Dama do Lodo: “Aceita que dói menos”, por Marina Filizola

unnamedAs onze e cinqüenta e nove de sexta-feira eu pressinto meu sábado dando o primeiro sinal de vida.

As pessoas contam os dias da semana pra chegar sabadão e dar aquela esticada na preguiça, dormir de madrugada comendo pizza com guaraná, fazer um sexo lunar com direito á fetiches cinta-liga chicote e chantilly. E esperam as festa de sábado a noite, a cerveja do sábado a tarde, aquela estupidamente gelada e que eu não sei o gosto faz tempo, tomam o café da manhã de hotel com direito a ovos bacon suco capuccino e três opções de bolo, comem o pastel engordurado na Benedito Calixto acompanhado de um chorinho da velha guarda e algumas pisadas no peito do pé.

Mulheres passeiam pelas lojas, compram o que não precisam, marcam de fazer unhas cabelo e depilação na virilha.

As pessoas descansam. Sábado é dia de jogar o pé pra cima, de ligar a tecla do Foda-se. Nem preciso dizer que não me enquadro nesse bloco-feliz. Meia noite em ponto o moleque acorda desnorteado pra dar uma mamada deliciosa, com direito a olhinhos fechados e carinho no meu cabelo forrado de nó. É muita ternura num pedaço tão pequeno de gente. Dormindo é um anjo, acordado ele derruba a casa. Então eu insisto em duas mamadeiras seguidas pro moleque ficar empanzinado de leite e me deixar dormir em paz. Depois de um ano e meio sem noites inteiras, quatro horas seguidas de sono é motivo de comemoração. Na hora que eu ponho ele pra dormir, me lanço na minha cama de tênis e tudo. Cada minuto é precioso. Não quero saber de filme de pipoca de sexo de festinha balada happy-hour, de “como foi seu dia”, não quero saber de porra nenhuma.

Eu só quero dormir. Esse tipo de coisa que a gente aprende no tapa, depois de achar que da pra fazer alguma coisa enquanto criança dorme. Não dá. Eu tenho que manter minha saúde mental equilibrada, não posso me dar ao luxo de estar exausta no dia seguinte. O moleque depende única e exclusivamente da minha boa-vontade. E se o sono atrasa e o mau-humor expande dentro do meu ser, acaba sobrando uns trancos pro pivete, que não entende a procedência de tanta bronca aleatória. Minha qualidade do sono reflete a qualidade dos cuidados que vou ter com ele. E ponto.

Aceita que dói menos. Eu tinha escutado isso algumas vezes, mas agora entendo o significado real dessa frase de merda.Sete horas da manha do santo sábado o moleque esta de pé gritando de felicidade. Não existe mais dormir até as onze nem vai existir por um bom tempo. Claro que estou sozinha nessa barca. O maridão que trabalhou a semana inteira, que acordou muito cedo o foi dormir muito tarde merece um dia de descanso, pelo menos é o que ele acha. Eu não sei exatamente que parte da história ele pulou, mas se esqueceu que eu também sou filha de deus. Que também acordo com as galinhas todos os dias, incluíndo sábado domingo feriados e ano-novo, que trabalho que nem mula dentro de casa, e não tem trabalho mais exaustivo que esse.

Cuidar de moleque é foda, não da pra arrancar a bateria desligar o brinquedo e trancar no armário. Simplesmente não da. É muita função. E durante o sono da manha e a pestana da tarde não vai pensando que eu tiro um cochilo de bunda descoberta assistindo Sex and The City.

Não mesmo. Eu tenho que escrever textos lavar roupas esfregar louça preparar comida, arrumar brinquedos cuidar dos cachorros pagar conta no banco varrer a sala e escrever de novo, ligar na dermatologista marcar dentista falar com a advogada fazer sacolão, colocar o carro pra lavar comprar fraldas ensaboar o carrinho todo vomitado tentar tomar

um banho e por fim, escrever. Isso em tempo recorde, claro, porque a criança tira cochilos de meia hora e olhe lá. Por muito tempo eu quis debater com meu respectivo sobre esse desajuste surreal entre nossas necessidades, que promovia em mim crises de fúria catastróficas e que me rendeu comentários maliciosos da parte que acha que é protegida por deus, do tipo:

– acho melhor você voltar a tomar remédio, não acha?, gente bipolar não tem cura.

Imagina minha cara ao escutar esse despautério.

Tempos depois aceitei de uma vez por todas que homem pensa com a cabeça do pinto, e que não adianta tentar um dialogo. De novo vinha aquela frase nebulosa que me persegue:

Aceita que dói menos.

Dói menos mesmo. Decidi não contar mais com a ajuda alheia ou com algum tipo de consideração, então arregacei as mangas e vi realmente que é mais fácil tocar a carreata sozinha sem esperar cooperação. É muito desgastante bater na mesma tecla todo dia durante um ano. Eu abri mão. Deixei de acreditar que num dia iluminado, por um milagre divino eu abriria os olhos e ouviria uma sentença confortante:

– descansa amor, pode dormir, eu cuido do bebe, pode deixar.

Por favor, isso nunca aconteceu nem vai acontecer.

Cai na real mulher!

O que eu faço de vez em quando é entrar no carro e sair de cena. Nem quero saber se o outro esta com sono com depressão com pintite-aguda. Eu sumo do mapa e volto fim de tarde. Como não da pra argumentar, desligo o telefone e vou cuidar de mim. Ele que se vire com a criança, que troque as fraldas faça almoço dê banho leve na pracinha, que se enfie na casa da mãe pra ela fazer o trabalho braçal por ele. Porque homem é um bicho folgado, não segura o rojão sozinho. Não tô nem aí. Contanto que me deixe em paz.

Expectativa é uma merda, ela traz angustia. Mas quando você elimina a expectativa do caderninho de emoções, acabou o problema. Se perder a vontade de argumentar porque sabe que não vai dar em nada é bom ou ruim não vem ao caso. Só sei que foi assim que aconteceu comigo depois que quase tive um colapso-nervoso.

Então já era sábado de manhã, o menino acordou, dei café da manha, enfiei uma banana na minha goela pra dizer que eu tinha tomado o café da manha de hotel do sábado e resolvi chamar a pessoa que hibernava para irmos juntos na praça.

– meu deus, mas ainda é madrugada, fecha a janela caralho, fui dormir três da manhã..

– foi porque quis né, não dormiu cedo porque? Levanta a bunda vai, vem fazer companhia pra gente pelo menos de sábado porra, tomar no cu né…

É um tipo de “bom dia!” que eu não desejo pra ninguém.

Na pracinha as outras mães já estavam de plantão, alguns pais acompanhados de babá

pois com a certeza a esposa tinha fugido pra algum spa com o amante. O menino brincando no cercado de areia já tinha feito amizade com um comparsa alguns meses mais novo. A mãe do novato marcando território ao redor da cria indefesa. Foi nessa brecha que meu delinqüente resolveu fazer carinho no amiguinho. Carinho de criança é coisa suspeita, pro afago virar um safanão, pro beijinho no rosto virar mordida é coisa de
meio segundo.

E foi bem isso que aconteceu.

Na segunda alisada que meu monstrinho de na cabeça do pimpolho eu vi dois chifrinhos despontarem no topo da cabeça dele. Abriu a mão encardida e meteu um safanão certeiro no cocuruto do Zé fraldinha. A mãe que rodeava a cria que nem galinha com pintinho novo deu um pulo de meio metro e logo foi checar pra ver se a moleira do filhote estava no lugar. Nesse caso nem se eu pedisse mil desculpas ela mudaria a feição de terror. Ali acabou a pracinha pra minha prole. Peguei meu pivete no colo, conversei com ele dizendo que aquela atitude era horrorosa e ele me distribuiu um tapão certeiro bem no meio da fuça. Daí a casa dele caiu. Ele se ligou que meu olho encheu de sangue e saiu correndo pelo jardim, eu agarrei pelas pernas e o maridão olhando espantando aquela cena de perseguição pitoresca.

– dá pra ajudar ou vai ficar assistindo minha desgraça de camarote?!

O moleque se debatia, parecia que estava indo pro matadouro. Tomei chute tapa arranhão e mordida. Quando já estava amordaçado no carrinho percebi que o fedelho tinha pisado em alguma coisa suspeita. Que era mais mole que barro mais marron-fezes que marron-terra.

– não pode ser!

Cheirei minha mão. Era barro? Meu deus. Espalhado da minha roupa espatifado no encosto do carrinho chamuscado no meu pescoço respingado no cabelo, em tudo.

– não! Isso é merda? Cheira aí!

– nem a pau! É merda.

– não. É barro, me diz que é barro.

– marron claro desse jeito? Aceita que dói menos.

Saí da pracinha literalmente enfezada. Era bosta pra todo lado. Alguma coisa nos meus sentidos tinha adormecido por alguns instantes pra dar conta da minha negação do marron-fezes, mas em poucos minutos meu olfato voltou a ter vida e a catinga se expandiu igual cheiro de cheetos-bolinha sabor queijo. Parecia que tinha uma fralda suja presa na minha nuca.

Arranquei as meias do trombadinha e limpei a confusão com ela do jeito que dava, pelo menos a camada de rastro em maior evidencia consegui tirar. A meia foi pro lixo ali mesmo. E o crocs foi pro saquinho de pegar bosta de cachorro que distribuíam na praça: material químico.

Não pense que eu cheguei em casa e tomei banho.

O moleque já dormia e foi direto pro quarto. E eu direto pro tanque esfregar o sapato sorteado. Eu não sei quem inventou aquela sola cheia de curvinhas e buraquinhos, mas me deu uma raiva danada ter que pegar um palito de sorvete pra limpar aquela desgraça.

Não tem coisa mais nojenta do que ficar remexendo bosta de cachorro com palito.

Mas eu tinha escolha? Jogar no lixo um mini-tênis de cem paus só se eu cagasse dólar.

Do tanque fui dirigir o fogão. Eu devia ter menos de quarenta minutos pra dar conta do almoço. Quando a gente tem homem em casa uma saladinha com atum não dá conta do recado. Homem é bicho esganado, tem uma maquinaria grande pra arrastar. Precisa de arroz feijão bife purê, macarrão a bolonhesa e frango no forno. É um massacre ter que cozinhar pra um pelotão todo dia. De vez em quando ainda vai, é um prazer tirar um dia e se fantasiar de dona de casa. Mas todo dia me faz o favor, é uma situação torturante. Quando eu escuto a palavra casamento minha crista arrepia. Será que precisa? Será que eu tenho estrutura pra bancar esse tipo de relação? Sinceramente, acho que não. A rotina vai fuder com meu esquema, aí o relacionamento fica com prazo de validade de produtos orgânicos. Se de fim de semana eu já não agüento, de segunda a segunda vai ser a cota pra eu perder o juízo de uma vez por todas. Essa coisa de arroz com feijão todo dia extermina minha vontade de uma vida conjugal.

Quando a marmita ficou pronta, pensei: cacete, vou almoçar antes do moleque acordar e se der sorte, ainda arranco essa catinga espalhada pelo corpo. Mas o moleque acordou e meu sonho acabou. Sentamos á mesa, um alegre almoço de sábado: eu completamente esbosteada dando comida pro menino, o machão devorando o rango com todos os ingredientes do mundo menos o condimento mais precioso: amor. Dizem que comida de mãe tem esse tempero especial. Não o meu. O meu tem cansaço tem fome tem bosta salpicada, mas amor, na boa…amor não achei na geladeira. Almocei o que sobrou do prato do guri e me dei por satisfeita. Fome áquela altura da competição era a única coisa que eu não tinha.

E daí quando eu penso que vou tomar banho…

– amor, tô entrando no banho tá? Tira a roupa do moleque e traz ele pra mim.

Quando eu acho que vai dar pra respirar, acontecem mais surpresas. Uma coisa é você tirar a roupa do menino, arrancar a fralda, encher a banheira de água, lavar a bunda suja dele, ensaboar o cabelo, cantar música, secar o menino, esvaziar a banheira, enxugar o cabelo, secar a virilha, dependurar a toalha , passar pomada, cortar as unhas, vestir fralda limpa, escolher uma roupa, vestir essa roupinha no meio de ponta pé, calçar as botinhas tomando soco no nariz, e pronto. Banho finalizado.

Outra coisa é você entrar no banho, receber o Zé Coisinho pelado nas mãos, passar um sabonete na bunda dele e cinco minutos depois gritar:

– amooooor, acabou o banho, vem buscar que tá pronto!

Isso pra mim não é dar banho. Isso pra mim é falta de semancol. Dar banho é um processo que inclui desde tirar roupas a vestir ela novamente. Passar água na bunda e gritar pra alguém vir buscar é palhaçada. Realmente fico injuriada com esse tipo de ajuda.

Porque não ajuda em nada. Mas vai tentar argumentar pra ver o que cansa mais.

Entendeu a lógica da coisa? Eu não tenho mais pavio pra isso.

Depois do banho, era hora do rolê de sábado a tarde. Primeira parada: Alô Bebê. É isso que sobrou pra mim. O bico das mamadeiras esburacados, os cabides que faltavam, não deu durante a semana, então chora papai.

Nesse meio segundo entre o banho e a saída mais uma surpresa agradável de sábado a tarde: me aparece meu irmão e a penca de filhos pra dar aquele rolê de bicicleta que mais me parecia obrigação do que prazer pela cara de enterro dele. Tem isso também: os filhos vão crescendo e as pentelhações só se deslocam no tempo. Todo sábado a tarde ele aparece pra pegar as bicicletas, todo sábado à tarde ele esta injuriado. Ele também devia querer esticar o pé pra cima abrir uma gelada e assistir futebol. Mas com filho camarada, pode esquecer. Mas nesse dia tinha acontecido uma fatalidade: as bicicletas estavam trancadas com cadeado. Escutei as maldições sendo rogadas em alto e bom som do jardim.

– não acredito, quem foi o jumento o infeliz o arrombado que trancou essa merda com cadeado?

E daí ouvi meu nome sendo aclamado.

Apareci de toalha.

– nem adianta olhar pra mim mano, eu nunca ando com essa merda, nunca andei, tá vendo cadeira de criança presa no guidão?, não né?, então nem vem descontar sua frustração em mim, meu cú dessa vez não tá na reta, liga pro responsável…

Que no caso, era a outra irmã. Que tinha trancado de propósito as magrelas, por conta de um desaparecimento misterioso de uma bicicleta dela que ninguém se apresentou para assumir o crime mas que ela deduziu que só poderia ter sido ele, afinal, só eles andavam com aquela merda, só eles tinham adolescentes e portanto, de sábado, essa função estava inclusa obrigatoriamente no programa dele. Então, fina e elegante, ela passou cadeado em tudo.

Achou que tinha resolvido o problema. Coitada…

– cadê a marreta?

Ouvi o barulho de arrombamento.

Dez minutos depois ele já tinha vazado.

– e vou levar as bicicletas dessa otária pra casa. Avisa que fui eu.

Sábado promete.

E lá estávamos nós, na loja das famílias desesperadas.

Parece que a minha realidade era a mesma que a de centenas de famílias, porque quando cheguei na loja, parecia o mercadão de pinheiros. Tinha gente saindo pelo ladrão.

Meu marido de cara, cantou a bola:

– vamo embora desse inferno mulher, olha isso.

Mas eu racionalizo as coisa.

– nem fudendo, depois eu tenho que vir sozinha com o bacalhau aqui nessa joça. Pelo menos não preciso ficar com ele dependurado no meu pescoço, se atirando nas prateleiras, cadê o moleque? Meu deus homem, você já perdeu o pestinha!

Ele saiu correndo pra um lado. Eu pra outro.

Peguei bicos de silicone, cabides da galinha pintadinha, trava de armário da cozinha porque não dava pra cozinhar enquanto meu assistente jogava toda a louça no chão. É de dar desespero.

Na fila foi que minha ficha caiu.

– oi mocinha, por favor, tem fila preferencial? Tô com criança de colo e gravida de dois meses, tem como você me ajudar?

Essa mentira da gravidez eu uso sempre. Bobeou, eu tô gravida.

– todo mundo aqui é prioridade senhora, lamento. Só tem criança e gestante aqui, reparou?

Vaca. Na boa. Aceita que dói menos.

– vambora desse antro de gestante, vamo logo que essa coisa de ter barriga contagia.

– deus me livre.

E esse foi o primeiro comentário racional do meu marido. Nisso a gente estava de acordo: mais um e eu me internava num hospício.

Já era fim de tarde e o sábado estava acabando. Não deu pra fazer nada, como sempre.

Então nossa ultima esperança era pegar uma reunião no narcóticos anônimos, o clube de loucos mais cotado de São Paulo, pra não cair na tentação de sentar num boteco e pedir dois rabos de galo e um papelote de cocaína pra aliviar o desespero de não ter mais-fim-de semana. O que a gente tem é uma eterna continuação de Segunda. E é melhor aceitar que dói bem menos.

Na reunião o de sempre. Gente depressiva louca compulsiva paranóica tarada obsessiva, gente com vontade de morrer de viver de sumir de matar. Gente com tique com toque tendo ataque. Gente como a gente. O fedelho vai lá desde que nasceu. Mas depois que começou a andar e ter vontade própria, da sala inteira, ele despontando é o pior de todos.

E tem mais: ele descobriu o bebedor, que fica no canto esquerdo da sala, e que tem duas válvulas que cospem água exatamente na altura dele. Sabe o que acontece quando eu chego na reunião? Viro guarda-costas de bebedor. E sabe o que acontece quando eu faço uma barreira no caminho? Ele grita. E sabe o que acontece depois de cinco minutos que eu chego na sala? Tenho que ir embora porque ninguém consegue escutar o próprio pensamento com um mini-adicto tocando o terror. Vou no grupo me tratar e saio de lá desequilibrada no volume máximo.

Quando eu penso que em breve ele vai pra escolinha só me vem dois nomes na cabeça: berçário Carandiruzinho ou escolinha preparatória Fundação Casa. Disso pra baixo. O menino teve a quem puxar. A genética não perdôa.

Dai a gente desce pra fumar um cigarro, pra relaxar, e vê do outro lado da rua, a menos de dez metros, o descolado happy-hour da galera que não é doente da cabeça, que não precisa de reunião pra pensar direito, que tem o sábado todo pela frente. É o choque de realidades mais bizarra de são Paulo. De uma lado da calçada só dependente químico corroído, do outro é só garrafa de champanhe. É uma maravilha saber que sua vida é uma bosta, que você é um imprestável, e que nem drogas você soube usar direito. E sábado vai fechando com chave de ouro.

– chega, vamos pra casa, tô só o pó.

– pára no pão de açúcar pra comprar um pãozinho vai, não tenho condições psicológicas de umbigar um fogão a essa altura do meu sábado.

Não sei quem foi o infeliz que inventou o slogan “lugar de gente feliz”. O pão de açúcar é tudo, menos lugar de gente feliz. Ainda mais sábado a noite. Gente saindo pelo ladrão, carrinho dando entrada no joelho, preços fora da realidade, todo mundo do planeta esta lá comprando as últimos ingredientes que faltam pra aproveitar um desesperado sábado a noite que vai virar domingo em algumas horas. O tempo está contando e todo mundo se atropelando. Eu só queria pão. E o pão estava lá desde as seis da tarde. Murcho. Triste.

Alguns mais morenos que o normal. Aquela casca que fura o céu da boca, aquele miolo virando polvilho. E a fila no caixa. Essa sim de desandar com o esquema de qualquer balada. Eu fico me perguntando pra quê caixa-rápido se tem quatro maquinas registradores e só uma coitada atendendo todo mundo. É a maior fila de todas. Eu vi que não ia dar jogo ficar ali. Então usei minha arma secreta: sou gestante. E toquei pra fila preferencial. Nessa sim, uma velhinha caquética e eu. A mocinha da caixa registradora só me deu aquela filmada de cima abaixo e sacou o aviso que estava decorado propositalmente num tom sarcástico.

– aqui é preferencial senhora.

– sou gestante.

Eu vi que a petulante não esboçou sentimento.

– que foi, não parece? Então vai me dizer que aqui, no lugar de gente feliz, também é uma exigência andar com ultrassom na bolsa. Chama a gerente.

Em mentira sou boa. Acredito tanto nas minhas mentiras que elas acabam virando verdade. Nem chamou a gerente. Deve ter lembrado que uma mulher gravida, com os hormônios á flor da pele, é capaz de chamar o PROCOM pra garantir seus direitos.

– é querida, aceita que dói menos.

Em casa o de sempre. Comida pro moleque, migalhas pra mim, a ceia estava feita.

Me lancei na cama, nem cobertor nem pijama, nada.

Deu cinco minutos o marido sonâmbulo me chama afobado.

– ô, levanta, vem ver, maior barraco aqui na porta, o seu policia parou um carro bem aqui na frente e tá dando maior geral nos félasdaputa, será que é ladrão?

– sei lá.

Os dois debruçado em frente á câmera de segurança no meio da sala.

– é uma mina?

– não, dois caras.

– não, é uma mulher sim, o cara dando um pente fino na bolsa dela, que coisa hein. Que será que aconteceu?

– ah, deve ser nada, deviam ter parado o carro aqui na frente pra esticar uma carreira, a barca passou caçando assunto em bairro de gente rica, deu sirene, o cara teve um ataque cardíaco e sem querer pisou no acelerador, aí já viu..

– será?

– sei lá, tô só especulando..

– ah..

E foi essa a parte mais animada do nosso sábado. Ficamos ali, de mãos dadas, trocando idéias absurdas, abduzidos pela tela da segurança.

Onze e cinqüenta e nove.

E lá se foi nosso sábado.

Com direito á cena de filme policial e tudo.

Não dá pra dizer que não foi um dia animado.

marinafilizola

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