Coluna 26: “Cinco minutos”, por Lucimar Mutarelli

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Meu filho está lendo Memórias do cárcere e fez dois comentários sobre a história que eu não lembrava. Decidi que precisava reler o livro. Reler é mentira porque, na verdade, eu nunca li. Lembro de uma professora de história no 3º colegial contando com entusiasmo as condições que Graciliano Ramos escreveu o livro

Tive muitas oportunidades de assistir a palestras de escritores, graças ao trabalho do meu marido e ao meu fascínio pelo ofício do escritor e curiosidade sobre a vida dos outros também

Ouvi vários afirmarem que se fossem pra cadeia poderiam se dedicar somente a literatura. Que, finalmente, estariam livre da vida social, do pagamento das contas, dos almoços em família, das notícias inúteis e repetitivas do cotidiano banal e do mundo que nos cerca

A experiência de Graciliano, até onde eu consegui ler, desromantiza a visão idealizada da cadeia

O escritor cria livremente porque vive preso ao cotidiano. Trocar a fralda do bebê, ir a feira, trabalhar de segunda a sexta no escritório, levar o filho no estádio pra ver o Corinthians jogar, buscar a esposa no trabalho, cantar no karaokê da firma para não ser taxado de antissocial, jogar baralho com os cunhados para não ser chamado de fresco e tudo isso do dia a dia que somos obrigados a viver para conviver tranquilo em grupo

Escrever, do lado de fora da cadeia, reclamando metaforicamente da prisão que a rotina nos proporciona é cem milhões de vezes mais fácil do que escrever na cadeia. Graciliano chega a delirar com uma festa com tudo que ele menosprezava do lado de fora do cárcere. Lembra com detalhes das vezes que deixou de tomar água ou de jantar ou de reparar no rosto do filho brincando

O autor que menosprezava os seres humanos “comuns”, “vulgares”, sem as qualidades dos grandes assuntos eruditos e intelectuais passa a valorizar qualquer pedaço de conversa ouvida no confinamento, um gole de água depois de passar dois dias inteiro privado, vira melhor momento na vida do egoísta, ético e orgulhoso narrador

A cadeia o dobrou em quatro

A descrição da fome, da sede, dos delírios, das dores, do tédio e da ausência absoluta de perspectiva do dia seguinte me fez escrever pra mim

Escrever é me ausentar do cotidiano e olha que eu amo as festas de família, dos amigos, aniversário de criança, de adulto ou de cachorro

Sou capaz de passar dias inteiros deitada no chão ou correndo atrás dos meus sobrinhos, cantando no karaokê, jogando imagem e ação ou baralho. Gosto de qualquer jogo coletivo, até carnaval eu pulo mas quando me dá meus cinco minutos, preciso voltar pra casa e me refugiar ao lado do meu marido, meu filho e gatos

Mesmo que cada um fique no seu canto

Mesmo que o meu filho passe o dia trancado no quarto, que o meu marido passe o dia pintando ou escrevendo ou desenhando ou viajando, sempre tem um momento que os três se encontram na sala para comer, ver vídeos do youtube, assistir série, filme ou desenho ou um programa bizarro

Eu preciso dessa rotina e numa cadeia tenho certeza que enlouqueceria porque o que me alimenta são as histórias simples: andar na rua, ir ao cinema, cozinhar, lavar e passar a roupa, ver novela, amar comédia romântica, ver os vestidos do Oscar, rir e chorar com as postagens dos meus amigos no face, brincar com os meus sobrinhos desde o mais velho que tem 40 até a caçula que ainda não fez 2. Tudo isso é o que me fascina e encanta

Pinacoteca, CCBB, MAM, Belas Artes, Reserva Cultural, Renner, Espaço Unibanco, panini na Casa do Pão de Queijo e café na Starbucks me encantam mas nada, nada se compara a um sábado ou domingo sem agenda sem trabalho sem palestra ou compromisso pra ficar em casa e comer junto arroz, feijão, carne moída e tomate

Isso não quer dizer de maneira nenhuma que eu não goste de comer no quilo, na praça de alimentação do shopping ou pastel na feira

Gosto de quase tudo e de todos mas são essas coisinhas, esse lugar completamente comum que completam meus dias

Meu marido sempre diz: “eu amo a rotina”. É isso. É isso que me faz escrever. Amar tão absolutamente a rotina a ponto de ter que ficar sozinha pra falar sobre ela

Uma cadeia me privaria da vida comum e é isso que eu sonho pra minha vida

Meus amigos sabem que eu viajei muito pouco e tenho uma lista muito bem definida dos museus que ainda quero conhecer mas nada, nada ou lugar no mundo chega aos pés do aconchego do meu lar

Minha casa, minha cela, meu corpo e meu túmulo

Um poço onde posso me afogar ou nadar

Morrer para renascer

Todo dia, toda hora

Em frente ao papel ou a tela em branco, eu morro, me esvazio, me transformo e renasço em outra parte, outro dia

A mesma menina sentada na calçada namorando a lua e contando estrelas pra ver se é verdade que nasce verruga na ponta dos dedos

A mesma jovem independente doida pra sair pra dançar e dormir fora e não voltar pra casa

A mesma jovem carente professora voltando pra casa e pedindo colo pros pais

A mesma mulher aprendendo a ser filha irmã tia madrinha esposa mãe amiga bancária professora livreira escritora roteirista dramaturga

Mesmo sabendo que tem dias que é ninguém ou quase nada ou muito pouco

lucimar-mutarelli

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