Marcelo Jeneci faz show nesta quinta no Sesc São Carlos

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Marcelo Jeneci tem colhido bons frutos com seu segundo disco, “De Graça” (Slap/Som Livre): o álbum foi indicado no Grammy Latino 2014 como “Melhor Álbum de MPB” e Jeneci ganhou o prêmio de “Melhor Compositor” de 2014 da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Depois do enorme sucesso do primeiro disco “Feito pra acabar”(2010), Marcelo Jeneci vem crescendo no palco e “De Graça” conquistando seu espaço.

Produzido por Kassin e co-produzido por Adriano Cintra, “De Graça” foi gravado, no Rio de Janeiro, nos estúdios Marini, Toca do Bandido, Cia dos Técnicos e Nas Nuvens com a participação mais que especial de Eumir Deoadato no arranjo de orquestra.

Com iluminação de Ale Domingues e projeções de Carlos Pedrañez, Jeneci (voz, teclado, guitarra, violão e sanfona) sobe ao palco acompanhado por Laura Lavieri (voz), Regis Damasceno (baixo e violões), Ricardo Prado (guitarra e teclados), Richard Ribeiro (bateria), Estevan Sinkovitz (guitarra) e João Erbetta (guitarra).

No repertório do show, todas as 13 músicas do novo CD, como as inéditas “Um de Nós” (na trilha sonora da novela “Em Família” da TV Globo), “De Graça”, “O Melhor da Vida” e “Nada a Ver”, além de “Pra Sonhar” e “Felicidade”, sucessos de seu primeiro disco.

“De Graça”

Por Ronaldo Evangelista

O mar de Jeneci mudou de cor. Geleiras desabam, o vento e o tempo não param de bater,  a vida é muito mais do que a gente espera dela. A fruta amadurece e se joga, o mundo gira e tudo se desestrutura pra se reestruturar. Um novo agora chega com o som do mar. Na profundidade, as perspectivas são diferentes. Cinematograficamente, abre-se o escopo de tela para widescreen, a tela aprende a ser tecnicolor, ganhamos uma nova dimensão. Esse é o universo que Marcelo Jeneci apresenta em seu segundo álbum, De Graça (Slap/Natura Musical).

O cinema não é coincidência. “Cresci vendo muito filme com meu pai”, lembra Jeneci, associando suas lembranças cinematográficas às musicais. Em “De Graça”, Jeneci faz da vida cinema pra criar trilha sonora. “Quando eu ouço o disco num fone de

ouvido, sinto que vários momentos estouram o negócio musical e levam pra esse lugar de quem respira fundo. O lance da grandiosidade, instrumentais com sintetizadores, cordas, o épico dentro das canções, coisa de cinema.”

Algumas músicas de seu primeiro disco já insinuavam um pouco esse caminho, como “Copo d’água”, “Tempestade emocional” e a faixa-título “Feito pra acabar”. “Elas fazem um pouco parte também do disco novo, linkam um álbum no outro”, observa. “Eu queria largar a sonoridade despojada primeiro álbum, buscar um outro lance. Manteve-se o tronco da música pop, que é inevitável aparecer, só que o acabamento foi mais ambicioso, mais elaborado, mais cheio de camadas musicais. Nesse disco a importância que eu dei pras canções foi igual a que eu dei pros detalhes musicais, pros efeitos, pros acabamentos estéticos. Quis ficar elaborando esse som, como estão fazendo essas bandas desse cenário atual que fazem música com um estilo que ainda não tem nome.”

Citando artistas como Grizzly Bear, Sigur Rós, Tame Impala e Connan Mockasin, conta Jeneci que foi uma revelação conhecer essas bandas. “Acho que vem sendo desenhado uma classificação de um tipo de música que se produz hoje internacionalmente que as pessoas estão chamando de música psicodélica de novo, que são essas bandas indie que fazem as letras e melodias fáceis, fortes, mas ao mesmo tempo com essa complexidade musical, com arranjos que vão se desdobrando pra dentro. Arregimentações que são econômicas, mas com efeitos que ecoam lá pra dentro. Fica tudo mais 3D.”

Ao lado de Jeneci traduzindo em sons a psicodelia cinematográfico-musical, aparecem a cristalina voz de Laura Lavieri e músicos como o multiinstrumentista Régis Damasceno, o baterista Samuel Fraga e os percussionistas Armando Marçal e o sinfônico Tiago Calderano. Na produção, Kassin, que também produziu o primeiro álbum de Jeneci, aqui com apoio de Adriano Cintra (que Jeneci conheceu há pouco, mas de quem já admirava o trabalho no CSS) na co-produção.

Depois dos notáveis arranjos de orquestra do genial Arthur Verocai em seu primeiro álbum, Jeneci para o novo foi atrás de figura lendária da bossa nova e do pop americano. “Quando começamos a pensar em quem poderia fazer as cordas no disco novo, nem imaginei que o Deodato fosse cogitável, achei que fosse muito difícil. Mas Kassin tinha trabalhado com ele, depois de um telefonema ele estava dentro e eu fiquei: ‘não acredito, o Eumir Deodato!’ E foi incrível, discutimos compasso por compasso, ele é um cara mais econômico, das melodias bonitas, chegou chegando.”

Os arranjos de Deodato, que traz consigo sua história e experiência, de Tom Jobim a Kool & the Gang a Björk, aparecem em cinco faixas. Em outra, na abertura, “Alento”, o arranjo é do jovem Jherek Bischoff, norteamericano que tocou com Amanda Palmer e bandas como Xiu Xiu e em 2012 lançou o álbum orquestral “Composed”, com participações como David Byrne. Descoberta recente de Jeneci e mais uma conexão com o universo experimental e pop contemporâneo.

Em sua busca pelos arranjos exatos e melodias de efetividade tiro ao alvo de alcance profundo no peito, a psicodelia de Jeneci chega também na sonoridade clássica do gênero. Ouvindo “De Graça”, é fácil escutar – como desde “Feito pra Acabar” – o que Jeneci assimilou de pop perfeito, anos sessenta, jovem guarda subvertida, ecos pontuais de Mutantes, Beatles, Beach Boys nas levadas de piano e harmonias vocais, letras cândidas e vigor nos detalhes.

“O álbum novo está começando a ser classificado como um disco pop, não de ‘MPB’”, conta ele. “Gostei, porque acho que é daí que eu venho e é aí que eu estou chegando. Ou as duas coisas encaixadas uma na outra e eu bebendo nas duas, isso explica bem. Pelo menos foi o que busquei registrar, essa intimidade com os dois universos, com aqui e com ali. Fico trazendo coisas de vários lugares. Gosto da ideia de me tirar de um rótulo padrão e me colocar num lugar em que estou só comigo. Me sinto como um farol, no meu cantinho com os pés firmes no chão mas observando tudo, vendo coisas que estão sendo feitas agora na música internacional e coisas já muito bem feitas na música brasileira.”

Durante o processo de composição das canções do novo disco, Jeneci sentava-se ao cravo no meio de sua sala semivazia, e ali cantava, testava, experimentava, descobria, encontrava. Junto com ele, o observando de cima do instrumento, três ídolos o incentivavam. ”Um amigo meu me mandou da Europa uma foto do Caetano e uma do Gil. Eu tinha uma do Erasmo aqui e coloquei as três sobre o cravo que ficou por um tempo aqui na sala”, lembra. “Era uma foto deles com microfone na mão, e muitas vezes fiquei tocando pensando se eles cantariam comigo, fiquei nessa brincadeira até entender se estava bom ou não. Então teve uma aproximação afetuosa com eles também, uma atenção maior com as composições.”

Das 13 faixas do novo disco, todas autorais, seis são co-assinadas por Isabel Lenza, atual namorada de Jeneci. Três são assinadas só por Jeneci, Arnaldo Antunes aparece em duas e outros parceiros incluem Luiz Tatit, Arthur Nestrovski, Raphael Costa e Laura Lavieri. “O disco novo é muito mais pessoal que o primeiro”, comenta Jeneci. “Isso me dá uma convicão muito forte com ele, de olhar nos olhos de pra quem estou cantando. Apesar das parcerias todas, as canções são muito minhas, pessoais, desenvolvemos juntos, meus parceiros como interlocutores. Me senti à vontade pra botar minha cara na capa porque eu estou mais convicto de todas as palavras ali.”

A gama de abordagens das canções foi ampla. “Uma música fala que a vida é bélica, depois outra fala que o melhor da vida é a pessoa, aí uma fala que foi só mais um temporal, diz pra deixar rolar, o melhor da vida é de graça. Tem uma letra que o Luiz Tatit fez depois que a gente ficou conversando uma tarde. Tem aquela crônica do Arnaldo Antunes do cara que não sai de casa que encaixou com perfeição. Também quis manter alguns elementos próximos ao primeiro disco, com o mesmo esqueleto mas já levando para outro momento. Tem “Alento”, “De graça” e “Julieta”, mais básicas, mais pop. ‘Sorriso madeira’, mais sensual. Tem ‘Só eu sou eu’, dizendo que todo mundo é especial. Já ‘Nove luas’ foi feita pensando no Milton Nascimento cantando, com aquele falsete difícil. A letra fala de ser pai, a conclusão de um ciclo, de experimentar a vida e gerar uma nova vida e repassar o que aprendeu. E tem a separação, pra gente se desprender. Um de nós vai sentir a falta de um de nós.”

No período entre o lançamento de seu primeiro disco e o novo álbum, Jeneci passou por uma separação. Doída, mas vivida. “A minha separação me fez ter medo do meu segundo disco. A alegria que foi pregada no ‘Feito pra Acabar’ de fato existia, a alegria da companhia amorosa. Mas tanto quanto me amedrontou aquilo me estimulou. Passou a existir no ‘De Graça’ a alegria do novo, do não explorado. Quando embarquei nessa as coisas começaram a aparecer. Tenho ido onde me chamam, trocado o cotidiano por eventos, vivido um pouco mais esse lance de viver o que diz.“

Se o disco traz um conceito, é o de viver o que há pra ser vivido. “O ‘De Graça’ tem uma coisa de passar a intensidade da troca, da amizade, da vida, da solidão, das cores. Quis incentivar a todos que se joguem, que se sujem, que experimentem, que concordem que é extraordinário viver, com sofrimento ou sem sofrimento. Esse é o mote do disco, esse lance de positivar as coisas. A graça da vida é viver com graça.” Afinal, as melhores coisas da vida não são coisas.

O melhor da vida é de graça, frase que se ativou no imaginário de Jeneci ao ouvi-la no disco “Arrocha”, de Curumin, em citação de poema de Anelis Assumpção. Clichê antigo e sempre verdadeiro, que vestiu com perfeição  o disco de Jeneci. “Escolhi botar ‘De Graça’ como nome por todos os sentidos, de gratidão, graça da vida, Graça é nome, é uma brincadeira, de graça é à tôa, é ser consumido de graça. E gostei da expressão porque ela é uma verdade unânime, uma frase de Orkut, amarra bem. Traz a galera pra essa intensidade da vida, do sofrimento e da alegria, dizendo ‘cuidado, a vida não é só cuidado’.”

No meio do caos, a voz de Jeneci vai encontrando seu tom. Seguindo a intuição da lua, catalisando o acaso, incorporando as situações, Jeneci está fazendo graça. Se o mar não se agitar, um dia vai secar.

www.marcelojeneci.com.br

Serviço:

Data: 18 de junho, quinta-feira.

Horário: 20h30.

Ingressos: R$ 17,00 (inteira); R$ 8,50 (meia); R$ 5,00 (credencial plena).

Local: Unidade São Carlos – Av. Comendador Alfredo Maffei, 700 – Jd. Gibertoni – São Carlos – SP

Mais informações pelo telefone: 3373-2333

 

 

 

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