OSSOS DO OFÍDIO: Como (não) fazer uma boa redação, por Marcelino Freire

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Redação merece zero.
Toda redação devia repetir de ano. Ficar de castigo. Redação tinha de ajoelhar no milho. Redação nunca diz o que pensa. Redação é o ganha-pão dos cursinhos.

Redação gosta de palavra difícil. Adora conjunções. Portanto, entretanto, pois, mas, porém, todavia, ao passo que.

Redação faz um garoto de 16 anos colocar gravata na hora de escrever. Faz qualquer idiota falar difícil.

Redação não tem estilo. Redação devia ser proibida. Prejudica a leitura. Mata a nossa Língua. Redação não ajuda a coitada da nossa literatura.

Ela atrofia o crescimento. Redação não conversa com ninguém. Não comunica. É esnobe. Redação é metida a besta. Mesmo pobre, ela se acha rica.

Um dia, candidatar-se-á a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Redação adora uma mesóclise, uma ênclise, uma próclise, mesmo sem saber usar.

Redação é um porre. Redação faz a gente odiar Machado de Assis. Faz a gente não entender por que danado existe a poesia.

Redação não é lugar de poesia. Redação só gosta de conclusão. Introdução, desenvolvimento. Redação sofre de falta de assunto. A contar pelos temas que ela aborda. Toda redação é falsa. Diz que é democrática, mas é demagógica.

Redação é pós-graduada em chatice. Só ela se acha a dona da razão. Redação é a favor da ditadura. Elimina. Tortura adolescentes. Põe banca e discursa. Redação faz todo mundo falar a mesma coisa. Redação é chapada. Não tem originalidade. Não ouve a multidão.

Não aguenta humilhação. Redação, na verdade, humilha. Deixa todo mundo analfabeto. Não esclarece. Não muda de opinião. Não pensa no futuro. Está no passado. Atrasa ainda mais a educação.

Redação está longe do povo. Nunca sentiu fome. Nunca comeu miojo. Gosta de falar grosso. Sente nojo. Redação está sempre no olimpo. Redação pratica bullying. Não chega junto em sala de aula. Não se enturma. Não gosta de samba, nem de feijoada. Não vê futebol. Exige respeito, mas não respeita. Redação usa cada palavrão!

Enche linguiça com citação. Diz que vai fundo, mas não olha na cara de ninguém. Não se vê em nenhum momento responsável pelos filhos que tem. Negará que foi ela quem criou um bando de advogados que não leem, médicos que não sabem escrever, publicitários que não estão nem aí para o Português. Mas todos passaram na prova, ora. Prepararam-se para o teste. Souberam usar bem a receita de uma boa redação.

Nada a ver com receita de sopa, hein? Redação não gosta de sopa, meu jovem. Eu já disse, não disse? Por favor, preste atenção.

marcelinofreire

6 comentários sobre “OSSOS DO OFÍDIO: Como (não) fazer uma boa redação, por Marcelino Freire

  1. Poxa, que ótimo texto. e olha que sou Professor de Redação. Concordo com quase tudo, apesar de quixotescamente tentar seguir por outro caminho. Acho que o problema nem é a coitada da redação. Ela até que tenta, mas os manuais cerceiam. Ah, que dificuldade… Ou a imposição mesmo. Eu não gostava de matemática, nunca me dei bem com ela. Física, então, só sabia o que tinha um negócio chamado roldana e umas setas para lá e para cá. Lembro-me de um Xilema e um Floema. Tenho um amigo botânico que diz que é legal. Como tenho amigos engenheiros que amam física e matemática. Uns são grandes leitores, muito mais por eles mesmos que pela escola. Meu pai estudou até a quarta série. Minha mãe também. Entre leitores ou escritores, não eram nenhum. Eram trabalhadores. Gente simples que ensinaram que a verdade não é absoluta. Mas eles diziam que a leitura muda o mundo. Talvez sim. Talvez não. Só sei que essas pessoas que me passaram foram lidas por mim, me trouxeram textos de vida. Uns com marca de autoria. Outros com citações. Estavam tentando viver. Bem…talvez a culpa seja da redação, das escolas, da educação, dos governos, do nosso azedo (imaginado doce) de ver o mundo. É acho que meu texto ficou pouco coeso. Ou não. Depois de escrito não é mais meu mesmo. Bem, boa noite (ou bom dia, ou boa tarde).

  2. Parabéns, escritor. QUASE me enganou com sua depREDAÇÃO. Ou será des, ou in, ou a, ou anti… Talvez seja só insônia. Isso passa. É só uma questão de tempo…

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