Dama do Lodo: “Sócio exemplar”, por Marina Filizola

unnamedÔ Santo Deus, que esse clube é cheio de sócio exemplar, gente extremamente ocupada que fica controlando a vida dos outros. Coisa importante esse posto, de gente que tem a agenda lotada. É um tipo que administra tudo. As babás dos filhos dos outros, o tamanho do shorts da personal trainer na aula de spinning, a altura da voz dentro da sauna, a quantidade de água e o tamanho da garrafa que você usa pra beber água, a velocidade que você passa pela catraca da portaria, a postura dentro do elevador e quantas vezes você aperta o botão do andar que você vai, a desenvoltura que você tira a mochila do guarda-mochilas. É o fim. Eu fico abismada como esse clube é lotado de gente sovina alcoviteira intriguenta mexeriqueira, gente perita em filhadaputice que não tem mais o que fazer na porra desta vida. Eu não entendo porque a pessoa sai de casa pra torrar o saco alheio, sério, como se o clube não tivesse gente suficiente administrando seus estabelecimentos. Mas não. Tem uma raça ali dentro que tem o dom a manha a moral. Sabe o tipo de sócio que merece troféu de honra ao mérito no quesito pentelhice?, que acham que são sócios do presidente do clube só porque não pagam mais o caralho da mensalidade?, então. Esses figuras deviam ser empalhados e colocados num museu. Pra gente poder mandar tomá no cú depois que morrem e admirar toda sua pentelhice empalhada.

Comigo aconteceram duas cenas recentes que são inacreditáveis. Eu pergunto pra Deus que que eu fiz pra merecer este fardo e tomo uma cagada de pomba na testa como resposta. A questão é a seguinte: eu não sou uma pessoa que dá motivos. Estou sempre na minha. Não caço tumulto. Mas se nego atravessa meu caminho e enfia o dedo no meu olho, eu saco a Adicta-transtornada que vive alojada dentro de mim e aí meu amigo, aí sai de baixo, porque se for pra fazer baixaria, eu vou ganhar de qualquer um.

Cena 1

Eu saí do treino. Pilhada. E com a boca branca. Eu precisava tomar minha proteína pra rebater a hipoglicemia que vinha rasgando o meu organismo. Subi as escadas tendo tetopreto.Eu precisava de um xote de proteína isolada e de uma banana.

Quando eu cheguei no armário, havia uma senhora mexendo calmamente na mochila dela, fazendo sei lá que porra. Acontece que o armário dela era o do meio, o meu o de cima, ela precisava deslocar a cabeça um palmo pro lado pra eu tirar minha mochila.

– por favor, a senhora pode ir um pouco para o lado pra eu pegar minha mochila?
Ela me olhou, nenhum esboço de sentimento ou vida debaixo da placa de maquiagem.

Voltou a remexer a bolsa.

– com licença, por gentileza (repara que a pessoa é educada), a senhora pode colocar a cabeça pro lado pra que eu possa retirar a minha mochila (sua esclerosada)? – mas o subtexto ficou no meu olhar de fuzilamento.

Dessa vez nem virou. Nada. Simplesmente fingiu que eu não existia, continuou
calmamente a mexer na bolsa.

Eu não pensei duas vezes. Enfiei meu braço entre ela e a bolsa, abri meu armário e puxei minha mochila. Despenteei o capacete de laquê da espaçosa, arranquei alguns pêlos do braço dela.

– obrigada hein, muito gentil.

Ela me olhou com aquele ar de superioridade e intolerância, olhar de velha que bate em criança, bufou e esguichou alguma palavra que eu não tive o prazer de ouvir. Entrei no elevador, ela mais que rápida (olha só que coisa, de repente ficou esperta) entrou atras de mim no elevador. Eu pensei: essa cretina vai tumultuar. Tinha eu ela mais três pessoas e a ascensorista. Ela deve ter achado que era uma boa ocasião de me dar um belo sermão.

Coitada. Ela não me conhece.

– que falta de educação hein menina, que coisa horrível, não te deram educação não?
– Oi?

Eu enfiando a banana goela abaixo. Imagina minha cara. Bom, confesso tem dias que tudo o que eu mais quero é que uma filhadaputa dessas cruze meu caminho.

– isso mesmo, sua sem educação..

Estava inflada. Olhava ao redor em busca de aprovação, de alguém que batesse palma ou qualquer caralho desse naipe. Não. Ninguém se mexeu.

– olha aqui sua velha intriguenta, eu pedi duas vezes pra vossa senhoria tirar a joça do seu esqueleto magro da minha frente, eu só queria minha mochila, mas a senhora mexeu a bunda? Não né? A senhora simplesmente fingiu que não me ouviu com toda sua santa educação de puteiro, portanto, eu também fingi que não vi sua cabeça de bexiga e arranquei minha mochila com sua cabeça e tudo no caminho. Você finge que não meu ouviu, e finjo que não te vi. E ficamos assim. Quem foi mal educada primeiro, deu pra refrescar a memória?

Silencio mortal. Eu devia estar com rosto de demônio, me conheço.
Ela, nem mais uma palavra.
Dali pra frente vai dar licença quando as pessoas pedirem, pode apostar.

Cena 2

Eu, chegando para treinar, tempo contando, não tenho tempo de perder tempo. Meu ritual de sempre: ajoelho em frente ao galão de água, saco minha garrafa vazia de um litro e meio, e começo a encher.

Água, bebo muita. Sempre. Treinando então, duas garrafas de um litro e meio vão fácil. Sou assim. Sempre água. Não tomo café suco refrigerante gatorade nada de carboidratos líquidos. Só água. Em casamentos festas jantares almoço bodas, restaurante japonês ou mexicano. Eu tomo água. Eu gosto.

Estou lá, ajoelhada em frente ao galão, olhar fixo na válvula, queria que caísse mais água pra encher mais rápido a garrafa. De repente, minha visão lateral flagrou um vulto parado de braços cruzados e cara de bosta. Faltava bater a ponta do pé.

Percebi a impaciência,
não pensei duas vezes:

– com licença, a senhora quer beber água?, pode vir, eu espero, fica a vontade.
Repara que, como sempre, eu sou uma pessoa educada. Que respeita a ordem das
coisas e pessoas mais velhas. Isso nunca foi um tabu pra mim. Mais velhos primeiros, sem drama.

– não, não quero não.

E continuou lá. Eu pensei: então fodase, deixa eu encher minha garrafa,
– muita cara de pau sua encher uma garrafa de um litro e meio né?
Ah, minha santa putaqueopariu. Não pode ser.
– Oi?
– isso mesmo, você escutou bem, é o fim encher a garrafa grande, não tem água em casa
não?
Virei minha atenção para o galão. Esperei calmamente a garrafa encher. Rosqueei a tampa com força. Mais forca do que precisava. Contei até dois e levantei. Não consegui chegar no dez.

– escuta aqui, a senhora não tem mais o que fazer da vida não? Tá parada aí regulando a quantidade de água que eu coloco na garrafa?! Vai arranjar o que fazer minha filha, se inscreve num curso de crochê e não me enche o saco.

– sua mal criada, absurdo encher garrafa desse jeito.
Aí não agüentei. Perdi a estribeira.
– olha aqui, vai pra putaquetepariu sua desocupada do caralho, era só o que me faltava, esse galão de água é seu é? Vai cuidar da sua vida!
– eu vou chamar o segurança viu?, olha que eu chamo o segurança…
– chama a policia sua cretina. Vai se fudê antes que eu me esqueça.
E subi. O treino foi forte. Melhor estimulo impossível.
Velha miserável.

marinafilizola

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