Dama do Lodo: “Lição de Casa”, por Marina Filizola

unnamed (1)Se concentra aí e manda a vê filhote.
Só tira o rabo dessa cadeira giratória imaginaria que não gira sobre as rodinhas
inexistentes que não rodam quando tiver acabado essa churumela de dever de casa.

Essas listas infinitas de matérias que você não lembra. Os resumos dos livros que você não leu nem nunca vai ler. Inventa qualquer merda mas escreve, enche essas linhas de silabas desconexas, pode colocar consoante e acento que não existe, eu não quero saber. Não sou eu que corrijo essa palhaçada.

Leu é? Mentira gorda.
E aquele que te emprestei no ano passado, que parece loucura de ácido, que tem os naipes e tem a bebida purpura que faz nego sentir gosto de morango na ponta do cotovelo, aquele que me me fez tatuar o carteado todo nos dedos e eu nem jogo carta nem gosto de poker canastra paciência vinte e um, leu porra nenhuma, leu?
O livro, aquele livro
“Que livro? ”
O meu. Que eu amo e que nunca emprestava porque dá nessa filhadaputice de não
devolverem.
” Cê me emprestou? ”
Emprestei.
” Quando? Não foi pra mim.”
Faz uma cara de que leu por favor, te emprestei outro dia. Não me mata de raiva.
” Foi é?”
É. Leu?
” Não.”
Na boa, procura no meio dos teus lixo e me devolve.
” O quê?”
O livro, porra.
E ficou por isso mesmo. Ô conversa que não dá em nada de gente que esqueceu o
passado que flutua no presente e não dá a mínima pro futuro. Gente promissora.
Ok, chega de papo.
Dirige a joça da sua mente vazia pra essa lição pentelha que vale metade da sua nota,
que vai fazer você passar de ano esse ano pelo amor de deus!, sem brincadeira, quantas oitavas series você tá pretendendo fazer colega, uma dúzia?
Daqui a pouco só você barbado grisalho pançudo bêbado e zoado no meio da turma, olha a situação. Pensa que dá pra escrever em código?, no mínimo investe em letras legíveis, esse garrancho indecifrável que cê chama de letra nem com decodificador, parece braile.

É, estudar meu filho.
Todo mundo na puta dessa vida passa por esse massacre, não pensa que você foi
selecionado por deus, eu também fui Charles Manson foi Adolf Hitler também, todo
mundo.
De novo essa cara de urso sorridente que tá assistindo partida de ping-pong, isso não presta, olha o foco mermão, foca nessa zica que funciona, vai por mim, se eu consegui você consegue.
Até com meu comportamento instável de quinta categoria, até assim. Você pode, vai, pega gosto que daqui uns anos você vai passar impune pelo indigesto vestibular, vai fazer a bagaça de olhos fechados.

E depois vai usar a porcaria do diploma pra limpar vomito de ressaca.
Eu sei, arte.
Arte você gosta, pintar o estojo depois raspar com estilete. Teu lado artístico predomina, mas a lição de casa não vai assassinar o artista que tem dentro de você, amigo. Se é que existe mesmo alguma coisa dentro desse oco. Foda-se.
É isso. Faz fazendo. Tira onda mesmo, de repente você é um gênio e nem sabe. O que fode é o prazo, maldita escola, imprestáveis professores mal comidos defecando deadlines na tua cabeça, tem que entregar no dia senão não adianta, daqui um mês teu professor cagou e andou se você fez ou não.

Acostuma que a vida tem prazo, tudo tem prazo, conta tem prazo comida tem prazo casamento tem prazo, até minha paciência tem.
E olha pra mim, quer isso pra você?, fazer parte da escoria de bebuns e cafungueiros do caraio, que vivem desempregados mal-pagos mal-vistos?, nem fudendo né. Nem se eu fosse um outro eu, certeza absoluta de que o filhadaputa seria dez vezes pior que minha lapidada versão original. Toma como exemplo minha falta de exemplo, em tudo cínica cética hipócrita ácida e seletiva até não dar mais pra ver.

Nem cheirando toda cocaína da Colômbia e do largo treze.
Nem se eu tomasse algum tarja-preta pré-tratamento de encosto, coisa de ultima geração a 400 paus a caixa com treze comprimidos.

Eu sei, tudo síndrome com nome moderninho cheio de siglas, transtorno de alguma
coisa inimaginável. E as deliciosas Ritalinas miraculosas que você toma pra não
esquecer de limpar a bunda depois que cagar, funciona? Porra nenhuma né.
O que te falta é vergonha na cara.
Pra vida inteira uma virgula, tua mãe não vai ter orçamento pra comprar remédinho a vida inteira, já tá devendo as calças no banco por conta desse teu desvio, já ajudaria muito você parar de entupir esse pulmão virgem com cannabis vencida. Tostando pêlo de macaco na varanda do quarto dela, cheiro de cabelo queimado com peido de velha, as pontas espalhadas no vaso de orquídea premiada que ela rega todo dia, faz favor, usa o cérebro atrofiado pelo menos pra não deixar pála.
Eu sei, tua mãe devia ter escolhido alguém menos transtornado da cabeça pra te ajudar a estudar, mas parece que ela tirou o cú da reta, cansou, cansou mesmo.
O que não dá é pra você escorar teu futuro na profissão de artista poeta vagabundo
assumido. “Quem foi ele? ah, o inventor do ócio meditativo, puta meditação descolada, baseada numa alimentação extremamente valiosa de junkyfood, o cara é pica”.
Vai ser este teu legado?!
Os yogues os vegans os comedores de pasto vão te queimar numa fogueira.
Não adianta remexer esse quadril impaciente. Parece que foi arrematado por uma crise de hemorróida aguda repentina, comigo não cola.
Então tá. A gente já fez a troca de olhares de inimigos, você já me perfurou com seu olhar japonês número 47, conseguimos quebrar o silencio que já tava cheirando podre.
Agora começa a preencher essa lingüiça, expurga o demônio aí de dentro, ignora esse vazio mental esse oco nuclear esse vazio compacto e bota prá fudê. Esguicha sua sabedoria na folha.
Cadê sua agenda.
“Que agenda?”
A agenda de anotar o que seu cérebro não guarda.
“Não tenho agenda”
Ah.
Parece obvio que temos um problema aí. Um aluno sem agenda, é como um chiqueiro sem porco, claramente temos um problema aí coleguinha. Como é possível você não se importar com seus compromissos!?, isso me parece mais um dos seus problemas. Não se tratam dos “meus” problemas, são “seus” problemas, mas que agora viraram “meu” problema, isso sim é problema.
Eu compro. Te dou. Você anota. E ancora seu cérebro.
Cê só fala menino. Mas fazer que é bom, não faz nada.
Orgulho da tia.
Toma rumo e trabaia, vai.
Pra conseguir o pão de todo dia. E o pó. E a breja pra rebater o acelêro.
Tá. Já falei. Foi só um desabafo.
Vai te catá, moleque. Puta pivete forgado du caraio. Se eu to dizendo que dá é porque dá, não questiona quem nasceu antes.
E faz favor, não chama a tia de “truta”, não se refere à santa tarefa de casa como
“bagulho”, me dá flashback.
Tá, tô calando a boca.
Seu miserento.

marinafilizola

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