Coluna 27: “Eu rio”, por Lucimar Mutarelli

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Jorge, bom dia! carinha amarela sorrindo, sempre

Estou no Rio e não vai dar para escrever a coluna desta semana, desculpa

Aproveito esta carta para te avisar e contar um sonho

Escrevo no papel e penso que, ao chegar no final, terá um enter e poderei te enviar. Ainda não. Terei que digitar tudo no computador

Foi ótima a viagem ao Rio. É a primeira vez sozinha, pensei que seria bom aproveitar e conhecer os museus. Minha amiga Daniela sugeriu um ônibus no domingo, dia 12. Ele fez um circuito entre alguns museus

Só o MNBA que eu visitei no sábado mesmo. A Constança, outra amiga, estranhou um pouco

– Achei que você ia chegar cansada da viagem

Respondi que vim de carona com o Thiago e não cansei nada. Carona não faz nada. Só senta e viaja

No domingo exagerei um pouco na maratona. Queria ver todos os museus das 10:00 as 15:00. Impossível. Cada um era mais lindo que o outro e você sabe como cansa ver, ler, escutar, escrever e essas outras coisas que a gente gosta de fazer

Impossível. Vi o quanto pude. Conheci muitos prédios incríveis, muito bem conservados. Fiquei feliz. Tem um milhão de fotos para postar no facebook. Depois você olha

Muitas registrei somente as legendas. Para pesquisar, lembrar, assistir depois

A Dri, a amiga da Unesp, não a minha sobrinha, faz isso de uma forma muito divertida. Ela posta um link no face e anota: “pra eu ver depois”

Sempre rio e penso quando vai chegar esse depois? Já escutei muita gente falando sobre filmes que baixou e livros comprados que vão acumulando embaixo da escrivaninha. A gente está guardando muita coisa pra ver depois. Quero saber a sua opinião. Não agora, depois

Quando eu vou digitar o nome daquele fotógrafo no Google e observar as imagens?

Quando alguém cita um filme ou um livro que eu não vi ou vi e não lembro, mando um email pra me lembrar quando chegar o depois

Na viagem, o Thiago, falou de um músico canadense. Peguei o celular automaticamente, ia anotar pra mim e desisti

Só gosto da gula quando é pra comer brigadeiro, brownie com calda de chocolate e morangos, fondue, suspiros que passam do ponto e queimam a superfície, arroz, feijão, carne moída e tomate, carne louca, sanduiche de pão de forma com patê de sardinha que o Lou faz e pão na chapa e café com leite. Gosto também de sonho quentinho com recheio de creme branco

Essa gula cultural é muito cansativa

Os museus que eu passei no Rio merecem uma visita mais demorada, de um dia inteiro, para apreender direito. Fui muito turista. Ansiosa e consumista

– Não tenho tempo. Quero ver tudo que consigo

– E o lançamento?

– Ah, o lançamento foi lindo. Vieram mais de trinta amigos

– Jura?

– Sim. Os amigos do Thiago. Da minha parte vieram a Constança, a Paula e a Karla, vendi três livros

– Mas é bom porque o livro fica disponível

– Se comparar com Santos, foi best seller

– Boa, quem falou essa?

– O Lourencinho

– Não tive coragem de contar. No lançamento de Santos, não foi ninguém. Mentira. Foi a Sandra, a Carol e a Rebeca. Só os Amigos. Essa vida literária é muito difícil. Melhor parar com essa brincadeira e voltar para um emprego fixo

– Mas você está indo tão bem. Em seis anos lançou cinco livros

– É um preço muito caro. Não posso pagar por isso. Sinto que estou explorando o Lourenço

– Imagina. O Lou te banca com o maior prazer

– Eu sei. O Lourenço é muito querido. Sou eu que não acredito, não gosto dessa vida de artista. Não gosto de me sentir desconfortável

– É assim mesmo

Num dia você está alegre, animada que nem lembra de escrever. No outro, acorda cansada, enche o caderno com as lamúrias que serão amassadas e jogadas no lixo. É a bipolaridade da vida, é o caminho. Acontece

– Para que tá virando autoajuda

– Não ligo. O Marcelo Coelho falou que todo livro é de autoajuda

– E o sonho?

– Sonho?

– É. Você falou que teve um sonho incrível

– Estava numa festa com o Thiago. Ele saiu para buscar bebida e fiquei sozinha. Chegou um cara familiar e foi me puxando pela mão, subindo uma escada

– Vem, quero te mostrar uma coisa aqui em cima

Eu pensei: sou escritora. Preciso viver coisas diferentes para ter o que contar quando chegar o depois

Lá em cima era um celeiro, cheio de blocos gigantes de feno, iguais aos que eu vi na exposição da Maria Bethania. Nos sentamos e o cara não parava de perguntar, queria saber tudo de mim. Não eram perguntas fáceis tipo nome endereço profissão. Eram questões difíceis. Não sabia as respostas, ria muito e desconfiei que parecia uma peça de teatro ou uma pegadinha. Ele mudou a fisionomia, ficou decepcionado e outras pessoas saíram de dentro do feno

– Você estragou tudo. Era uma peça de teatro!

Eu, rio

Sonho, ficção, fantasia

Uma ilha de museus lindos que eu fotografei feito uma louca para ver depois

Agora voltei, cheguei em casa

Estou aqui esperando o depois

Era isso

Depois que ler me escreve e fala o que achou e me desculpa de novo por não mandar o texto

Beijos e muito obrigada por tudo, sempre <3

lucimar-mutarelli

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