ou ter bunda alerta, barriga empedrejada e panturrilhas militares. Se isso um dia ao acaso viesse a acontecer, era mera coincidência. Tinha mesmo era gana de se sentir bem consigo mesma. Treinava porque precisava colocar a cabeça em ordem. E sabia principalmente que, nos dias que não queria contato com nenhum ser humano nefasto ou quando acordava pensando em catástrofes mundiais, era prioridade primordial ir. Porque se tudo estava péssimo, ali ela encontrava uma pequena chance de se recolocar no eixo. Essas coisas que as pessoas encontram para retomar a linha de pensamento quando ele desanda, tipo meditar. Ela ia para o fitness e treinava.

Cada um encontra sua forma de se re-conectar. Podia parecer forreca e desculpa de gente paranóica, desses que estabelecem um projeto-verão em dezembro pra não dar vexame de biquíni na praia em janeiro, e acabam morrendo de infarte antes do ano-novo.

Mas não era.

Respeitava seus limites, mesmo que seus limites fossem muito elásticos.

Treinava mais pesado que muito marmanjo. Desses com seios de adolescente, maxilar de Schwarzenegger, e dentes separados a lá Madonna. Era o que mais tinha, ela adorava ficar analisando esse perfil comum: figuras obsessivas pela estética caricata de atletas-químicos que não queriam fazer força para parecer o Popeye. Por esses tinha mais curiosidade do que bode.

Ficava olhando pelo reflexo dos quinhentos espelhos espalhados no ambiente. As pessoas queriam resultados imediatos, ela não se agüentava quando um macho se analisava que nem a Cinderela nos espelho.

– ó esse aí pensando que tá no banheiro da casa dele, vai vendo.

Era coisa impressionante a auto-afirmação que o reflexo trazia para a baixo-estima do povo. Arrumar o topete, checar olheiras, desenterrar a calcinha das nádegas, checar os bíceps, espremer uma espinha na ponta do nariz, abrir as ventas pra checar se as melecas tinham se desalojado da toca. Dentro de uma academia o lado obscuro e as intimidades mais pitorescas dos seres despontavam entre um exercício e uma pausa. E tinha as ilustres vovós-meninas. Essas não possuíam nenhum sensor de bom-senso. Eram despontando o pico apocalíptico da síndrome de Peter-Pan: topete com laquê, decotes avantajados em peitos emborrachados, batom rímel cílios postiços, calças cravadas em glúteos majestosos, argolas de ouro dependuradas nas orelhas.

Escolhiam o personal trainer mais eficiente para uma terapia matutina ideal. As mulheres não paravam de falar. Nitidamente elas não buscavam exercícios, e sim uma vitima que cobrasse a hora para ficar totalmente à disposição e ouvir sem comentar as lamurias desinteressantes que elas despejavam sem dó entre uma serie sem-vontade e quatrocentos caracteres sem-virgulas. Fingiam não notar a cara de bosta do personal que não estava nem aí se a cutícula dela inflamou semana passada e que o marido era um pulha barrigudo, que o filho estava em Nova York fazendo compras pro enxoval do filho que estava pra nascer e que bem ela tinha avisado o filho que não era pra casar que a lacraia não era confiável.

Mas era o trabalho deles. Ganhavam pra satisfazer o ego de gente preguiçosa.

– ah!, coitado do Johnny Bravo, tá com a orelha inchada, olha a outra despejando o drama familiar dela nas costas definidas dele, ô aulinha cara essa aí..

Era o máximo.

Achava que seu dia melhorava assim, só de reparar.

Não usava fones de ouvido tampouco conversava com alguém. Ficava comentando consigo mesma a quantidade de coisa bizarra que passava na sua frente enquanto treinava, as vezes até falava sozinha. Coisas ruins. Tipo:

– que cheiro de peido ao redor desse cara, tá na dieta da proteína, certeza. Essa combinação de batata-doce whey-protein e peito de perú é inconfundível, a confusão intestinal é grande, pelo amor de Deus.

E vez ou outra acontecia do fulano olhar pra trás. E ela não sabia se tinha pensado ou falado. Devia ter falado. E ela ria de ter nascido tão sacana. Mas nesse dia, tinha clareza de que não estava pra amizades.

Quase nunca estava.

Mas tinha vezes que até acenava aqui e ali, sempre de longe.

Não hoje.

Ela queria modificar o pensamento gastar energia e voltar pra casa. Só isso. O problema é que depois de alguns anos treinando no mesmo lugar, o ambiente se torna uma pequena cidade do interior. Todo mundo se conhece de vista, acha que é intimo seu porque as vezes senta num aparelho ao lado e se acha do direito de puxar papo.

– bom dia!

Tinha sempre um velhinho que arriscava um contato. Tinha imã com velhinhos que iam lá para sair do ostracismo. Mas se deixasse, eles desengavetavam assuntos de séculos. Isso se ela fosse jumenta a ponto de abrir a brecha.

Só acenou com a cabeça, nem olhou pro lado. Nem tinha dado o tempo de descanso e já começava outra serie só pra não dar espaço. Seu treino era corrido e sem pausas pra descanso. Desde sempre foi assim. Entrava e saía no mesmo batimento cardíaco.

Então lá estava ela. Com cara de poucos amigos.

Desceu a escada calculando friamente a ordem certa a seguir, os aparelhos que deveria usar em ordem crescente, onde estavam os pesos que precisava, qual era o melhor músculo a ser treinado, onde se localizava a gangue dos malas-sem-alça pra desviar e evitar contato, onde estava a turma da dieta da proteína pra passar distante e evitar um mal-estar de cara. Evitava beijo no rosto. Perguntas descabidas. Assuntos desconcertantes.

– engraçado, esses caras que incomodam sempre andam aglomerados, parece carreata de excursão de japoronga que anda em colônia. Outro dia no shopping dei de cara com eles, acredita?, que coisa bizarra, os figuras andam em bloco, nunca vi.

Não gostava de bloqueios no caminho. Mas tudo dependia do fluxo da academia.

Essa coisa de cuidar da saúde tinha multiplicado os freqüentadores do seu templo de paz. Aquela gente que nunca foi agora ia, e de uma hora pra outra viraram batedores de carteira no estabelecimento. Estavam lá todo dia tumultuando quem nasceu sabendo que saúde acaba. Mas não, pra eles era novidade…

– parece que ontem saiu no Fantástico que musculação melhora a qualidade de vida e no outro dia, estava todo mundo aqui, maldita rede Globo.

Era o que ela achava do “Bum” das academias de uns anos pra cá.

Se a sauna de bactéria estivesse abarrotada de gente como quase sempre estava, não poupava esforços em mudar a ordem dos fatores pra não ficar moscando enquanto esperava um aparelho vagar. Ia pra outro. E se necessário, pulava o treino de costas e ia pro treino de peito. Ou desistia dos glúteos pra tentar a sorte nos abdominais. O que não fazia era esperar. Muito menos fazer rodízio nos aparelhos. Tinha lá na parede um aviso gigante pra quem se fizesse de desentendido:

” Senhores associados

É obrigatório o uso dos equipamentos

Em sistema de rodízio”

Sempre tinha um filho da puta que não arredava o pé do lugar mesmo sendo ameaçado de morte. Dava tumulto não ser solidário. Coisa de clube. E era motivo de chamar o encarregado e situar a pessoa que a falta de generosidade podia gerar advertência e boletim de ocorrência.

Ela não questionava o aviso. Apenas não se incluía naquele bolo. Preferia mudar de aparelho a ter que esperar uma serie preguiçosa de um desconhecido. Por isso fazia super-series, de combinar um exercício com outro sem descanso. Porque se aparecesse alguém, ela não precisava ficar azeda. Apenas continuava no outro exercício. Era discreta sua intolerância com o rodízio. Quase imperceptível.

Quando chegava alguém, ela saía. E não voltava mais.

Já estava pra lá da metade do treino quando viu o garoto cor-parede, um dos poucos que conheciam sua intolerância com tudo, chegando com olheiras verde-musgo.

Ele era sempre curto e grosso e filtrava somente o necessário do dialogo.

Quando chegou a dois metros da fulana se ligou que era um dia ruim. Gente assim vale ouro. Não precisa avisar. Já sabe que você esta num dia de bosta.

– e aí, pela cara nem vou cumprimentar, da até medo. Bom treino hein. Não mata ninguém.

Ponto pra ele. Gostava do sujeito. Era tão instável quanto ela. Tinha dias que ele falava que nem metralhadora sobre a insônia o corte da Vodca e do chefe escroto que tinha que aturar. Falava tão rápido que resumia o dia numa única frase:

– não durmi direito minha mulher não deu pra mim não tomei a Vodca e tô com dor de cabeça do mesmo jeito. Ainda mandei meu chefe tomar no cú porque sem álcool no sangue não penso direito. Vou treinar que passa.

E vazava.

Ela nem virava o pescoço, ele não se incomodava. Vomitava as pérolas porque sabia que podia falar só com ela aquele tipo de assunto. E sumia. Ela se identificava com ele. Louco se entende com louco.

Quando estava nos finalmentes do treino sentou na cadeira dos abdominais. Foi quando percebeu que o ultimo usuário tinha deixado um poça de suor na cadeira que ela tinha, despercebida da armadilha, acabado de secar com a roupa do corpo.

– ah, que coisa porca, que maldito asqueroso, que grande filho da puta!

Falou alto o suficiente pra cena toda congelar por três segundos. Todo mundo olhou. Ninguém assumiu o crime. Ninguém era louco de assumir que tinha se desfeito naquela cadeira e nem se deu ao trabalho de passar um pano naquela água morna e gelatinosa. Logo apareceu um instrutor para tentar entender os motivos da praga que ela tinha rogado.

– sentiu as costas? Essa maquina precisa tomar cuidado, se não travar a lombar desanda mesmo com a coluna.

– porra nenhuma, algum porco desgraçado não limpou o aparelho. Dai a otária aqui se encarregou de enxugar com a costas, olha isso, olha que merda, tô ensopada de resíduos de algum pestilento, que cheiro azedo, ô nojo! Aviso de
“limpem a bosta do aparelho depois de usar” não tem em letras garrafais, mas “senhor otário-sócio, faça rodízio dos aparelhos com os velhinho tagarelas e estrague com seu humor pro resto do dia” tem, né?

O instrutor nem respondeu. Entrou na sala da gerência e foi com certeza reivindicar que puxassem nas câmeras os detalhes da ocorrência pra tomar alguma providencia, fornecer uma toalha pro cretino que estava desaguando.

Acabou por ali a fina fatia de humor que ainda restava.

Era hora de partir.

Quando foi passar pela catraca deu de cara com a amiga tatuada, a única do clube inteiro de quem era intima. Sempre que estavam na bosta elas se ligavam, praguejavam maldições e tentavam buscar soluções que não fosse um assassinato para resolver seus problemas conjugais. Elas tentavam alternar os dias com vontade de morrer. Não dava para as duas estarem no mesmo dia na mesma lama. Uma tinha que estar mais centrada.

– e aí, tudo bem?

– não me beija, tô suada.

– foda-se, da um abraço aqui.

Eram amigas de verdade. Amigas de hora ruim, quando todo mundo pula fora, elas insistiam: ficavam lado-a-lado. Um tipo de cumplicidade raro. Ninguém quer segurar o rojão de ninguém. Elas não. Estavam ali pro que der e vier.

– qual a boa?

– a bosta de sempre, não agüento mais, mesmo, tô no meu limite, não tô dando conta.

– qual foi, o macho de novo?

– tudo. Meu ex-marido que é um bosta. Mandei o moleque zoado pra casa dele pra repousar, nem mandei lição de casa nem nada, e adivinha?, o menino não descansou, voltou pior, direto pro hospital, puta trampo, vontade de matar o cretino. Agora apareceu uma íngua do tamanho de um limão na minha virilha e um bagulho indecifrável no meu rabo que pelo-amor-de-deus, tô indo no medico hoje a tarde ver o que é, serio, não tô dando conta. Ainda meu namorado fica me exuzando em vez de ajudar, vou mandar tomar no cú colega, geladeira cheia em casa e o cara pagando de playboy, que quer isso quer aquilo quer torrar meu saco, quero morrer, isso sim, não tô conseguindo..

– vai treinar, fica melhor.

– vim por isso minha filha, vou treinar senão explodo. E espero que ninguém atravesse meu caminho, senão já viu, não tô podendo hoje.

Era isso.

Uma ia embora e a sósia ficava no lugar.

– cuidado com o suor nos aparelhos viu, que hoje tá foda colega.

marinafilizola

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