Coluna 25: “Quadrilha”, por Lucimar Mutarelli

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Tem histórias que eu não gosto de lembrar

A lebre e a tartaruga é uma delas

Era aluna apaixonada pela escola. Nem dormia de tanta ansiedade e vontade de passar o dia inteiro lendo e estudando e me divertindo com meus amigos

Da mesma forma que a igreja, a escola era um ponto de encontro, nossa praça de alimentação

Muito participativa, me oferecia para ajudar em tudo, apagar e escrever na lousa, recolher e devolver cadernos, varrer a sala, arrumar e desarrumar carteiras, fazer a chamada, distribuir a prova, até a mimeografar eu ajudava

Levantava a mão pra tudo

Estava no ginásio quando passei na sala da turma da segunda série para rever uma professora. Era uma aula de contação de histórias. Ela pediu que eu lesse em voz alta. Arrumei as costas, um galo de terno e gravata. Li, interpretando. No final da leitura, ela se vira pra mim e olha bem no meio da minha cara e determina:

– Você é a lebre, não a tartaruga

Tive uma crise de choro. Fiquei cruelmente constrangida de tanta vergonha. Não queria ser a lebre. Nunca. E nem a tartaruga. Não me identificava com nenhuma das duas. Queria somente contar a história da maneira que achava mais convincente, teatral

Segui

Em 1987, prestei para história, queria ser professora por causa da postura de uma que sentava na mesa para conversar com a gente
Não passei

1988 foi a vez do teatro. Prestei EAD. Passei na primeira e na segunda fase

Bombei na melhor parte. A prova mais gostosa

Todos os concorrentes escolheram cenas de comédias. Eu, a lebre, desinformada, esperta, orgulhosa e pretensiosa, fui de Shakespeare
Que peninha de mim. Me joguei aos leões. Fui devorada bem no meio da arena. Uma amiga da minha irmã, Claudia, serviu de ponto mas eu fiquei tragicamente tão nervosa que não conseguia ouvir o texto que ela soprava tão gentilmente. Senti o rosto ficar vermelho, vermelho e vermelho mesmo e desabei a chorar. Tranquilo, pensei, a Ana do Henrique III precisa chorar mesmo, estava no velório do marido, não colou

Agora, aqui em 2015, fico pensando se tivesse passado na EAD não prestaria Unesp e não teria entrado em Educação Artística e não me tornado professora e não conheceria a Ana Claudia, amiga atriz que estava ensaiando uma peça na Biblioteca Viriato Corrêa

Neste local funcionava, recém inaugurada, a Gibiteca Henfil. Num dos ensaios da Ana, descobri num folheto que o Angeli participaria de um evento no local na próxima terça-feira, 07 de maio de 1991. Acabei de perceber que é o dia do aniversário da Claudia, a amiga que me ajudou no teste da EAD e que, se eu ainda estivesse trabalhando no banco, não estaria de folga naquela noite e não teria convidado a Geovana para ir comigo ver o Angeli.

No palco da Biblioteca, estavam o Marcatti e o Glauco Mattoso que na época eu julgava ser o desenhista da Chiclete com Banana. Faltou justamente o Angeli

Estava numa fase muito difícil de relacionamento com homens. Em dezembro de 1990, perdi o meu pai e foi a primeira morte significativa que eu vivi. Desandei

Corria, perdida, desequilibrada, atrapalhada, interpretava o papel de devoradora de homens, aranha, quanto mais melhor. Em uma dessas noites de busca, um amigo da Geovana, o Cabelo, me deu uma sacudida
– Você não está procurando um namorado, está procurando seu pai
Chorei, de novo, desesperadamente. Caiu a ficha da Electra desavisada. Virei uma chorona compulsiva no colo da minha mãe, da Adriane, outra amiga que o teatro me deu e da Geovana. Nas noites, com ou sem Lua, uivava e pedia ao meu pai que me conduzisse a um homem bom, honesto, sério, trabalhador e gentil

Um cartão da papelaria Pau Brasil, deu a dica: “não corra atrás das borboletas”

Em um ensaio fotográfico para a aula de fotografia com a Ana e a Louise, uma borboleta pousou em mim. Claro sinal. Eu estava parada. A maior revolução da minha vida estava prestes a acontecer. Eu achei exatamente o que eu queria

Achei não. Meu pai, lá do céu, me mandou de presente

Na ausência do Angeli, o Klink, da Gibiteca, convidou um rapaz sereno e de olhar muito triste para compor a mesa

Quando ele começou a falar, no palco, virou absolutamente meu foco
Me apaixonei completamente ali, naquele momento. Tudo que ele falava eu concordava ou discordava fortemente. Lebre. Foi constrangedor. Virou um embate. Eu e ele. Não existia mais ninguém naquela plateia
No final, fui em frente, provoquei:

– Escreve na minha agenda
– Qual página?
– No dia do seu aniversário
18 de abril estava lotado
Estávamos em maio e na época, eu e a Dri, fazíamos diário na agenda. Não tinha espaço
– Está cheio. Escolhe outro dia
– Quando é o dia dos mortos?
– 02 de novembro
– Pode ser?
– Pode
– E o que eu escrevo?
– Nome, endereço, telefone, RG e estado civil

Eu, predadora. Ele, seguro, firme. Escreveu. Anotou tudo na ordem que eu tinha falado

Gente que sabe brincar – carinha amarela sorrindo e dois corações piscando

Voltei pra casa e não conseguia dormir. Escrevi uma carta interessada, querendo conhecer sua obra. Pelo correio, ele mandou seus fanzines “Solúvel” e “Over-12” e a recém lançada graphic novel

“Transubstanciação” acompanhados de uma carta desenhada
Sei a sensação de ler “Transubstanciação” inteiro, sem olhar nem um dos desenhos, só me interessava a palavra. Já era leitora de muitos autores e letras de músicas, histórias

Respondi de volta. Maio, meu aniversário. Haveria uma festa na faculdade com a Ana, Regina, Shigue, Maurício e Adriana. Louise, em Fernandópolis, acompanhava tudo por carta e telefone

Mais testemunhas daquela história que ainda nem tinha começado
Ele não foi, não respondeu ao meu convite. Ficou calado. Silêncio. Reservado

Acabou maio, junho e julho

Aula vaga na secretaria da primeira escola que trabalhei: Pedro Moreira Matos. Abri a agenda e procurei alguém para ligar. De A a Z. Não achei ninguém

Zins. Estalo, eureka, ideia, luz

– E aquele cara da Gibiteca???

Dia dos mortos. Liguei e marcamos um encontro
Sábado
24 de agosto de 1991
Gibiteca Henfil
Rua Sena Madureira
Depois, Museu Lasar Segall
No carro, a trilha de Paris, Texas
Festival de curtas, ele irritado, eu: olha pra outro lado
Saímos, café, chocolate Alpino e Lua cheia. Conto da Lua, da noite, no velório do meu pai. Choro de novo. Primeiro beijo. Definitivo. Apaixonado
Corta para São Carlos, 2015, o menino de olhos tristes agora é um homem gigante, prestes a receber sua primeira homenagem no meio literário

Há muito tempo não me emocionava tanto numa palestra do Lourenço. Choro, claro mas desta vez é um choro bom, daqueles que dá gosto de chorar

Ele e Marcelino, o padre que celebrou nossas bodas de porcelana, quando comemoramos 20 anos de casados
Iluminados. Celebração do tempo, da vida, do encontro, do destino
Sempre que um vê a Lua no céu, mostra pro outro. A Lua é nossa aliança de compromisso

Me apaixonei de novo e sigo, correndo, não para ultrapassar ou ficar atrás da minha tartaruga e sim ao seu lado. Pra sempre

Decido esclarecer a lenda da lebre e da tartaruga. Consulto o dicionário de símbolos. Ilumina. Não precisa mais chorar nem sofrer por isso. Mais uma que a literatura soluciona

A lebre também pode representar a Lua, mãe, águas fecundantes e regeneradoras, vegetação de renovação perpétua
“a vida se refaz através da morte”

E eu sempre achei que era ruim ser a lebre mas uma lenda maia diz que a Lua já foi salva por um coelho

“a lebre que, como a Lua, morre para renascer”

E a tartaruga nessa história toda? “é uma representação do universo” e, aqui, mais uma vez na plateia, o lugar que prefiro, confirmo que Lourenço é meu mundo, meu universo e eu vou sempre correr muito para dar conta de acompanhar seus passos. Querido, amado, idolatrado. Capaz de mudar até o meu passado, uma lembrança ruim

Lourenço me levou ao Marcelino que me levou ao Jorge e ao Livre Opinião, esse espaço onde tenho completa liberdade para contar essa história

Muito obrigada Marcelino, Jorge, Livre Opinião e ao primeiro Festival Gaveta Livre

Muito obrigada, Lourenço. Por tudo que você fez e faz por mim. Sempre.

lucimar-mutarelli

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