Leia o conto “A mulher-cachorro”, de Wilson Alves-Bezerra

Com exclusividade o autor Wilson Alves-Bezerra concedeu o conto A Mulher-Cachorro, retirado do livro Histórias Zoófilas e Outras Atrocidades (EDUFSCar / Oitava Rima, 2013). A obra reúne 19 contos divididos em quatro partes e é um convite ao leitor para diversos enredos muito bem construídos, e pode ser adquirida em diversas livrarias. Em entrevista para o Livre Opinião – Ideias em Debate, Wilson comentou sobre a criação de Histórias Zoófilas e Outras Atrocidades. (clique aqui).

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Leia abaixo o conto 

A mulher-cachorro

― Quando fui ao desconhecido quintal dos Souza, foi sob o signo do naco de frango cru que caíra no chão da cozinha que eu mesmo lavava. A cozinheira Rita, que me secundava no manejo da mangueira, usando, por sua vez, a vassoura, tão logo viu a peça rosada de carne desligou a torneira, dando por finda a lavagem, muito embora ainda houvesse sujidade da qual não se dera conta o meu jato: cascas de cebola, um nariz de palhaço, uma barata morta, além do galináceo naco. Ela o apanhou e disse que caíra ainda naquela tarde, e que portanto nos serviria de almoço. Não pude menos que desencorajá-la, embora não tivesse eu qualquer autoridade na cozinha, constituindo minha participação em sua lavagem mera liberalidade de um dia de folga. Ao achegar-me a meu quarto, com o naco cru de peito não temperado, pensei sobre o que fazer, para não ter que me entregar ao espetáculo de almoçar ou jantar o tal pedaço de carne suja.

Terminei por envolvê-lo numa sacola de plástico, para atirá-lo ao lixo o quanto antes, mas ainda assim, confesso que me incomodava o embrulho. Temia que fazer o invólucro não bastasse para retirá-lo de Rita, que não era facilmente que se subtraía dela uma ideia fixa.

Foi quando decidi ir ao quintal dos Souza, ver minha amiga, a jovem Abadia, que lá estava, e eu sentia a necessidade viva de ir saudá-la, um pouco que fosse, ver alguém conhecido em meio à difícil semana sob pressão passada, e pedir que ela opinasse sobre o episódio da carne. Os dias vegetarianos que corriam certamente me inquietavam.

Abadia Luisa acolheu-me. Mas antes que eu pudesse adentrar a sua casa, ou mesmo falar-lhe, foi a imagem viva dos cães o que mais me impressionou. O pequeno malhado que saía em disparada, sob tutela da larga corda que lhe permitia um perímetro de cerca de dez metros, que cobriam calculadamente toda a passagem para a casa dos Souza. O pequeno ladrador quase me afugentou. Apertei o passo, para não ser surpreendido pela fúria canina, do pequeno buldogue dégradé malhado de dourado e laranja, lembrando vagamente um leão. Depois, o garoto dos Souza, por nome Ricardo, indicou-me haver outro cão, este ainda mais singular, e disse que eu tomasse cuidado não com o cão, mas com a coleira, que era elástica, e permitia sempre que o avanço fosse proporcional à fúria, pois era uma corda de borracha. Foi quando vi avançar sobre mim, vivamente assustado, aquele cão torneado, a cara negra que, estou certo, resmungou antes de se lançar em minha direção, coisa que fazia com singular habilidade, em carreira desabalada.

A imagem do pedaço róseo de frango no chão da cozinha não me saía da mente. E não pude menos que assombrar-me ao perceber que sob a cara negra do cão – não pintada – escondia-se uma boca humana, com nariz e humanos olhos logo acima – embora tudo fora articulado por uma destreza de cão.

― Você é uma mulher!

― Mulher não sou, não, que vivo aqui há tempo demais para isso, respondeu o humano cão ante o meu horror sem parada. A patroa me prendeu aqui porque quando eu nasci eu parecia crente.

― Meu Deus do céu. Era só o que, mesmo sem fé, eu conseguia repetir, tomado do horror. E ao pensar que ninguém sob a face da terra, no mundo dito civilizado, tinha o direito de submeter a tão aviltante vida o indefeso, queria protestar. Mais abissal que o incesto, fora encerrar a mulher sob o casebre do cão, e criá-la acorrentada no quintal dos Souza – imóvel conhecido pela liberalidade dos seus. Pasmei.

Tomado de um ímpeto libertário que não sei se partiu – repito – da imagem do naco róseo de frango na cozinha de casa, mas que crescia ígneo e incendiário, pronto para fazer estrado no mundo dito real, foi que se deu a melódia.  Ligaria para a polícia, eu mesmo, sob impropérios, feito novo Libertador, para devolver ao comércio das gentes a mulher que, para o cúmulo da situação, era uma negra bonita e de corpo bem torneado, a despeito de seus sessenta anos, e com um preparo físico invejável, inclusive para corridas de cem metros rasos. Ia telefonar, não havia mais a fazer, a não ser o que em seguida fiz.

No mesmo instante abandonei o telefone, desisti da cruzada libertária, pois não tardou a rondar-me à mente a perturbadora ideia: não seria por gosto que a bela negra era cativa? Não era com gosto que ostentava a coleira, a corrente? Desconcertei-me e parti. A mulher-cachorro uivava à lua cheia nascente.

IMG_6616A.JPG © Mari Ignatios

 

Wilson Alves-Bezerra

Doutor em literatura comparada pela UERJ e mestre em literatura hispano-americana pela USP, onde também se graduou, Wilson é autor dos seguintes ensaios: Reverberações da fronteira em Horacio Quiroga (Humanitas/FAPESP, 2008) e Da clínica do desejo a sua escrita (Mercado de Letras/FAPESP, 2012). Traduziu autores latino-americanos como Horacio Quiroga (Contos da Selva, Cartas de um caçador, Contos de amor de loucura e de morte, todos pela Iluminuras) e Luis Gusmán (Pele e Osso, Os Outros, Hotel Éden,  ambos pela Iluminuras). É professor de Departamento de Letras da UFSCar, onde atua na graduação e no mestrado. Sua tradução de Pele e Osso, de Luis Gusmán, foi finalista do Prêmio Jabuti 2010, na categoria Melhor tradução literária espanhol-português. Como resenhista, atualmente colabora com O Estado de S. Paulo, O Globo, El Universal (México) e Los inútiles (de siempre)(Argentina).

 

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