Coluna 22: “A poderosa chefona”, por Lucimar Mutarelli

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Um dos meus professores de roteiro mandou a gente assistir os primeiros quinze minutos do Poderoso Chefão (parte 1). Não, não pediu. Ele mandou mesmo

Eu sou professora e entendo perfeitamente quando um professor manda a gente fazer alguma coisa, quer dizer que ele sabe o que está fazendo. Quer dizer, nem sempre

Tenho muitos amigos que ainda são professores porque não tem coragem de pedir as contas ou se julgam incapazes de tentar outra coisa ou porque se acomodaram ou porque tá bom assim e a gente vai levando e faltam só cinco anos para a aposentadoria e esse texto não é pra falar de bons ou maus professores

Na minha família, o chefão morreu quando eu era muito jovem, estava começando a viver os meus 20 anos e já sabia tudo

Saí da casa dos meus pais assim que fiz 18 porque o trabalho e o cursinho eram muito longe de casa. Eu deitava a meia noite e levantava as 5

Voltei aos 21. No segundo ano da faculdade de Educação Artística consegui meu primeiro trabalho na minha primeira escolha profissional: Professora

– Pedro Moreira Matos, boa noite!

Nas aulas vagas, ajudava a secretária atendendo o telefone e fazendo pequenas tarefas de escritório

Foi durante uma dessas aulas que senti vontade de ligar para alguém. Procurei no índice da agenda da letra A à letra Z e não havia ninguém naquela lista que eu quisesse falar naquele momento

Lembrei de um cara que eu conheci numa palestra sobre História em Quadrinhos e liguei. Ele disse que também estava ao lado do telefone e queria falar com alguém e o telefone tocou e era eu e a gente casou e tem um filho de 19 anos. Mas ainda não chegou a hora de contar essa história

O que eu pensei agora é que o cara tinha sobrenome italiano e meu filho é chamado de Francis pelo padrinho dele e

Foco. Voltando

Depois que o meu pai morreu, a minha mãe virou a grande chefona da família, quer dizer, ela já era mas fingia pro meu pai que era ele, coisas que só uma mulher pode entender

– o filho é que procura o pai

– o mais novo fica quieto quando o mais velho fala

– estou com vontade de comer uma coisa mas não sei o que é

– angu a gente come pelas beiradas (parece óbvia mas eu já vi gente mexer o mingau para esfriar mais rápido)

– não vai pedir comida na casa dos outros (essa eu nunca obedeci porque até hoje eu peço comida na casa dos outros)

– se a professora falar uma coisinha você vai ver (você vai ver era o chinelo queimando na minha bunda, na perna ou nas costas, dependia da pontaria e do tamanho da raiva)

– eu não vou ajudar a cuidar do filho de ninguém

– não abre a geladeira com cabelo molhado

– não anda descalça porque esse chão tá frio

– toma o chá que passa

– cala a boca, menina! Você não sabe o que tá falando

– esse Silvio Santos tá gagá, eu não gosto mais dele (1994 ou 95)

– essas novelas nenhuma presta (1990, tirando da novela da Globo para assistir Pantanal)

– tô esperando vocês ir embora pra jogar um pouquinho

– joga escondido, Dona Maria

– ai, esse Lourenço…

– político nenhum presta, eles ficam com essa conversinha e depois das eleições é tudo igual (1989)

– Dona Maria, eu não tô brincando. A senhora é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheço

Ela ria, cobrindo a boca e repetia:

– ai, esse Lourenço…

Minha mãe não foi à escola. Quando aprendi a ler e a escrever, tentei ensina-la usando meu caderninho de caligrafia. Ela recusava. Dizia que não tinha tempo. Passava o dia na máquina, na feira, no Brás, no bingo, preocupada com o jogo do bicho ou em pé, na cozinha

Aos domingos, o almoço era feito com uma garrafa de vinho Natal na pia, ao lado do fogão. Enquanto ela dava um gole, eu dava dois. Meu primeiro porre, 11 anos (1980)

Até hoje eu adoro vinho Natal, não me importa o que os entendidos dizem

Outra máxima da Dona Maria: vai, some, me dá um pouco de sossego. Mas depois não volta chorando que eu não vou acudir ninguém e a melhor de todas quando terminei a oitava série foi: chega! Você já estudou bastante. Estuda tanto e não tem educação em casa e, só mais uma, em 1991, eu com 22 anos, querendo sair com meu namorado de sangue italiano: vai mas só depois de limpar a casa, lavar a louça, o quintal e limpar os vidros. Tem que deixar tudo bem limpinho

Eu obedecia imitando a Cinderela

Outro dia, meu Lourencinho estava contando que até ele entrava na dança:

– eu limpei muito esse chão

A história dela eu não posso contar porque todas as vezes que eu perguntava ela dizia: era uma vida triste demais, não gosto de lembrar porque me emociono muito

Que pena, Dona Maria

Eu queria saber tudo

Então, caro amiguinho, você que tem pai e mãe corram para pedir a benção dos seus padrinhos e gravem tudo que eles tem pra falar. Usem seus celulares e saiam da internet no próximo almoço da família ou cabeças podem rolar ou um cavalo pode aparecer morto na sua cama

A gente pode não saber o dia de amanhã mas a gente vai ficar sabendo como foi o de ontem e o antonte, como a Dona Maria falava e esta é a lição da aula de hoje

Aprende só quem está prestando atenção

Aprende quem decora

Não feito um bobo que só repete e imita o outro

Decorar é aprender com o coração

Mentira

Faz o que você quiser

Se tivesse whatsap, facebook, email ou telefone quando eu era jovem, não teria feito nada do que eu fiz

Mentira

A gente faz o que a gente quer, sempre, não porque alguém mandou. Quando a gente quer mesmo, de verdade, a gente vai lá e faz. Fácil assim. Mais uma das falas da Dona Maria

Na semana do dia das mães, correu no facebook várias homenagens para as mães e a mais terrível de todas foi uma seleção de frases famosas que elas dizem:

“você quer ficar sozinho no quarto escuro?”

“vou te prender no banheiro”

“quando chegar em casa, você vai ver”

“você quer que eu vá até aí?”

Leio essas ameaças e me policio. Será que já soltei alguma dessas para o meu filho? Porque a gente conversa e ele me ensina: “Seja a mãe que você é. Sem querer repetir um modelo”. Meu filho, meu mestre, todo dia me ensina a ser menos egoísta menos preconceituosa menos careta. Mas, olha, é muito difícil, menino. “um dia, você ainda vai passar por isso” é outro lugar comum que eu repito

Tem alguns mantras de mãe que soam como ameaças: “você ainda vai ter um filho”

No cartório onde casei, a ordem dos sobrenomes no registro era: nome da mãe, do pai e, por último, do marido

Antes de ser uma Mutarelli, eu sou uma Ribeiro e antes ainda, sou Souza e, através desses textos, venho tentando entender o que isso quer dizer

Meu filho também já pediu para acrescentar o Souza Ribeiro. Sabe tudo. Mesmo quando não parece, ele está sempre atento e de olho e aprendendo e ensinando e cuidando de mim…um milhão de corações para o meu bebê

Ouve até as mesmas coisas que falava a Dona Maria mas agora na voz da Lucimarzinha. Era assim que minha mãe falava quando uma sobrinha fazia birra:

– Parece a Lucimarzinha!

Tá tudo no sangue mesmo, Dona Maria! Você sabia tudo. Sem livro sem escola sem professor. Quase tudo que eu te contrariava, te repito hoje

Muito, muito obrigada por não ter me esganado na hora do parto. Outra máxima que você repetia quando a gente não combinava em nada e eu saía de casa para depois voltar chorando arrependida até a próxima festa até a próxima surra até a próxima desobediência

Mas isso foi só na adolescência

Depois que eu voltei a morar com os meus pais sozinha, eu já era outra, tentando virar adulta, estudante e professora, virei filha única e passei a aproveitar melhor a companhia deles e minha mãe ficou do meu lado e fazia chá e cuidava de mim nas noites desesperadas que eu chorava sozinha ou bebia o resto do vinho por falta de companhia e eu perdi o meu pai e era ela quem me dava força e eu pedi ao meu pai um homem bom, honesto, parceiro e inteligente e meu pai me deu muito mais do que isso, me deu Lourenço que me deu Francisco que me fez uma pessoa completamente diferente e a relação com a minha mãe mudou. Até dinheiro eu dava pra ela poder jogar tranquila. Ela ficava feliz e isso é o que importa, ver sua mãe feliz na terra ou no céu, no seu sangue nas suas palavras tortas mas sempre dentro de você

lucimar-mutarelli

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