Em entrevista, Wilson Alves-Bezerra comenta sobre seu novo livro: “Vertigens”

A Editora Iluminuras, no mercado há 27 anos, na vanguarda da literatura contemporânea, e especial da poesia e da literatura hispano-americana, está lançando Vertigens, do paulistano Wilson Alves-Bezerra. É uma coleção de 29 poemas em prosa, na qual se destacam as exuberantes imagens e a sonoridade, que parece produzir aquilo mesmo que o título anuncia.

Nas palavras do autor do prefácio, o poeta e tradutor Claudio Willer, “é uma escrita do outro lado, radicalmente do avesso, antagônica com relação à linguagem instrumental. Por isso, análoga ao delírio”.

Vertigens se sucede à estreia de Wilson Alves-Bezerra na prosa curta, com o elogiado Histórias zoófilas e outras atrocidades (EDUFSCar/Oitava Rima, 2013). Segundo o próprio escritor, o elemento narrativo está presente também nesta coleção de poemas: “Embora seja um livro de poemas, há histórias que se contam entre as imagens encadeadas, de modo lacunar e cifrado, para cuja leitura o papel do leitor é fundamental.”

O professor de literatura hispana-americana da USP, Pablo Gasparini destaca, nas orelhas do livro, a presença da tradição latino-americana na obra: “Os fragmentos de Vertigens despejam as suas imagens a partir de uma erótica que mama de vários leites estrangeiros e, centralmente, da poesia como estrangeira da língua, ou da poesia entendida como exercício de “exílio” da prosa. O resultado: um português gozosamente inventado e, portanto, desencaixado de todo imaginário de correção e regionalização, dúctil para acompanhar a fluência de cenas de uma corporalidade fugidia e nua.”

Já estão confirmadas três datas de lançamento de Vertigensquarta-feira, dia 30/7, às 19h, no Kalil Cozinha Árabe. (São Carlos-SP); dia 18/8, às 19h, no Anfiteatro do CECH. UFSCar (São Carlos-SP), com bate-papo com o autor (mediação da professora Rejane Rocha); dia 5/9, às 15h, no terraço da Biblioteca Mário de Andrade (São Paulo-SP), bate-papo com o autor e apresentação por Cláudio Willer.

vertigens

Doutor em literatura comparada pela UERJ e mestre em literatura hispano-americana pela USP, onde também se graduou, Wilson é autor dos seguintes ensaios: Reverberações da fronteira em Horacio Quiroga (Humanitas/FAPESP, 2008) e Da clínica do desejo a sua escrita (Mercado de Letras/FAPESP, 2012). Traduziu autores latino-americanos como Horacio Quiroga (Contos da Selva, Cartas de um caçador, Contos de amor de loucura e de morte, todos pela Iluminuras) e Luis Gusmán (Pele e Osso, Os Outros, HOTEL Éden, ambos pela Iluminuras). É professor de Departamento de Letras da UFSCar, onde atua na graduação e no mestrado. Sua tradução de Pele e Osso, de Luis Gusmán, foi finalista do Prêmio Jabuti 2010, na categoria Melhor tradução literária espanhol-português. Como resenhista, atualmente colabora com O Estado de S. Paulo, O Globo, El Universal (México) e Los inútiles (de siempre) (Argentina).

Em entrevista para o Livre Opinião – Ideias em Debate, Wilson comentou sobre seu novo livro, Vertigens: “Nas Vertigens, há a noção de que não há uma realidade pré-linguística, na qual as imagens se dão”. O autor também conversou  da escolha do estilo escolhida para a obra: “Os poemas em prosa remontam a Charles Baudelaire, em meu caso; mas a linguagem destes poemas em especial bebem nas águas do James Joyce do Finnegans Wake e em seus afluentes, como o brasileiro Wilson Bueno”. Confira a entrevista na íntegra:

Wilson Alves-Bezerra (Foto: Paulo Ninja)

Wilson Alves-Bezerra (Foto: Paulo Ninja)

“O poeta necessário tem um latifúndio produtor de imagens”. Wilson, é um trabalho árduo do poeta transmitir em palavras a imagem que só ele enxergou, assim como transmitir para o leitor a mesmo ou nova sensação. Como foi toda a produção de Vertigens? A escolhas dos poemas em prosa? Alguns tiveram que ficar de fora? Deu-lhe certa náusea, sensacão de tontura?

Nas Vertigens, há a noção de que não há uma realidade pré-linguística, na qual as imagens se dão. Então não há um processo de tradução ou transposição de uma visão atávica. Quando surge a visão, ela surge em palavras; é no verbo que ela se faz. No projeto das Vertigens, som e imagem vêm conjugados. A tarefa maior é deixar lacunas aos leitores, espaços em que eles possam se inserir e se integrar à experiência proposta. O sentido, sabemos, é uma construção; a falta de sentido da qual se pode participar, também. Não interessa ser absolutamente hermético, apenas suficientemente convidativo. Os 29 poemas em prosa que compõem a coleção exploram esta linha entre o sentido e a sua perda. O fim da sua pergunta é particularmente interessante, porque se refere ao aspecto em que linguagem e corpo se encontram: pode ainda a poesia ter a potência de mover os corpos?

“Recomeço. Nenhuma metáfora. Toda boca ela e riso onde paro, escrevo poemas e perco os sentidos”. Conte-nos um pouco quais foram suas influências e por que a escolha do gênero poesia? Já que sua última obra foi de contos, como foi essa mudança de estilo?

Os poemas em prosa – para começar a resposta a esta pergunta retomando a última – remontam a Charles Baudelaire, em meu caso; mas a linguagem destes poemas em especial bebem nas águas do James Joyce do Finnegans Wake e em seus afluentes, como o brasileiro Wilson Bueno. Caberia citar ainda o Roberto Piva de Paranoia e, sempre, o humor de Oswald de Andrade. A poesia está sempre presente. E no Brasil é curioso o quanto parece haver mais poetas que leitores de poesia; na minha trajetória, publiquei dois livros de poemas ainda nos anos noventa, que foram experiências primeiras, abandonadas pela necessidade de ampliar leituras. Quinze anos sem publicar foram um tempo importante de aprendizado, de muitas leituras, mas também de muita escritura. O fato de a primeira coletânea desta retomada ter sido os contos de Histórias Zoófilas e outras atrocidades e não os poemas em prosa destas Vertigens foi contingência, que tem a ver com o tempo das editoras. Ambos os livros ficaram prontos mais ou menos na mesma época. Poesia e narrativa se dão em mim de modo concomitante. Existe a tarefa de desembocar a produção para o projeto correspondente. Mas, para falar da composição deste livro, em especial, é importante retomar o poeta Claudio Willer, que me apresentou o Herberto Helder de “Joelhos, salsa, lábios, mapa” e produziu uma revolução nas minhas possibilidades de escritura. Não por acaso ele é o autor do prefácio das Vertigens.

Para você, “O escritor de rascunhos vacila e se atormenta na ida. E se derrama na pia, tomba para a cautela acadêmica vir lhe decifrar os rabiscos”? E em Vertigens, como foi se distanciar do crítico literário e professor acadêmico para mergulhar nos poemas em prosa?

O professor sempre está presente. Ele certamente está respondendo parte destas perguntas; não permitindo devaneios sobre a inspiração, a criatividade e o borbulhar do gênio; ele ordena as leituras. Mas não é ele quem escreve; ele apenas lê e faz umas sugestões. Talvez o professor, o acadêmico, possa ser o responsável, por exemplo, por um silêncio de 15 anos sem publicações. Por outro lado, ele dá credibilidade ao que o poeta publica. E este capital simbólico é importante. A relação entre ambos pode um dia, com felicidade, chegar a algum texto válido, ou a um latrocínio. Sem paixão não haveria escritura.

Como está, para você, o poeta e a poesia do começo do século XXI? Metáforas? Imagens? Atualmente, o poeta e a poesia é “O comentador espreitará pelos séculos e a carcaça não se moverá. A varanda com vista à loucura é onde agora fico, contemplando a miséria de uma língua só travas que não pode mais tecer utopias ou gritos”.

Vou deixar como resposta o trecho do poema que você mesmo escolheu! Como já tem um comentador lá, não vou precisar desempenhar esta função!

Wilson, na literatura “É preciso ter terremotos, regular a loucura com doses de anfetamina e vitrificar os ares e escalá-los pavilhão acima, rabecão abaixo”?

Sim. Isso e muito mais!

Entrevista: Equipe Livre Opinião

11 comentários sobre “Em entrevista, Wilson Alves-Bezerra comenta sobre seu novo livro: “Vertigens”

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