Dialética patética, por Marcelo Flecha

Faço um convite à reflexão. O Brasil se tornou um país de gritos, destemperos e boçalidades. Nós, cidadãos, perdemos a noção de civilidade e a função da cordialidade. Reflexão, argumentação, diálogo, são palavras extirpadas do dicionário cotidiano, e é o histerismo a única alternativa para nos livrar do anonimato. Como cidadão mediano, por vezes medíocre, preciso me alçar além da média, mesmo que seja através da brutalidade de uma pisada. Antes de ler, escrevo! Antes de ouvir, grito! Antes de pensar, ajo! Com esse comportamento revolu(rea)cionário busco a luz, mesmo que seja a de um trem vindo em minha direção. Meu canhestro propósito é aparecer, custe o que custar, e se me levar ao programa homônimo, tanto melhor. Se me render curtidas, aperto a ferida com mais força. Se não render, busco outro mote, outro pote, outro bote. A beleza está no olhar dos outros sobre mim, e não no olhar dos outros sobre o que vejo. Dialética patética é a que busca a síntese atropelando a tese e a antítese. Mediocrizado, vomito para todos os lados e atiro para os alvos e grito para todos os surdos, como eu. Homofobia, maioridade penal, Neymar, cota, cor e a PEC que o pariu, não importa, lá estou eu bufando, arfando, grunhindo, socando. Não discorro, atropelo. Não dialogo, duelo. Bruto, entorpecido, apostemado pela luxuriosa necessidade de aparecer, aponto o indicador como uma arma que defendo precisar para poder me defender. Pendo da direita para a esquerda qual metrônomo descompassado. Oscilo, vacilo, sem me importar em parecer Cirilo. Com Deus, sem Deus, com cruz, sem Crush, nem Fanta ou Jesus, vou atacando meu interlocutor qual gladiador enfurecido, ao som dos urros que incitam e dos olhos que contemplam a técnica da minha última punhalada. Quando eu vejo a coisa, não avalio a coisa. Não tento entender a coisa. Não analiso a coisa. Penso na coisa como minha inimiga, e o quão nefasta pode ser, se enfocada sobre o meu ponto de vista. Perdido o tempo, eu abandono a coisa, porque a coisa já não é tão coisa quanto eu preciso que seja, e, sedento, vou à busca de outra coisa que me possibilite rezingar. E assim passo as horas. Os dias. Os meses, os anos. Sentado em meus cristalizados conceitos, amarrado aos meus inseparáveis lamentos, alheio à construção do novo, porque o novo se faz andando, fazendo, e eu não me levanto para que não me surpreenda o desejo de caminhar. Não faço nada que esteja além do alcance da minha boca e dos meus dedos. Não doo sangue, não varro a calçada, não espero o sinal, não sou voluntário, nem atalho, nem galho, nem espantalho. Sou a falência da ação, a inércia por inteiro, outra voz do berreiro brasileiro.

Marcelo Flecha

Diretor e dramaturgo, é um dos idealizadores da Pequena Companhia de Teatro, de São Luís (MA). Publicou o livro Cinco Tempos em Cinco Textos: Dramaturgia Reunida

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