Literatices e outras conversas com o escritor português Possidónio Cachapa

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Já vai um pouco atrasado este “Literatices e outras conversas…” por razões que não cabem aqui explicitar. Retomando o fio deixado pelos textos anteriores, deixo registrada uma deliciosa conversa com o escritor português Possidónio Cachapa. Muito pouco conhecido entre nós (infelizmente!), o autor de Rio da Glória (2007) abordou sua obra, seu trabalho como escritor e diretor, além de falar um pouco sobre a crítica e a recepção de seus trabalhos.

Entrevista com o escritor, roteirista e cineasta Possidónio Cachapa. Ficcionista, autor de O nylon de minha aldeia (1997), Materna doçura (1998), Viagem ao coração dos pássaros (2000), O mar por cima (2002), Segura-te ao meu peito em chamas (2004), Rio da Glória (2007), O mundo branco do rapaz-coelho (2009), além da peça de teatro Shalom (2001) e do livro de crônicas O meu querido Titanic (2006), Possidónio Cachapa tem já uma reconhecida trajetória no cenário contemporâneo da literatura portuguesa, tendo o seu primeiro romance destacado-se como finalista no Prêmio José Saramago.

O escritor português Possidónio Cachapa

O escritor português Possidónio Cachapa (Foto: Divulgação)

 

Jorge Valentim: Começo por dizer que só conhecia a sua obra através de textos críticos, e desde então, tive curiosidade em ler os seus textos. Quando os li foi uma surpresa agradável ao deparar-me com um escritor extremamente refinado no tratamento dos temas e na maneira como os trabalha. É claro que, em poucas palavras, fica difícil falar de si próprio, mas, como eu, no início, não o conhecia, acredito que muitos leitores brasileiros também não ouviram, ainda, falar de si. Muito brevemente, quem é, para estes, o Possidónio Cachapa?

Possidonio Cachapa:  Difícil resposta. Quase como falar na terceira pessoa, vindo de alguém que se esforça todos os dias para falar na segunda do singular. Sou um escritor que não planeja os seus livros. Deixa que um tema o intrigue ou que uma personagem o venha assombrar, para depois partir atrás da resposta ou da figura que surgiu do nada. Acredito no invisível, nas coisas que existem, não tendo sido nomeadas. Que AINDA não foram nomeadas. Os meus livros são sempre sobre esses territórios desconhecidos. Entro neles como quem entra no escuro. Não como um garoto amedrontado, mas também, não como um homem que acha que conhece todos os recantos da casa em que se move. Escrevo algures no meio. Tacteio, tentando adivinhar a forma das coisas, na verdade. Escrevi a minha primeira história publicada assim: a figura de Marcelo de O nylon de minha aldeia chegou no meio de música cafona, de um vilarejo em festa. Vinha carregada com as flores de papel, amarelas, algo toscas, as que eram feitas por mãos de mulheres há séculos. E eu quis saber quem era esse jovem, vestido de camiseta de nylon violeta. E, sobretudo, o que fazia ali, no meio de gente cujas caras se distinguem a custo da terra onde semeiam os cereais.

JV: E tem sido assombrado muito ultimamente por esses personagens que ainda reclamam por existir a partir de sua escrita?

PC:  Por outros, sim. Os antigos ficam arrumados entre as páginas de suas histórias. No meu próximo livro, tenho uma moça adolescente que vê o namorado morto sempre que fecha os olhos. E lamenta, não a sua morte violenta, mas aquilo que não conseguiu cumprir: a repetição dos primeiros gestos amorosos. Ou o pai dela, Samuel, que nasce da terra, sem o saber. Há um verso de uma canção da região onde se passam esses dois livros, o Alentejo (sul de Portugal) que diz, genericamente, que todo o agricultor tem uma dívida para com a terra que lhe deu o alimento. E que só o seu corpo, quando nela entrar, conseguirá saldá-la. Esse livro será sobre essas personagens. E sobre as árvores que habitam à sua volta.

JV: Bom, já que você mencionou O nylon de minha aldeia, não teve medo da crítica, quando resolveu publicar, em 1997, uma novela com um tema considerado ainda por muitos como um tabu, por mais que se fale em liberdade de expressão? Não teve medo de ser rotulado (erroneamente, é claro), por conta da homoeroticidade que ali reside?

PC:  Tive, claro. Na verdade, estava à espera que meu sogro (da altura) me pusesse fora de casa, antes de ter uma conversa muito séria com a filha dele… Mas a reacção foi surpreendente. As pessoas ficaram ora presas no texto, no lado mais encantatório e mágico, no caso das conservadoras, ou rejubilaram em silêncio, aquelas que achavam que tinha chegado a hora de dar nome ao que não podia ser nomeado. O livro, que saiu num formato minúsculo, vendido em banca de jornal, foi um sucesso. E é, até hoje, uma das minhas obras mais consensuais para meus leitores. Deixa eu só dizer isto: as pessoas que me lêem, que seguem o meu trabalho, aceleram o sentimento de empatia para com as personagens que eu crio e que são reflexos delas próprias ou de gente que conhecem. Por isso, perdem, regra geral, a vontade de julgar os seres imaginados ou o seu autor.

JV: Em uma de suas crônicas (“Às virtudes dos maiores”), publicada, em 2005, em O meu querido Titanic, você afirma: “Quem me conhece sabe que não sou dado a citações” (p. 24). No entanto, nesta sua novela (O nylon de minha aldeia), duas citações reverberam ao leitor menos desatento. Uma é a de Fernando Pessoa, em uma de suas “Impresões do Crepúsculo” (“Ó sino da minha aldeia, / Dolente na tarde calma, /
Cada tua badalada / Soa dentro da minha alma”). E a segunda, pelo cenário e pela situação (um jovem sendo espancado pelos seus “amigos” de aldeia), remete-nos a O pecado de João Agonia, de Bernardo Santareno, é claro, que na sua novela, o desfecho foi bem diferente. Mas, neste caso, estas citações, ou referências, foram intencionais?

PC: É uma semi-verdade, sim. Semi, porque dos dois, só a referência ao verso do Pessoa foi intencional. Eu queria dar esse lado quase bucólico, das horas que não passam no relógio da aldeia, seguindo personagens que não deveriam estar no interior desse poema. O Bernardo Santareno é coincidência. Para falar a verdade, só muito mais tarde, tomei contacto com o texto. Conhecia, sobretudo, O Judeu e algumas coisas dispersas. E, correndo o risco de ser injusto, não me identifico com a dureza que vai até ao fim, sem redenção, no seu trabalho. Nas coisas que eu faço, sempre (até agora), há um balsámo no final do calvário, um pano molhado sobre a testa dos que sofrem. E sou que ponho, eu, Possidónio Cachapa, porque, apesar de tudo, ainda não consigo assistir à dor humana de forma impávida. Sempre me traio, com um gesto de piedade, mesmo se, por vezes, as figuras agonizantes pareçam olhar para mim já sem me verem.

JV:  Em 2013, estreou no 3o FESTIN, um curta dirigido por si, baseado na sua novela, que, muito felizmente, tive o prazer de assistir. Confesso que o resultado final foi impactante. Para si, agora, falando do argumentista e do diretor, o que foi mais difícil e mais prazeroso, escrever o conto, o roteiro ou realizar o curta?

PC:  Todas as partes foram prazerosas… E o seu contrário, no sentido do esforço. A novela fez surgir toda a galeria de personagens e a magia do evento em si. O roteiro permitiu que eu acrescentasse tudo aquilo que já existia, mas que não tinha visto na primeira “visita”. A direção do filme trouxe os corpos de pessoas concretas para dentro de tudo isso, criando novas formas de explicitar ou rejeitar o que tinha pensado e escrito no roteiro. Fisicamente e psicologicamente, fazer o filme foi a parte que trouxe mais dificuldade e um prazer de sentimentos mistos.

JV: Realmente, essa sua solidariedade à dor dos seus personagens fica patente em O mar por cima (2002), sobretudo, com relação ao personagem Ruivo, ou Rucão Forte. No final do capítulo “Os pequenos delitos”, o leitor se depara com uma das cenas mais comoventes, tocantes e, ao mesmo tempo, trágicas da personagem, quando ele, impossibilitado de dizer ao amigo (já morto) o quanto sentia a sua falta, chora compulsivamente e, “com a cabeça de homem sobre os joelhos, pediu a Deus que voltasse atrás no tempo” (p. 230). No caso específico deste romance, Rucão te assombrava pedindo um gesto de solidariedade desta ordem?

PC: Rucas, Rucãoforte, Ruivo, e todos os nomes que foi recebendo de David e daqueles que se foram cruzando com ele, é uma personagem que fica esfacelada muito cedo. Como se tivesse naufragado sobre uma das rochas negras da praia, crescerá e viverá com aquilo que poderemos classificar de “dor surpresa”. Considera-se causador involuntário de uma morte que não viu chegar, uma espécie de “assassinato por negligência”. Sendo ele, uma figura frágil, desde o início, mais frágil se tornará depois disso. A força que exerce como policial é a sua forma de não pensar. Mas, respondendo à sua pergunta, essa é uma das personagens que ainda hoje me emociona. Penso nele, sempre, como o menino que sabe de noite que sua vida nunca mais será igual. E que guarda silêncio dessa dor. Como guardou quase até ao fim, a pessoa que por ele se tomou de amores. E isso, não poderia me deixar indiferente.

JV:  Confesso que essa foi uma das cenas que me deixou de joelhos diante do seu texto, porque, muito mais do que um homoerotismo (que também comparece no seu romance), estamos a falar de uma homoafetividade latente, mas que não se concretiza enquanto David está vivo, somente temos consciência dela muito tempo depois, diante do choro comovente de Rucão, já adulto. Acho que existem muitos Rucões, não apenas em Portugal, mas em toda a parte, daí a dimensão humana plural que ele atinge, não? Até que ponto, essa impossibilidade de dizer “eu te amo” e a incapacidade de um jovem dizer “adeus” definitivamente não acentuam a tragicidade desta personagem, absolutamente universal no seu sofrimento e no seu choro?!

PC:  Sim. Tem a ver com o que falamos antes, o que está dentro do invisível. Ele não consegue fazer o luto, porque não pode dizer tudo o que tinha para dizer. Mas, nunca o poderia dizer, porque não tinha palavras ainda. Elas ainda não tinham surgido na sua cabeça. Então, Ruivo fica suspenso num tempo em que seria necessário falar, mas que já não tem ninguém que o possa escutar. E isso o faz cair de joelhos sobre si mesmo, repetindo o gesto uma e outra vez. Há um tempo atrás um jovem leitor me escreveu, para me agradecer ter escrito esse livro, e ao destino, por ter feito com que ele se cruzasse com a história. Tinha apenas 16 anos quando o leu, mas aquilo deu voz ao que não ousava dizer. Enviou-me o desenho ingénuo de David sobre uma rocha negra, no meio do mar, que tinha feito na altura. E chorou com ele, e por todos os que não podiam dizer a alguém que se está apaixonado por ele ou ela.

JV:  Acredito que esta seja, talvez, uma das maiores recompensas que um autor pode receber, não, ainda que dolorosa no seu relato?

PC:  Sim. Quando se escreve um livro, a gente o faz pelas nossas razões. Quando ele toca o coração ou a cabeça de um leitor, ele se torna um assunto comum, porque é feito das razões dele e das minhas. Uma partilha inesperada, portanto.

JV: Uma das coisas mais sensíveis e tocantes neste romance é perceber que David, mesmo sendo uma vítima de abuso sexual por parte do tio, assim que ele e os pais chegam ao arquipélago, não exerce a sua homoafetividade porque, quando jovem, sofreu atos dessa ordem. Entre ele e o Ruivo há uma homoafetivdade muito estreita, ainda que não declarada verbalmente entre eles, mas isto é o que torna os personagens mais cativantes. Não é a vitimação que transforma um sujeito em homossexual, mas, dentre outros fatores, a procura do carinho, do ombro e do porto seguro por achar, não?

PC:  Isso mesmo. David quer confiar e provocar a confiança. E é o medo de trair essa fragílissima (na sua visão) afectividade que lhe foi confiada que o consumirá.

JV: E que depois acaba por consumir o próprio Ruivo, certo?

PC:  Nunca o saberemos, ao certo. Eu acho que Ruivo, na sua culpabilização, cria uma série de fantasias e fantasmas que têm como único objectivo trazer de volta, intacto, David.

JV: Além deste romance e a novela, tratou em outra obra sua as questões voltadas á homoafetividade?

PC:  Do ponto de vista estético, receio que tenha tratado largamente.  Mas, concretizando, diria que ela surge, em Rio da Glória, quando um pai, num estado do Norte do Brasil, pega o seu filho com o namorado, que ele mata, traçando na cara do filho, com uma navalha, um “V” de “viado”, para que ninguém mais esqueça. Num outro conto, “O verde reflexo das videiras”, que está no interior do livro Segura-te ao meu peito em chamas (2004), é a história de um cara casado que quebra uma perna e vai convalescer no sítio de uma pessoa de família. Também ali, encontra um jovem que se entedia, deixando que suas carnes surjam no reflexo das águas de um tanque construído sob uma videira que dá cachos de uvas.

JV: Bem sugestivo, não?

PC:  E, para registo bibliográfico, tem uma menção ao tema, no meu primeiro romance. Uma personagem chamada Alex que, nos anos de 1970, se insinua no meio de pequenas orgias hetero entre amigos. Entre o vai e o vem, o álcool e o esquecimento, muita coisa acontece… Isso é no romance Materna doçura. Pronto, não me lembro de mais. Mas deve existir…

JV Já que você o mencionou, o seu primeiro romance publicado (Materna doçura), logo de cara foi indicado ao Prémio José Saramago e, infelizmente, ficou em 2º lugar (e, eu me pergunto, alguém sabe quem foi o primeiro colocado deste ano?), talvez, quem sabe, por conta, de incompreensões por parte daqueles que participaram do juri. Neste sentido, qual a relação que você mantém com a crítica, enquanto escritor?

PC: A crítica é vizinha do escritor. Não se mantêm relações com a vizinha, porque é feia e, mais tarde ou mais cedo, daria problemas nas escadas. O escritor escreve, a crítica jornalística coloca-se no lugar do leitor, mais ou menos ingénuo, e opina sobre o que leu. Amanhã, opinará sobre outro livro, da mesma forma como a vizinha falará de couves ou das rendas que surgem por baixo da saia de uma mulher que viram na rua. A gente tem de viver com a vizinha porque ela ganha a sua vida com o dinheiro que nós lhe damos por limpar as escadas no final da semana. Quando um escritor morre, poderá ou não ir para o panteão no alto da colina. O crítico não irá, certamente. Nem a sua obra terá qualquer chance de ser relida passado um século, a não ser para atentar nos costumes da época.

JV:  Mas, aí não te parece categórico demais? Afinal, há uma certa crítica que sempre vale a pena ser revisitada, não?

PC:  Jornalística, em Portugal, penso que não. Universitária, sim, claro, mas não estamos falando do mesmo. Um jornal, por definição, é um registo de um tempo visto por alguém desse mesmo tempo, com suas condicionantes temporais. Quando o futuro chega, se o livro sobrevive a uma nova leitura, necessitará de um novo olhar, que nunca poderá ser o mesmo do pssado.

JV: Ah, sim, claro, Eu falava, pensando, por exemplo, no quilate de um crítico como Oscar Lopes, por exemplo, que, por mais que estivesse ligado a uma crítica de pendor marxista (como  o próprio Antonio José Saraiva também estava), o seu frescor, a sua vitalidade e a sua actualidade não se perdem.

PC:  Oscar Lopes pensava os livros para lá do imediato e relacionando-os com a história da Literatura de que era profundo conhecedor. Isso é uma honra para o objecto de análise, porque, pelo menos por um instante, alguém o olhará, colocando-o entre tudo o que foi produzido, tentando estabelecer para ele, não só um lugar, mas também uma relação dialética com o restante.

JV: A crítica costuma apontar as suas vivências nos Açores e a sua viagem ao Brasil como dados autobiográficos presentes nos seus romances (sobretudo em O mar por cima e Rio da Glória). Ora, tomando as considerações de Luci Ruas Pereira, sobre o romance de Vergílio Ferreira, quando afirma que a ficção, quase sempre, nunca se desprende do lastro autobiográfico, em que medida, podemos encontrar nos textos ficcionais do Possidónio Cachapa traços autobiográficos?

PC:  Vargas Llosa fala que escrever um romance é “fazer um strip-tease ao contrário”. Vamos colocando as roupas, à medida que a narrativa prossegue. Eu estou, conforme sou nesse momento, em tudo o que faço, como é óbvio. Os temas, os tratamentos, a linguagem, a escolha de personagens, sou eu… “sendo outro”. O que nos salva (do aborrecimento biográfico, para começar) é aquilo que faz com que um romance descole do chão, como uma aeronave: aquilo que não sou e o que eu não vivi. Claro que o leitor informado encontrará sempre o Alentejo onde nasci; os Açores, onde vivi e amei; Lisboa, com seu Tejo reflectindo a luz, onde vivo agora, e por adiante.

JV:  Sim, mas nem sempre o autobiografismo será um aborrecimento…

PC: E as minhas personagens, de vez em quando, deixarão de ser elas, para escolherem um caminho que me agrade. Mas por serem generosas, por saberem que esse caminho eu desconhecia, e que ficarei mais feliz se elas o iluminarem, um pouco – apenas um pouco – para mim.

JV: O seu romance Rio da Glória, para além de algumas cenas fortemente homoeróticas e dos lastros autobiográficos de sua viagem ao Brasil que nele podemos encontrar, pode ser lido como um romance de viagens, na melhor tradição dos romances portugueses?

PC:  Sinto-me lisonjeado pelo uso de “melhor tradição”, sabendo que atrás de mim há nomes como o Pero Vaz de Caminha, o Fernão Mendes Pinto, ou, de certa forma e numa outra dimensão, Camões…

JV:  E Garrett, e Raul Brandão, e José Saramago, e por aí vai…

PC:  Mas eu o escrevi com esse espírito, sim. Procurar as minhas personagens, mas estar aberto aos encontros que as terras traziam. As histórias, o vocabulário a forma de pensar em cada Estado do Brasil. O meu lado mimético saciou-se com a riqueza do que encontrou. E também, no sentido mais profundo do conceito de “Literatura de Viagem”, a devolução do sentimento obtido pelo escritor quando contactou, pela primeira vez, cada lugar. E a transformação do vivido provocada pelas necessidades da narração e pela perda de detalhes da memória.

JV:  Juntando, agora, este eixo com o que dissemos antes, acredito que “corpo” e “viagem” são dois sintagmas significativos no seu projeto de escrita, não? Isto de certo modo também repercute em O mundo branco do rapaz-coelho, seu último romance…

PC:  Sim, julgo que existe um terceiro, mais forte, do nível da emoção que teria de pensar antes de definir. Mas, o corpo está sempre presente, frequentemente como um mapa, uma espécie de carta náutica para o amante, se existe, ou uma geografia do vivido anteriormente (passo a redundância), além de que os meus livros são sempre livros de lugares. Tenho o livro “do Brasil”, o “dos Açores”, o “da Madeira”, o do Alentejo” (vários), o de “Paris e Lisboa”…

JV:  Bom, já que estamos falando de viagens, não me custa perguntar, planeja algum retorno ao Brasil?

PC: Todas as semanas… (risos) mas tenho estado a tentar terminar o meu doutorado, para poder pensar na duração dessa viagem.  Por vezes, convidam-me, como jurado de festivais, também.

JV:  Uma ultima pergunta, encaminhando já para o fim, é certo que, como já te citei, você não é um escritor dado a citações, mas é certo também que as suas leituras devem ter influenciado nas suas criações. Neste sentido, quais foram os escritores que mais te motivaram a criar literariamente as suas obras?

PC:  Olha, recentemente, iniciei um trabalho de adaptação para o cinema de Escola do Paraíso, de José Rodrigues Miguéis. E descobri que vários detalhes desse livro tinham surgido na escrita de Materna Doçura. Alguma ironia do Eça também, já que minha admiração por toda a sua obra é imensa. As minhas primeiras prostitutas (passo a expressão) foram as de Jorge Amado. A puta-poética que vende o corpo mas conserva a alma para as pessoas de quem gosta, seja o cafetão, seja o filho que vive no bordel, seja o poeta que tem como único adorno os seus poemas.  Nesse momento, essas influências já se diluiram. Penso na forma a partir das formas que eu próprio criei (tanto quanto posso avaliar) e leio pouco. Muito pouco.  O engraçado é ver que são outros escritores, alguns deles mais velhos quem se diz “influenciado” ou “próximo”. Baptista Bastos, por exemplo, não se cansa de o afirmar, nos seus quase 80 anos.

JV:  Sim, mas eu não usei a expressão influência, falei em motivação…

PC: Influência e motivação são para mim sinónimos. Leio por vezes alguém de quem gosto da escrita e sinto vontade de ir escrever. John Irving, o escritor americano, sempre me provoca isso, dá-me vontade de ir escrever. Marguerite Yourcenar também, por exemplo.

JV:  Caríssimo. muito obrigado pela atenção, faço votos que você retorne ao Brasil em breve!

PC:  Eu também. O Brasil (como eu o conheci, pelo menos) trouxe ao de cima, o melhor de mim. E é aí que eu gostaria de permanecer, na linha do melhor de mim.

JV:  Aliás, refaço a minha despedida, não só espero que você retorne, mas que apareça uma oportunidade de você publicar no Brasil e os leitores serem pegos pela surpresa agradável de sua escrita.

PC:  Veremos. Até agora, as tentativas de publicação têm sido muito ténues. Mas tem autor assim, leva tempo a florescer fora de sua terra. Quem sabe…

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