Dama do Lodo: “Dependência Suada”, por Marina Filizola

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Do lixo ao luxo.
Em segundos.
Eu. A rainha do “adequar-se”. Criei a lei do não me importo.
A pé ou de carro, no Itaim ou no boteco. Ir de salto e voltar de chinelo. Minha cara.
Tem que ter a diversidade carimbada no peito.
Eu gosto de defeito.
De gente que erra.
Que fala o que pensa.
Que manda à merda.
Gosto.
Fazer o quê? Identificação. Pura identificação.
Não posso negar. Defeito de caráter serve pra escrever livro.
High society da escória. Socialite da Cohab. Na hierarquia dos desenfreados.
Não estou justificando. É que eu gosto de estender meus podres a céu aberto.
Tenho um dicionário escatológico que é a nata do esgoto.
Ué?
Roer unhas, favela e pés sujos.
Essa fatia de lembrança eufórica.
Era assim: andar na linha combinava. De segunda a quarta. Com lençol limpo e desodorante vencido. Depois era aquilo. O carnê da quizumba foi alto. Até hoje pago.
De Idolatrar essa decadência imunda.
Essa adrenalina de cadeia. Aquele cheiro azedo. Só para íntimos de arrotos
químicos. E tem, hein? De penca.
Vergonha o quê? Assume quem pode, quem quer. Quem banca. Assume e se fode.
Na boca larga desse povo discreto. Esses tantos que não me dizem respeito.
Não invejo esse tipo de pensamento normal. Na verdade, eu detesto. Invejar é
solitário demais.
Sei de mim que era imaculada. E podre de quarta a sábado.
Preciso suar toda essa dependência.
Essa resistência.
Essa carência de olheiras.
Do prazer da boca emplastrada.
A língua pegajosa. Identifica?
Já suei toda derrota.
Sei lá.
Algumas lembranças são como um parafuso rosqueado no dorso da gente.
Que nunca solta.

marinafilizola

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