UFSCar sediará a 67ª reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

De 12 a 18 de julho, a Universidade Federal de São Carlos sediará a 67ª reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

O Coletivo do Cerrado organizou ações – como distribuição de panfletos, montagem de um estande informativo, visitas monitoradas – para que a comunidade científica que estará presente tenha conhecimento de um paradoxo que está ocorrendo na Ufscar: a sociedade precisou se reunir e solicitar à Justiça que impeça a administração da universidade federal de destruir a natureza.

O Cerrado

O Cerrado brasileiro sofreu e sofre intensamente com as alterações das ocupações humanas. Esse domínio é considerado como um dos hotspots mundiais de biodiversidade, a segunda maior formação vegetal natural da América do Sul (2 milhões de km²), possui 5% das espécies do planeta inteiro e 30% do Brasil. O Cerrado ainda é considerado como o berço das águas, pois alimenta a maioria das bacias hidrográficas do país, ou seja, sustenta os rios, além de conectar todas as outras formações vegetais como Mata Atlântica, Caatinga etc.

Ao mesmo tempo, cerca de 50% deste domínio foram devastados, menos de 3% estão protegidos de fato e, no estado de São Paulo, o Cerrado compõe menos de 1% de sua composição original, sendo que essa pequena percentagem se distribui de uma maneira extremamente fragmentada, sem conexão entre as áreas.

Com esse cenário de extrema biodiversidade e ameaça, parece óbvio que qualquer área de Cerrado deva ser conservada e levada a sério? Sim! Mas não para algumas pessoas…

O Cerrado no campus da Universidade Federal de São Carlos

A Universidade Federal de São Carlos possui o privilégio de ter áreas de Cerrado em seu campus, com cerca de 124 ha de vegetação de Cerrado e 93 ha de sub bosque, que abriga enorme diversidade de espécies, espécies-chave para a manutenção das funções ecossistêmicas e espécies endêmicas e ameaçadas. Tem um papel incontestável no abastecimento de dois mananciais, preserva nascentes de rios que abastecem o município, além de contribuir com o lazer e cultura sociais.
A presença dessas áreas contribui para o tripé do Ensino Superior:

1) Ensino: Cursos de graduação na área ambiental que realizam práticas de campo no local.
2) Pesquisa: Diversas pesquisas de graduação e pós-graduação são realizadas na área, com diferentes abordagens e linhas (Genética, Botânica, Ecologia etc.)
3) Extensão: Projetos de Extensão, como a Trilha da Natureza1, que utiliza a área para proporcionar vivências no Cerrado e promover discussões sobre a importância e a diversidade do domínio.
Essas questões deveriam estar acima de qualquer outro interesse, sendo que qualquer instituição teria por obrigação cuidar desse local sagrado que felizmente ainda resta no município de São Carlos.
Qualquer ação que vá contra a conservação do Cerrado ou que cause qualquer tipo de dano a essa vegetação é inaceitável, considerando o atual contexto de degradação ambiental que a humanidade tem produzido nas últimas décadas.

Ameaças

Essa área está sob ameaça de grave impacto ambiental devido à forma como vem sendo planejada e executada a expansão do câmpus da Ufscar.

A área de Cerrado interpõe-se entre o câmpus atual e a área destinada à expansão. Para “garantir a conexão” entre a área já existente e o local onde serão feitas construções, a administração da Ufscar pretende remover uma parte do Cerrado para a construção de uma avenida de 30 metros de largura, permitindo o trânsito de carros e ônibus. O impacto dessa ação para as espécies nativas é gigantesco. Apesar de prometerem uma “avenida modelo”, com passagens para animais, seria impossível não impedir que várias espécies animais atravessassem, restringindo-as – e a espécies vegetais – a áreas de vida muito menores. Algumas dessas espécies não sobreviveriam nesse novo cenário.
Uma área do tamanho do câmpus atual da Ufscar, hoje coberta por eucaliptos, seria desmatada nessa iniciativa de expansão. Mesmo o eucalipto sendo uma espécie exótica, essa área abriga espécies nativas como invertebrados, pequenos mamíferos, aves e plantas que vivem no seu sub-bosque. Essas espécies de animais usam a área de eucaliptos para passagem, alimentação, nidificação, entre outros, e perderiam seus habitats nos próximos meses graças à expansão do câmpus.

Além de servir de abrigo para muitas espécies nativas, essa enorme área ocupada por eucaliptos retém, hoje, toneladas de carbono na biomassa das árvores e no solo, retém umidade no ar que auxilia na manutenção microclimática local e permite a percolação de água no solo até o lençol freático, o que poderia ser ainda mais bem executado pela própria vegetação de Cerrado, caso fosse recuperada.

Segundo a atual mentalidade da administração, o eucaliptal já está condenado a virar cidade – não há impedimentos legais para a remoção de uma área de monocultura – mas o impacto causado pela universidade pretende ser ainda maior, removendo também uma área de Cerrado protegida integralmente pela lei.

A situação atual

Um grupo de estudantes de graduação e pós-graduação e professores da universidade, além de membros da comunidade local, se reuniu para proteger essa

área, desde 2006, quando ela já foi ameaçada pelo projeto de construção de um prédio da Petrobrás, formando o Coletivo do Cerrado.
A universidade, ao longo dos últimos sete anos, usou de todas as armas burocráticas legais para burlar uma lei clara que PROÍBE a remoção de qualquer árvore de Cerrado no estado de São Paulo, quando há alternativa locacional para o empreendimento, algumas das quais apresentadas pelo Coletivo do Cerrado e tidas como inviáveis pela universidade, sem, no entanto, convencer-nos com as justificativas.
Em 2014, entramos com uma Ação Popular para impedir a construção dessa avenida, e o Juiz Federal Leonardo Estevam de Assis Zanini concedeu liminar para suspendê-la.

Já foi iniciada a construção, na área do extremo-norte, de dois prédios: um prédio de aulas teóricas e práticas para o IFSP – Curso de Manutenção de Aeronaves, e um centro de convenções. O primeiro já está terminado, mas as aulas ainda não começaram, justamente por falta de estrutura, que a Ufscar e a Prefietura da cidade não ofereceram aos alunos e funcionários. O centro de convenções, que foi orçado em R$ 25 milhões, prometido para receber a 67ª Reunião Anual da SBPC, não ficou pronto a tempo, e então foi destruído um bosque de eucaliptos na área norte e instaladas tendas improvisadas para o megaevento.

Perspectivas

Temos a expectativa de que a Justiça reconheça o irrefutável valor da área de Cerrado no câmpus da Ufscar e, quiçá, que a própria universidade, a Cetesb, assim como administradores do patrimônio público – como Secretários e Ministros – despertem para a incomparável oportunidade que se apresenta, de ser uma universidade modelo ao cuidar dos recursos naturais existentes em sua propriedade, preservando-os.

Para além de jargões como “permitir o acesso à educação de qualidade”, que possamos fazer um debate profundo com a sociedade e com especialistas e reconhecer que os benefícios sociais da preservação do Cerrado são tão ou mais impactantes que a construção de prédios e vias, desmatando vegetação e ameaçando a fauna.

Contatos do Coletivo do Cerrado:
site do Coletivo do Cerrado:
http://coletivodocerrado.wix.com/ufscar
Página no Facebook do Coletivo do Cerrado:
https://www.facebook.com/preserveocerradoufscar
Email do Coletivo do Cerrado:
coletivo.cerrado.ufscar@gmail.com
Canal do Coletivo do Cerrado no YouTube:
https://www.youtube.com/channel/UCcEe7gQX2iUbZ1_jFCWJUbA

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