Tânia Rösing: “Nasci para sonhar o possível, mas especialmente, o impossível”

A professora Tânia Rösing (Foto: Divulgação)

A professora Tânia Rösing (Foto: Divulgação)

Há mais de três décadas que a professora Tânia Rösing está à frente da Jornada Literária de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Idealizadora do evento, foram 34 anos ininterruptos celebrando a cultura e mobilizando milhares de crianças, jovens e professores em torno do livro e da leitura.

Já passaram diversos nomes da literatura pelo evento, como Chico Buarque, Ignácio de Loyola Brandão, Marcelino Freire, Frei Betto, Adriana Falcão, Alice Ruiz, João Antonio, Elisa Lucinda, Zuenir Ventura, Pepetela, Mário Quintana, Teresa Cristina Cerdeira, Mia Couto, MIlton Hatoum, Beatriz Sarlo, entre outros. Neste ano, a Jornada não será realizada por falta de apoio político e de patrocínios. Com o anúncio do fim do evento, escritores se mobilizaram e como forma de protesto foi criado uma abaixo-assinado contra o fim do evento e o descaso do Ministério da Educação e o da Cultura. Em carta aberta, os autores deram o apoio:

“[…] Por tudo isto exposto, não entendemos como um evento da grandeza e da importância das Jornadas Literárias é esquecido, por instituições e patrocinadores. Perdem, com essa atitude negligente, a cidade Passo Fundo, o estado do Rio Grande do Sul, o Brasil e o mundo. Perdemos todos nós, que sonhamos com um Brasil consciente do seu valor e da sua cultura. Um Brasil leitor, que um evento como este está (“estava”) ajudando a construir”.

A professora Tania Rösing, além de comandar a Jornada, está há 44 anos como docente na Universidade de Passo Fundo, e com determinação é pesquisadora na linha de leitura e formação do leitor. Em entrevista para o Livre Opinião – Ideias em Debate, Tania falou sobre o motivo do fim da Jornada Literária de Passo Fundo, as histórias que aconteceram no evento no decorrer dos 34 anos, bem como futuros projetos lterários e acadêmicos. Confira a entrevista na íntegra:

jornada

Jornada Literária de Passo Fundo

Tânia, começamos perguntando por que, depois de 34 anos, não haverá mais a Jornada Literária de Passo Fundo?

Certamente o modelo que construí com meus colegas, atendendo a distintos públicos – crianças, jovens, jovens de 15 a 25 anos de cursos técnicos, adultos,idosos -, realizando as atividades em diferentes lonas, mesclando escritores, pesquisadores, artistas, conferências, painéis, conversas paralelas, espetáculos teatrais, musicais, exposições de artes e de manifestações culturais as mais diversas, não será mais reproduzido. Esse modelo inspirou festas literárias, movimentos culturais com crianças e jovens, motivou profissionais da área da leitura a mudar o tratamento concedido aos escritores, elevando-os a um patamar de superstar. Tudo e muito mais do que fizemos estimulando todos e cada um a se envolverem com materiais de leitura do impresso ao digital foi considerado uma idéia muito ambiciosa pelos dirigentes das instituições promotoras. Declararam à imprensa que não validam esse modelo. Portanto…

Quais foram as histórias desses 34 anos da Jornada que mais te marcaram?

Há muitas histórias engraçadas. Publiquei algumas em três Anedotários. Outras tantas não foram contadas. Na primeira Jornada estadual, em 1981, Mário Quintana estava entre os convidados. Foi simpático com o público que o prestigiou, que solicitou seu autógrafo, que ouviu sua palavra poética. Antes da homenagem que foi programada, Mário foi ao banheiro. Já de terno, camisa de manga longa,  gravata, todo lindo, abriu uma torneira demais, soltou  parte do registro, molhou-se todo. Não havia trazido outra roupa para a ocasião. Como estava demorando muito, Nídia, esposa do Josué Guimarães, foi procurá-lo no apartamento do Turis Hotel onde estava hospedado. Encontrou-o chateado pela situação. Tomou ela a iniciativa de secar sua roupa com ferro elétrico. Mário conseguiu vestir novamente o terno, a camisa… Foi homenageado por 75 alunos da Escola Estadual Protásio Alves,com 75 rosas, cada uma por ano de existência desse poeta maravilhoso. Foi um momento de grande emoção. Autografou seus livros por mais de duas horas sem parar. Ficou muito feliz.

Entre os bilhetes que começaram a circular entre o público, Josué Guimarães e os escritores convidados, surgiu um espaço ficcional de encontros entre os integrantes dos dois públicos – a cuia localizada na praça central de Passo Fundo. Muitos encontros foram acordados pelos bilhetes, muitas juras de amor foram ensaiadas para este momento, muitos pedidos foram feitos. Durante várias edições das Jornadas, esse espaço da cuia de chimarrão foi recorrente nessa comunicação do público com seus escritores preferidos.

Momentos de descontração aconteceram no palco,vivenciados por convidados especiais. Lembro-me da atuação de Otto Lara Rezende, Fernando Sabino, Millôr Fernandes brincando de garçons, carregando bandejas, cantando… O então senador Eduardo Suplicy invadiu o palco onde faziam uma apresentação Paulo e Chico Caruso e a Banda Avenida Brasil, Suplicy cantou e desejou continuar fazendo um discurso. Tive que conduzi-lo, determinadamente, de volta à platéia. Muitos risos…

O querido Emicida, convidado a falar no palco de debates e, posteriormente, cantar, foi intimidado por sua agente empresarial a não participar da fala em que diria o que representa se constituir na voz de uma grande comunidade. Emicida não deu ouvidos à recomendação de que não deveria falar antes de cantar. Permaneceu no palco os 15 primeiros minutos que foram orientados por sua agente, ficou mais cinco minutos, mais dez, mais quinze, permaneceu por mais de uma hora, falou, debateu, foi grandioso em sua manifestação, enriqueceu as vozes também magníficas de Sérgio Vaz e Alejandro Reyes. Foi um final de Jornada maravilhoso!!!!

Tânia, você pretende continuar na produção cultural? Tem planos para novos eventos literários?

Sou professora na Universidade de Passo Fundo há 44 anos. Tenho 67 anos de idade. Pretendo permanecer na instituição até completar 70 anos. Na UPF, tenho um contrato de 40 horas semanais. Mas o maior contrato que tenho é com a vida. Farei tudo que for necessário para  conviver com meus queridos familiares, para atender desafios, convites… Sou pesquisadora na linha de leitura e formação do leitor. Tenho  o compromisso de orientar futuros mestres e doutores não apenas em suas dissertações e teses, mas especialmente a serem profissionais transformadores. Nasci para agitar. Nasci para transformar. Nasci para me inconformar com a mediocridade que se instala nas instituições a partir do comportamento de pessoas. Nasci para sonhar. Nasci para sonhar o possível, mas especialmente, o impossível.

Atualmente, muitas festas e feiras literárias estão surgindo no país e algumas tendo a Jornada de Passo Fundo como influência. Tania, com vasta experiência na área, qual conselho você dá para os curadores?

É necessário atender distintos públicos, leitores, leitores em formação, não leitores, viabilizando o diálogo com escritores experientes, escritores cujas obras estão se consolidando, escritores emergentes, vozes das comunidades. Estamos no Brasil. Precisamos observar a realidade e lutar para transformá-la pela leitura.

Você foi pela primeira vez na Flip, como foi esse contato com Paraty e a Festa Literária?

Apreciei demais participar de uma festa literária realizada numa cidade historicamente privilegiada por seu patrimônio arquitetônico. Apreciei demais a comunicação entre os turistas e os habitantes de Paraty.  Gostei muito da programação dos diferentes segmentos.  Surpreendeu-me o entusiasmo com que todos os segmentos do livro e da leitura atuam, respeitando suas naturezas institucionais, mas celebrando a leitura como um grande bem. Apreciei muito a construção de parcerias mais que inteligentes. Curti muito encontrar escritores, editores, leitores, não leitores, todos felizes, todos festejando a literatura. Foi uma oportunidade muito feliz criada por dois convites que recebi: do Instituto Itaú Cultural e do Instituto C&A. Agradeço publicamente a Eduardo Saron, Claudiney Ferreira, Patrícia Lacerda e Volnei Canônica. Esses convites recebi como reconhecimento à minha trajetória de 34 anos pelas Jornadas Literárias de Passo Fundo.

Como está a Educação no país? O que é ser professor no Brasil. Também, docente há mais de 40 anos, como está o ensino superior?

Há um grande distanciamento das universidades brasileiras e o mercado, entre as universidades e as escolas, entre as universidades e as aspirações de crianças e jovens.

Preferem os jovens a comunicação pelas redes sociais à comunicação presencial. Selecionam os jovens leituras para além da escola, para além das preferências dos professores, para muito além do que se pode imaginar. Leem crianças e jovens o que selecionam como prioridade. Envolvem-se com jogos eletrônicos porque acreditam que brincar é pensar. Fragmentação e superficialidade caracterizam os jovens da geração Y. Essa realidade precisa ser observada, especialmente quando, ao lado de leitores silenciosos, meditativos, surgem leitores das telas e, mais recentemente os leitores dos equipamentos móveis, chamados de leitores ubíquos (Santaella, 2014). Livros impressos coexistem aos e-readers. Temos necessidade de professores leitores em todos os níveis de ensino. Temos necessidade de professores e de alunos que acreditem em seus potenciais para transformar a realidade em que estão inseridos. Temos necessidade de desenvolver novas formas de ensinar e de aprender coletivamente, colaborativamente.

Se você pudesse indicar um livro para o ministro da Educação, qual indicaria?

Eu não indicaria nenhum. O atual Ministro da Educação é um filósofo renomado, respeitado por sua caminhada profissional. Já leu as obras mais significativas da filosofia, da educação, da literatura. Se eu pudesse trocar essa indicação de livro por uma sugestão de visita a escolas, escolheria uma escola pública do interior do Brasil em que ele pudessee conversar com professores e alunos. Que pudesse ouvir seus anseios. Que pudesse ouvir suas dificuldades. Que pudesse constatar o que é viver e sobreviver sem perspectivas de futuro. O que é viver sem perspectivas realizar sonhos.

Certamente, nesse momento, vozes de personagens dos livros que ele, Ministro da Educação, leu estarão fazendo eco a anseios, a sonhos, a outras perspectivas de vida.

Como você vê as redes sociais e recursos tecnológicos atuais? Para você, esses equipamentos ajudam no ensino escolar?

Somos seres contemporâneos.  Valorizamos a leitura de um clássico literário impresso, como temos prazer em ler o mesmo conteúdo num e-reader. São novos tempos. Não desaparecerão os livros. Conviveremos com materiais impressos e digitais. As redes sociais viabilizam novas formas de comunicação. Lamento o mau uso desse espaço inovador. O envolvimento de crianças e jovens com jogos eletrônicos demonstram situações que precisam ser valorizadas no ensinar e no aprender. Certamente, a complexidade dos novos meios de informação e de comunicação precisam ser valorizados, entendidos, bem empregados.

Tânia, o site chama-se Livre Opinião – Ideias em Debate, ou seja, este final da entrevista é um espaço livre para o entrevistado desabafar, criticar ou colocar em debate uma ideia. Tem algo a dizer?

Aos 67 anos, olho para trás e vejo minha caminhada pessoal, familiar, profissional . Não me arrependo de nada. Tudo que fiz foi pensado antes. Defendi um grande projeto: formar leitores. Lamento não ter sensibilizado os diferentes dirigentes de minha universidade e da cidade de Passo Fundo, durante 34 anos, a construírem um Centro de Eventos, um Centro Cultural. Fiz do Circo da Cultura um templo de celebração do livro, dos escritores, dos artistas, das diferentes linguagens, das novas tecnologias. Faria tudo de novo. Defendi ardentemente a autenticidade,  a determinação. Persegui o impossível . Elevei a literatura a um patamar grandioso. Consegui, junto com parceiros importantes, angariar recursos para viabilizar o grande projeto Jornadas Literárias de Passo Fundo durante mais de três décadas. Somente foi grandioso porque foi coletivo. Somente teve uma trajetória crescente porque foi construído com a ajuda de muitas mentes. Somente assumiu uma singularidade porque pretendeu transformar pessoas para melhor, pela leitura.

O que não entendo é por que, quando se fala em educação sintonizada com cultura, os projetos precisam ser validados a cada edição. Andei de Herodes a Pilatos buscando recursos desde os mais tímidos até valores de grande monta. Se cansei? Claro que não. Tive impedimento de natureza física para continuar essa tarefa hercúlea. Se estou triste pelo tratamento que está sendo dado pelas instituições co-promotoras das Jornadas Literárias  no momento? Não. Estou constatando concretamente a falta de leitores, a dificuldade de  as pessoas compreenderem a importância de uma movimentação cultural com fins transformadores. Estou constatando a indiferença com que crianças, jovens, adultos, idosos são tratados especialmente tentando distanciar esses públicos do mundo ficcional literário, das manifestações da arte, da cultura. Estou constatando a diferença de cidades, estados, países que valorizam a cultura de outros preocupados com feitos menores, de caráter pragmático, que não valorizam os bens imateriais.

Sigo minha trajetória pessoal, familiar, profissional sem retrocessos. Sigo realizando. Sigo tentando promover transformações coletivamente. Sigo sonhando. Sonhando o impossível.

 Entrevista: Equipe Livre Opinião

Um comentário sobre “Tânia Rösing: “Nasci para sonhar o possível, mas especialmente, o impossível”

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