Coluna 24: “Pausa para respiro”, de Lucimar Mutarelli

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Quando você batiza uma criança o padre fala uma parada pesada demais
Ele diz que na falta da mãe e do pai são os padrinhos que devem assumir os lugares

Esse não é o motivo que me deixa aceitar ser madrinha de alguém. Na minha cabeça de vento, ser madrinha é reforçar um elo que já existe com um amigo, um sobrinho ou uma irmã

Casei no cartório e na igreja por imposição da minha mãe e das convicções dela e de outras que o padre colocou em sua cabeça

Não me arrependo. Aliás, devia ter seguido o conselho da minha sogra e fazer o ritual completo, de vestido branco, dama de honra e tudo. Na época não era importante e seria um desaforo para meu marido. Hoje não, ele toparia só para fazer a minha vontade

Analisando minha paixão pelos meus sobrinhos e afilhados cheguei a conclusão que não fui uma boa sobrinha e afilhada. Não fui acostumada desta forma, criada distante, culturalmente, não criei o hábito. Sem a oportunidade de conviver com a madrinha de batismo, no casamento, pude escolher os padrinhos para abençoar a minha união

Minha irmã mais velha e meu cunhado foram os escolhidos. A minha irmã é meu grande modelo de referência de dona de casa, mãe e agora uma vó dedicada e atenciosa. Seu capricho com a casa e sua comida fazem a alegria da família inteira. É dela a receita de coxinha que meu marido, meu filho e meus amigos idolatram

E, lindamente, foi a filha dos meus padrinhos de casamento que me escolheu para ser sua madrinha de crisma. A tal da confirmação do batismo. Sou uma católica não praticante, daquelas que frequentava a igreja na páscoa e no natal mas tenho uma memória afetiva voltando conforme desenrolo esses textos

A igreja e a escola cumpriam um papel de socialização e lazer. Era o meu clube, meu parque e shopping de fim de semana. As grandes festas eram realizadas lá e, consequentemente, as paqueras, as corridas para enviar e receber correios elegantes, concursos de karaokê, exibição de filmes, peças de teatro. A igreja do meu bairro foi o primeiro centro cultural que frequentei. Fez parte da minha formação inclinada às Artes

Lembro da minha mãe reclamar quando o padre passou a falar de política durante a missa, logo, a igreja também contribuiu para a minha formação petista nos primeiros anos da década de 80. Acho mais óbvio ainda dizer que esse carinho foi se perdendo depois que o Lula foi eleito presidente. Acreditava numa reforma ampla, iluminada e geral no Brasil. Hoje, 2015, todo mundo sabe onde foi parar nossa utopia, não somente com o partido dos trabalhadores mas com toda a classe política

Outro sobrinho me escolheu para madrinha de formatura. Mais uma honra de motivo de orgulho porque sou uma das poucas pessoas que conheço que pede para ser convidada para colação de grau e aqueles longos bailes que duram a noite inteira. Sinto falta até dos vestidos longos, brancos e bufantes. Hoje é tudo muito simples, clean, sem ostentação, eu gosto também porque sou, exageradamente, eclética mas muitos preferem viajar do que comemorar numa festa tida como “cafona” pra eles. Uso as aspas porque odeio usar termos que designam algo como brega ou chique. Acho totalmente deselegante quem usa esses termos ou cria rótulos para determinar as coisas como mais ou menos importantes. Já escrevi para um dos editores da folha de são paulo que não usassem a cotação de estrela e já sugeri para uma de minhas coordenadoras que as escolas não usassem mais as notas e, sim, aperfeiçoar o trabalho de auto avaliação entre os alunos. Talvez por isso e outras coisinhas mais que eu não esteja mais atuando como professora no mercado tradicional

Madrinha de casamento foi um papel que ainda não cumpri adequadamente. Justamente por ter sido escolhida por amigos e não por membros da família. É uma função mais difícil porque você precisa estar mais próxima do casal e isto implica relacionamento com um cônjuge que pode não estar de acordo com a escolha do parceiro. É mais fácil ficar tudo em família, na máfia. Tive algumas experiências frustrantes e outras que não se concretizaram ainda. Sigo de madrinha de consideração e virtual de alguns casais

Eu já era mãe quando recebi minha primeira sobrinha para batizar de nascimento. A primeira madrinha. É um elo que me motiva a acompanhar mais de perto a sua vida, porém, conforme eles vão crescendo, você vai perdendo a companhia cotidiana. Felizmente, o facebook e o whastap me proporcionam uma aproximação maior com a minha primeira afilhada de batismo. Ano passado recebi mais uma, agora, filha dos meus sobrinhos. Todo mudo já me ouviu falar um milhão de vezes da minha idolatria aos meus sobrinhos, o maior mimo que meus irmão poderiam ter me dado mas sobrinho neto é uma descoberta contínua. Você já criou seu filho, já acompanhou todos os seus sobrinhos nos namoros, nos casamentos, nas separações, nas brigas, nos passeios culturais e artísticos, você está mais madura, mais velha. Disponível. Já entendeu quais são as prioridades da vida. Você se permite deitar no chão, dançar ridiculamente com eles, brincar na bacia cheia de água, acompanha-los na lama, na areia, nas pedrinhas. Contar histórias e comprar doces na vendinha. E, foi uma sobrinha neta que eu recebi para batizar

Além do vínculo inquebrável de ser tia, você recebe o título de madrinha. E quando você ouve um deles pedir a benção ou te chamar de Dinda, não tem coração que resista, derrete assim, na hora, no tapete, no chão, na sala do consultório do dentista. É um presente ouvir essa voz num vídeo, áudio e, de preferência, ao vivo

Ano passado recebi meu primeiro livro para batismo. Um amigo pediu para escrever a orelha do seu primeiro romance. É uma responsabilidade grande porque você vai estar quase na capa do livro. Muitos clientes decidem durante a leitura da orelha, a compra de determinados títulos. Fiz com carinho e lembrei quando fui escolher os padrinhos para os meus livros

“Impessoal”, lançado em 2009, na minha festa de 40 anos foi fácil. Meu namorado parceiro amigo pai querido marido, Lourenço Mutarelli, foi o escolhido para fazer o prefácio do livro. Eu estava entrando no terreno dele, precisava de sua benção. Eu nem imaginava que seguiria com a brincadeira de ser escritora, ainda estava na livraria e depois tentaria mais um retorno à sala de aula

Entre 2010 e 2012 veio a escrita do primeiro romance, “Entre o trem e a plataforma”, já era discípula de Marcelino Freire, a escolha foi clara. Felipe Hirsch ganhou a dedicatória porque foi durante a projeção de seu filme “Insolação” os primeiros vestígios da minha personagem Laura

Caio Fernando Abreu, Lourenço Mutarelli e Marcelino Freire são meus padrinhos não só literários, são modelos de gentileza, sabedoria e generosidade. Sempre me surpreendem com suas atitudes dignas, revolucionárias e libertárias. Conviver com o Caio foi um sonho, um presente, porém, uma relação distante, de fã para ídolo

Lourenço e Marcelino são dois orgulhos. O primeiro, além de ser meu guru, confidente, parceiro, mestre, tutor e, atualmente, meu agente financeiro, ainda tive a sorte de conquistar para marido, tirei a sorte grande, Cinderela que achou o príncipe de verdade

Marcelino é um mestre, professor, exemplo de profissional engajado com a literatura contemporânea no Brasil, atuante e desbravador

Foco. Retomando o passeio

Padrinho não deve ter a carga dramática de substituir pai e mãe porque, quem já perdeu, sabe e sente como são insubstituíveis

O padre podia falar uma parada mais leve:

Escolha um padrinho que você quer para melhor amigo e invista nisso

A Disney nos ensinou outro significado para madrinha, incluíram fada antes do nome. Ter uma fada madrinha envolve soluções mágicas, delicadeza extrema e momentos de ternura

Fada madrinha está sempre de bom humor. Não te dá bronca, deita no chão para que você passe por cima e nunca, nunca está de cara feia
Na casa da madrinha pode tudo, só não pode tirar a autoridade da mãe porque essa só tem uma e madrinhas você pode ter um monte

Basta apontar sua varinha e escolher para quem você vai pedir a bênção
E pedir a bênção, mesmo sendo uma tradição perdida é uma das expressões mais lindas e doces da minha vida

Quando brigava com a minha mãe e saía e gritava já no portão: Bença, mãe e ela respondia de volta, queria dizer que apesar da briga tudo estava bem, logo passaria a raiva

Hoje quando meu filho sai e pede: Bença, mãe, tenho certeza absoluta de que tudo vai ficar bem

E respondo: Deus te abençoe

A responsabilidade fica toda com Deus e, como diria Homer Simpson, a culpa é minha e eu coloco em quem eu quiser

Carinha amarela sorrindo com dois corações vermelhos no lugar os olhinhos

lucimar-mutarelli

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