Literatices e outras conversas: Corsino Fortes, um poeta singular…

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De sol a sol

      gritei por Rimbaud ou Maiakovsky

               deixem-me em paz.

[CORSINO FORTES. Pão & Fonema, 1974]

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Corsino Fortes durante palestra na UFSCar

Para Simone Caputo Gomes, mestra daqui e com o coração nas ilhas…

Já vai tarde o “Literatices” de julho. Na tentativa de adiantar, decidi escrever sobre um determinado tema, mas um fato acabou me demovendo do projeto: a perda irreparável de um grande escritor. Faleceu, neste dia 24/07, o poeta cabo-verdiano Corsino Fortes. Coincidência das Moiras (ou, talvez, não), mas deu-se exatamente no dia do meu aniversário. No meio de alegrias, uma nota de tristeza.

Conheci a obra de Corsino Fortes pelas mãos de Carmen Lucia Tindó Secco, nas disciplinas de Literaturas Africanas, no curso de Doutorado na UFRJ. Mas foi com Simone Caputo Gomes que se deu o arrebatamento decisivo e definitivo. Com ela, tive uma dimensão mais específica da obra e da importância do nome do poeta dentro do cenário das Literaturas de Língua Portuguesa.

Natural do Mindelo (Ilha de São Vicente), Corsino Fortes desempenhou funções diplomáticas, como Embaixador de Cabo Verde, em Lisboa, e foi Ministro da Justiça do país, tendo formação em Direito, pela Universidade de Lisboa. Além destes cargos, teve uma participação decisiva nos caminhos da vida cultural e artística do seu país: foi Presidente da Associação dos Escritores Cabo-Verdianos e da Academia Cabo-Verdiana de Letras.

Mas, foi como escritor e poeta que Corsino Fortes desempenhou a melhor de suas atuações. Longe dos holofotes das pseudo-celebridades (felizmente, diga-se de passagem), muito acima de modismos estéticos típicos de mover arrebatamentos febris que levam a nada, o autor de Pão & fonema (1974) consagrou-se por uma poética de densidades rítmicas e de intenso trabalho na ourivesaria estrutural do texto. Já, em 1986, há quase 30 anos, Pires Laranjeira destacara os aspectos mais singulares da obra de Corsino Fortes, no Simpósio Internacional sobre a Cultura e a Literatura Caboverdianas, no Mindelo, e depois publicados em forma de ensaio em De letra em riste: “[…] Pão & fonema é um livro de poemas (ou um longo poema), por vezes cerrado e inextrincável, que exige extrema paciência e um labor meticuloso. Estamos convencidos de que mesmo os poemas aparentemente mais fáceis de interpretar dependem de finíssimas redes de transtextualidades imprevisíveis e surpreendentes. A questão fundamental, então, é resolver a contradição entre a extrema qualidade de uma poesia que deveria ter uma grande audiência e a dificuldade de aceder à pluralidade dos sentidos que ela suscita” (1992, p. 86).

Aqui, o renomado ensaísta português já sublinhava um detalhe particularíssimo da poesia de Corsino Fortes: dono de uma escrita densa, só os iniciados poderiam entrar nos domínios de sua obra e compreender os meandros daquela “pluralidade de sentidos” que ela oferece. Mas, o banquete textual corsiniano não constitui uma mesa farta de prazeres facilmente digeríveis. Aí, na verdade, parece residir a sedução da sua forma de escrever: dá-se prazerosamente, mas é preciso “extrema paciência e um labor meticuloso” dos seus leitores. Teria, talvez, o ensaísta sugerido que nem todo leitor teria condições de entender a dimensão plurissignificativa de Pão & fonema? É provável que sim, mas não no sentido de que Corsino Fortes seria um poeta inacessível, muito pelo contrário, a laboriosidade seria exatamente a maneira sedutora com o que o autor caboverdiano convidaria o leitor, afinal, nem tudo que é fácil é atrativo. Da mesma forma como nem tudo que é trabalhoso constitui um terreno impossível de ser penetrado e descoberto. Em termos de leitura, não me parece que haja convite mais arrebatador. Ainda assim, não há como compreender como uma poesia, com todas as suas qualidades e singularidades, ainda permaneça desconhecida entre os leitores de língua portuguesa, seja os de lá, seja os de cá. Como publicou Érica Antunes, logo ao saber do falecimento do escritor, Corsino virou passarinho, sem nunca, acrescento eu agora, ter pousado no ninho do Prémio Camões que, definitivamente, merecia. Se, por um lado, esta recompensa não houve, por outro, foi justamente galardoado com o Prêmio Literário do 40º. Aniversário da Independência de Cabo Verde, dias antes do seu falecimento.

Reconhecido no seu país como um artista ímpar, Corsino Fortes publicou três obras: Pão & Fonema (1974), Árvore & Tombor (1986) e Pedras de Sol & Substância (2001), reunidas, neste mesmo ano numa trilogia – A cabeça calva de Deus (2001) – reunindo os títulos até então editados. E, depois de um longo período de recolhimento de criação, lançou dias atrás Sinos de Silêncio.

Muitos poderão pensar: foi um escritor que publicou pouco em vida. Sim, em termos quantitativos, mas deste pouco que ficou há um repertório riquíssimo de rigor poético, de trabalho delicado e laborioso com a linguagem, de respeito e tratamento apaixonado pelas nuances que a língua portuguesa pode oferecer, de imagens e recursos criados pela força da abordagem poética, enfim, como afirma Ana Mafalda Leite, de criação poética que, aliada “[…] à profecia, ou revestindo-se do tom oratório desta, encena, faz coexistir na entidade do poeta, o profeta, a vidente, que estabelece relação com os deuses”, daí a possibilidade de nela vislumbrar “[…] um tempo mítico nacional, de historicidade nascente e aspiração colectiva ao cosmos cabo-verdiano” (1995, p. 144-145).

Quem já teve a oportunidade de ver e ouvir Corsino Fortes em mesas redondas poderá concluir com facilidade esta imagem do poeta-profeta. Se sua poesia é marcada por uma densidade que alia forma e conteúdo, linguagem e mensagem, sua performance não fica diferente. As leituras que fazia do próprio texto eram (valendo-me, aqui, de uma expressão cara ao compositor brasileiro Villa-Lobos) de “rasgar o coração”. Quem não se recordará do poema “De boca a barlavento” (de Pão & fonema), lido pelo poeta, no evento “Diálogos Atlânticos: Cabo Verde e Brasil – Encontro com os escritores Corsino Fortes, Danny Spinola, Verda Duarte e Fátima Bettencourt”, realizado em maio de 2014, na UFSCar? Transcrevo-o, na íntegra:

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Texto exemplar daquelas “finíssimas redes de transtextualidades imprevisíveis e surpreendentes” (LARANJEIRA, 1992, p. 86), não será difícil perceber os elos dialógicos com a concretude da concepção poética de um João Cabral de Melo Neto ou das disposições espaciais da folha em branco dos nossos Concretistas, por exemplo. Tudo isto prova, pelo menos, dois pontos: o primeiro reside na capacidade de estabelecer laços estéticos de leitura e tradução numa linguagem própria, sem entrar em cópias e modismos; e o segundo aponta para o valor ímpar de um poeta que não abriu mão de criar e construir o seu próprio cosmos, com a sua visão de mundo particularíssima, para além do universo ilhéu. Sem sombra de dúvidas, foi um poeta singular.

Apesar, ainda, da dificuldade de se ter acesso a uma obra tão rica, como é a de Corsino Fortes, e em virtude dos visíveis e reconhecidos esforços de pesquisadores brasileiros de colocar em sintonia todo um elenco de leitores da literatura de Cabo Verde, como é o caso da Profa. Dra. Simone Caputo Gomes (USP), fica, aqui, o convite para que outros acompanhem e entrem no grupo de seduzidos pela obra do autor de A cabeça calva de Deus.

Foi um poeta que amou a sua terra e soube ser amado por ela. E por outros também. Para encerrar, transcrevo a mensagem “Amar Cabo Verde”, de Simone Caputo Gomes, lida por mim na mesa redonda, em maio de 2014, quando da visita da comitiva de escritores cabo-verdianos a UFSCar:

AMAR CABO VERDE

Meu sentimento com relação a Cabo Verde, como estudiosa de sua literatura e de sua cultura há trinta e oito anos, lembra-me as palavras de Wolfgang Amadeus Mozart sobre o que move todo o tipo de criação: “Para produzir uma obra de arte não basta ter talento, não basta ter força, é preciso também viver um grande amor”. E para compreender a obra de arte, penso que é preciso ser receptivo ao amor, ser capaz de retribuí-lo com igual ou maior intensidade. Essa tem sido a natureza de meu trabalho ao longo desses anos: um misto de paixão, admiração e cumplicidade. E realização plena, no compromisso que se renova a cada dia, no caloroso cotidiano acadêmico com os alunos, na pesquisa que verticaliza o conhecimento a ser transmitido. Densa, complexa, dura como a pedra bruta, resistente como a cabra, alimento como o milho, violenta como o vento ou amena como a chuva, aberta para o mundo como as ilhas, para mim e para aqueles que, por via do meu trabalho assim a percebem (caso de Jorge Vivente Valentim, brilhante ex-aluno, professor e pesquisador de escol, colega e, mais do que tudo, AMIGO) a Literatura de Cabo Verde é uma força da natureza, pérola lapidada por artesãos competentes e persistentes, milagre de noites com sol que só o Amor concede. Cabo Verde, seu povo e sua cultura, na minha concepção, corporificam a determinação e a resistência, o amor pela terra, pela vida e o respeito pela diferença e pelo outro. Dessas qualidades, sentimentos e dos monumentos culturais deles resultantes tenho alimentado grande parte da minha vida. Nascida de uma miscelânea de Europas e Áfricas que se cruzam num arquipélago de múltiplas faces − ora planas, ora montanhosas, às vezes verdes, mas também desérticas, vulcânicas e mesmo lunares −, a cultura cabo-verdiana abre-se a impactos de outras culturas, como a brasileira, sempre com morabeza e alegria, embora sem subserviência: do Brasil recebe, por exemplo, o milho maiz, base de sua subsistência, e a modinha, alimento espiritual; lega, por sua vez, à terra brasilis a cana sacarina. De trocas com o espaço exterior às ilhas e de uma vocação para o mundo vive essa Nação, espalhada pelo planeta na sua intensa diáspora. Com ela temos muito a aprender, na história que guarda e no patrimônio que preserva. É imperioso conhecer melhor esse Cabo Verde irmão, que um dia imaginou o Brasil como Pasárgada exemplar! Urge admirar esse país pequeno, que tem domado com grandeza ventos históricos adversos e secas prolongadas. No dia de hoje, pela voz e pelo texto de escritores e pensadores responsáveis pelo que de melhor se produz nas dez ilhas nacaradas do Atlântico, vocês terão a oportunidade de conviver com a literatura cabo-verdiana. Generosamente lembrada pelo querido Jorge Valentim, eu não poderia deixar de estar aqui, saudando a vinda desses literatos; no impedimento de estar aqui, meu trabalho e meu amor por Cabo Verde de todos esse anos falam mais do que a minha presença. Desejo-lhes um magnífico dia de trabalho! Abraços a todos.

O poeta virou passarinho. Ou, como diria Guimarães Rosa, ficou encantado. Ainda bem que o seu canto e os seus encantamentos ficaram aqui, conosco. Basta, agora, ter a sensibilidade para reconhece-los e compartilhá-los. Acredito que esta seja a melhor forma de agradecer ao Corsino Fortes todos os momentos de alegria, amor, solidariedade e cumplicidade deixados por ele de forma sempre generosa.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FORTES, Corsino. A cabeça calva de Deus. Lisboa: Dom Quixote, 2001.

GOMES, Simone Caputo. Amar Cabo Verde. [Texto enviado pela autora em maio de 2014, especialmente para o evento “Diálogos Atlânticos: Cabo Verde e Brasil”, realizado na UFSCar.]

LARANJEIRA, Pires. De letra em riste. Identidade, autonomia e outras questões na literatura de Angola, Cabo Verde, Moçambique e S. Tomé e Príncipe. Porto: Afrontamento, 1992.

LEITE, Ana Mafalda. A modalização épica nas literaturas africanas. Lisboa: Vega, 1995.

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